TRABALHO NÃO SE APALPA
Por Lourenço Diaféria
Pior. Era pecado, como a gula, a luxúria, a usura. Parece que o poeta Dante Alighieri queria enfiar nos círculos infernais da Divina Comédia os desafetos preguiçosos, condenados a enxugar gelo durante a eternidade. Mudou de idéia. Gelo no Inferno seria liberdade poética demais.
A preguiça outrora era vista como merecedora de castigo. Criança preguiçosa tinha nota vermelha, não ganhava mesada, nem carro novo do avô quando passasse no vestibular. Namoro com pretendente preguiçoso era desestimulado. Os tempos abrandaram o rigor. Inventou-se a happy hour, raras sirenas de fábrica despertam operários indormidos, rede

apreguiça foi considerada defeito censurável. Um defeito social.
Preguiça é confundida às vezes com lazer. São coisas diferentes. O lazer é de lei, está regulamentado. Direito constitucional. Já a preguiça depende, sempre, de medida provisória. Uma pessoa normal pode passar o ano inteiro flauteando, viajando pelos mares do Sul, encostando o corpo, empurrando com a barriga, participando de reuniões de serviço, jogando gamão, no entanto, isso não é preguiça. É atividade produtiva. Preguiça é a pessoa fazer questão de mostrar que não tem coisa alguma mais importante para fazer do que não fazer nada.
No entanto, não se iludam. O homem que todas as manhãs recolhe jornais velhos, papelão, latinhas vazias de bebida no carrinho de madeira que
de caroá é oferecida para descanso de porta em porta. Descansar não ofende. Ao menos teoricamente.
Da preguiça origina-se espreguiçar-se. Espreguiçar-se em público é como comer de boca aberta, arrotar em banquete. Os manuais de bons modos estendem-se
sobre espirros, coqueluche, coriza, bocejos, mas evitam falar de espreguiçar. Não quer dizer que se espreguiçar seja defeito de caráter. Não é. Espreguiçar-se é uma ação íntima. Uma privacidade social. O casal, depois de seus 10, 20 anos de matrimônio, pode espreguiçar-se um diante do outro. Mas tem que ir devagar.
Na televisão, moderno veículo de cultura, pode mostrar-se tudo; menos espreguiçar-se. Em telenovelas não se espreguiça. Nenhum entrevistado, nenhum animador de auditório, nenhum âncora de telejornal, nenhum apresentador de programa culinário pode dizer-se à vontade e seguro de si a ponto de se espreguiçar ao vivo, em cores ou em preto e branco. No entanto, espreguiçar-se é exercício saudável, até recomendado, desde que praticado em ambiente fechado. A rigor, salvas algumas exceções, como a galinha, todo quadrúpede espreguiça-se. Mas galinha não é quadrúpede; é bípede. E galinha também se espreguiça; estica para trás as duas pernas (uma de cada vez).
roda sobre dois pneus carecas não merece status de preguiçoso. Deve acordar com o dia ainda escuro; às seis e pouco já está batendo pernas pelo bairro. Fuça os montes de lixo ensacado, remexe os disk-entulhos. Ao meio-dia, livre da carga que junta e entrega num depósito, reúne-se com
três cidadãos sentados de hábito na esquina, os quais esvaziam com um copo comunitário de plástico o líquido de uma garrafa. Na primeira impressão é um bando de simples preguiçosos. Mas não é bem assim. Um deles, o do carrinho, é trabalhador braçal. Os outros três realizam trabalho intelectual, por mais que possa parecer ironia. Debatem problemas brasileiros. Sabem o nome do ministro do Trabalho, outro dia esmiuçavam como o Doutor Enéas obteve 1 milhão e 500 mil votos sem ter nenhum cartaz de propaganda nos postes.
Preguiça é outro departamento. Preguiça é não querer olhar as coisas.
– Que é indolência? – perguntava o menino.
– Consulte o dicionário, filho.
– Estou com preguiça, pai.
O garoto não sabia que sabia. O contrário do office-boy despreocupado com definições. Tinha de despachar até o dia seguinte pelos Correios a montanha de envelopes com correspondência urgente que lotavam a saleta.
– Vai conseguir, Belmiro?
– Com certeza. Trabalho não se apalpa.

A