NOVE DEDOS
Por Lourenço Diaféria

com a barba grisalha e os cabelos cobertos de cãs, que por certo estarão ainda mais cobertos de neve à medida em que irá desbastando os problemas imensos do nosso País.
Tomei um café de garrafa térmica, paguei a conta, dei uma gorjetinha, saí caminhando devagar, pensando nas vezes anteriores em que havia votado nesse trabalhador que conhece meu País melhor que eu, que não é poliglota (bah, que palavra!), não tem canudo (sabiam que o canudo entregue nas festas de formatura universitária está vazio?), e se formou como torneiro mecânico pelo Senai, o Serviço Nacional da Indústria. Claro que todo o mundo sabe disso. Também eu sabia. No entanto, cada vez que o Lula perdia a eleição presidencial, mais eu confiava nele. Embora muita gente inteligente, fina e alegre aprecie torcer o nariz diante dos fatos e ache mais bonito olhar os problemas de cada dia do alto da realidade, acho que o Brasil precisa ser sentido na sola dos pés. Olhar o Brasil do alto de uma torre pode ser cômodo; mas não é por aí. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe das coisas terra a terra.
Por falar em torre, estou me lembrando da torre Eiffel, em Paris, capital da França, onde ex-presidentes gostam de descansar e tirar férias do árduo trabalho de governar. Na grande praça ao pé da torre Eiffel, fincada no chão, há uma tabuleta com um aviso: em caso de tempestade ou vento forte, abandone imediatamente a torre e o jardim ao redor. De fato, quando sopra a ventania, em especial no outono, até os plátanos têm vontade de sair correndo para se refugiar e tomar conhaque nos bistrôs.
Pode ser que eu esteja supinamente enganado, mas acho que o Lula vai pegar pela frente muita ventania e chuva de granizo. Será normalíssimo. Não é homem de debandar por temor de dificuldades, que já as teve imensas. Sem ilusões ocas, dele se pode esperar que resolva, entre tantos, uns nove problemas do Brasil – número dos dedos que lhe sobram nas mãos ásperas blindadas pelas experiências nas lutas da vida.
É bastante normal que uma revista, como esta que a distinta dama e o prezado passageiro estão lendo ou folheando acomodados na poltrona do avião, seja feita, quase propositadamente, apenas para manter a cabeça dos viajantes no sossego das nuvens. Ou seja, não pretende esquentar a cuca de ninguém. Logo, seria mais pertinente escolher aqui apenas um assunto passa-tempo, bom para bocejar e pedir um uísque. Acontece que não sei o que me deu na telha, resolvi fazer algumas confidências pessoais. Se o leitor e em especial a leitora achar que estou escrevendo abobrinhas, não é preciso pedir desculpas. Vire a página. E boa viagem.
Quero começar contando um casinho. Faz um bocado de semanas conheci o Toninho, dono do restaurante Barbatana, em Peruíbe, litoral sul de São Paulo. No local, simples, a comida é comestível e tão confiável quanto às refeições servidas a bordo acima do horizonte. Às tantas, enquanto eu destruía com prazer uma posta grelhada de cação, o Toninho, mais para jogar conversa fora, informou ser parente distante, bem distante, do Lula. É, esse mesmo; o Lula, que então não havia tomado posse ainda na presidência da República deste nosso Brasil.
A princípio achei que o Toninho estava querendo pegar carona na fama alheia, o que é comum. Tenho um conhecido que jura ser primo remotíssimo do falecido imperador Napoleão Bonaparte, aquele da ilha de Elba. Acontece que depois, durante o papo, numa boa, vim a saber que a também finada avó do Toninho, vó Nuca, tinha sido a parteira que atendera a mãe do nenê que ia ser batizado como Luiz Inácio da Silva. Isso mesmo: o Lula havia nascido pelas mãos da vó Nuca.
Não é curioso? Como é que de repente, totalmente ao acaso (acaso aparente; nenhum acaso acontece por acaso), comendo um peixe com pirão, feijão e arroz, me vem a imagem do metalúrgico que perdeu um dedo de uma das mãos na prensa e hoje está aí,