106 – Fevereiro de 2008

23 de fevereiro é o Dia do Boticário


O OFFICE-BOY E O VEADO DOURADO

Embora não faça meu gênero contar vantagens, em especial no princípio de ano par, não me custa declarar com relativo orgulho que fui office-boy. Na época, era comum office-boy não ter motos, menos ainda motocicletas.
Como se sabe, ou não se sabe, as motocicletas foram inventadas por um senhor nipônico imaginoso que, aborrecido por haver perdido a safra de tomates, decidiu mudar de ramo. Porém não pretendo entrar nesse assunto técnico. Volto a escrever sobre coisas simples, que não exigem invencionices intelectuais.
Como já revelei, meu ingresso na especialidade conhecida como serviços de office-boy não exigia, então, conhecimentos específicos. Bastava apresentar-se à paisana, unhas cortadas, relativamente asseado, lenço, indumentária digna e, claro, mascando chiclete. O emprego não exigia diploma. O que se requeria era boa educação, também conhecida como civilidade, alguns parcos conhecimentos de logaritmos e umas tênues fumaças de boa vontade. O resto se aprendia com a prática da vida.
No meu tempo, longínquo, tive excelentes mestres. O principal deles me ensinou a lidar com um aparelho supostamente de galalite, negro, que servia para enviar e receber mensagens de clientes, amigos, conhecidos e pessoas que tinham errado a ligação. Seu nome era (não o do telefone, mas do mestre) Doutor Affonso, com dois efes. Criatura boníssima, mas um pouco irascível, em especial quando algum cavalo não cruzava a fita de chegada.
Todavia não desejo me desviar do assunto. Vamos ao que de fato interessa. Sabe-se que, historicamente, desde os remotos tempos em que surgiram as boticas, o estabelecimento brasileiro que mais contribuiu para o progresso da civilização paulista foi a Botica ao Veado D’Ouro, que funcionou na tradicional rua São Bento, no caminho do mosteiro beneditino. A botica foi o principal ponto de referência na cidade. Como já insinuei, uma das coisas que mais marcaram minha precária infância nos tempos de office-boy foi o veado dourado que pontificava na frente do estabelecimento, com sua presença hierática anunciando a cura ou o alívio de males de todo tipo. Sem o veado da botica, imagino que a cidade não teria a quem recorrer. Seus funcionários, limpidamente de branco, como anjos, pareciam ser capazes de sanar todas as dúvidas da Humanidade.
Sem dúvida, foi uma época. Nem sei se o veado dourado continua em seu modesto trono. Mudei de rua, de destino, de males da vida, de rumos. Sei apenas que a velha botica deixou uma lacuna. Não digo, não afirmo, que tenha mudado em definitivo de endereço, de razão social, trocado de vizinhos, alterado as históricas receitas, mudado de bulas, substituído os receituários. A verdade é que a cidade alterou-se, permutou suas máscaras, passou a viver outros ritmos.
Se me falta realidade, é pura besteira ficar aguardando no ponto a passagem de algum bonde inventado na imaginação. Nem mesmo existe o cheiro de folhas maceradas que havia nas velhas boticas. Botica agora é nome fantasia do futuro dos tempos novos.



Texto por Lourenço Diaféria,
especial para o ALMANAQUE BRASIL