Tinha acabado de me demitir da fábrica e fui trabalhar como assistente de arte na Rua Vieira de Carvalho, centro de São Paulo, no estúdio do Pingo, alma generosa que acolhia meninos pobres e ensinava a desenhar. Ali trabalhávamos eu e o Luiz Gonçalves, mulato alto, outra alma generosa, muito bom desenhista.
Acho que era 1966. Tomava café no bar. Sempre com dinheiro contado, apenas para a condução, o café com leite e o pão com manteiga. Pouco antes do Natal, a cidade enfeitada, entrei no bar. Ao lado, um homem perguntou ao garçom quanto custava o copo de leite frio e um pãozinho sem manteiga. Percebi que não tinha dinheiro nem para aquilo.
Com todo cuidado, disse a ele que eu poderia completar o que lhe faltava para o desjejum. Eu era garoto, provavelmente da idade dos filhos dele. Ele me olhou chorando, agradeceu e se afastou constrangido.
Todo Natal me lembro da cena. Nem esqueço que, numa travessa da Vieira de Carvalho, ficava o restaurante Dom Casmurro, onde a garçonete pernambucana, chamada Dora, todo dia nos alimentava com a única ração que não dependia de pedidos na cozinha: salada de batata com pãozinho.
Dora, querida senhora, que durante quase três anos nos deu o que comer sem que o patrão soubesse, minha gratidão e Feliz Natal, onde você estiver. Jamais a esquecerei.
Feliz Natal, Dora
Elifas Andreato