No final do ano, voltei à terra natal, Norte do Paraná, acompanhado de minha mulher, Cleide. Durante anos, alimentei a idéia estúpida de que, por ter obtido algum sucesso em São Paulo, minha presença iria constranger os parentes de Rolândia, a 18 km de Londrina. Ou que não conseguiria lidar com a pobreza e a humildade de minha gente, que deixei com pouco mais de 12 anos.
Cheguei de táxi, sem avisar. Rodei pela cidade para reconhecer os endereços sozinho. O primeiro que identifiquei foi o da casinha de madeira onde vivi na infância. Contemplei a fachada onde minha mãe pendurava flores plantadas em latas. Depois, a casa e marcenaria do avô paterno, onde moram tia Maria e tio Manuel, endereço do meu primeiro emprego: lustrador de móveis que esta parte da família fabrica até hoje.
Ali parado, lágrimas nos olhos, esperei que me reconhecessem. Fomos recebidos com alegria que jamais esquecerei. Lá passei a noite de Natal como havia tantos anos não passava. E viajei 400 km rumo sudoeste, até Curitiba, para rever a parte materna da família, e a recepção foi a mesma. Pensei que este velho coração não resistiria.
Depois de tanto carinho, pensei: da família, o pior sou eu. Todos formaram os filhos na simplicidade. Formei também os meus, razão de minha vida. Mas, pessoalmente, não consegui a felicidade plena daquela gente que, por presunção e medo, não queria rever.
E, se não for pedir muito, quero rever tio João, sanfoneiro. Ele tentou me convencer a ficar em Rolândia, para ver o que só lá existe, "os fogos de artifício no fundo da igreja do padre Zé, na passagem do ano".
A lição que ficou de tudo, e da simplicidade do tio João, é que a felicidade pode ser apenas olhar o céu colorido, mesmo que uma vez por ano.
Daqui para frente, farei isso todos os dias para ver se também encontro a tal da felicidade.
DE VOLTA AO PRESENTE
Elifas Andreato