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_________________________________________________DIA DO LATINO-AMERICANO
m jovem uruguaio, na década de 1960, viajou pela América Latina convicto de
LOUCO POR NÓS
EDUARDO GALEANO, PENSADOR DO CONTINENTE
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________________________________________________________DIA DO POETA
á dez anos, Hilda Hilst lançou Bufólicas, livro de poemas com títulos curiosos: O Reizinho Gay,
em Jaú em 1930, descendente de família tradicional, bonita e viajada, não gosta de ser lembrada apenas pelo conteúdo erótico de alguns de seus livros.
“Não é verdade que as relações sexuais sejam uma fixação nos meus livros. Dos meus 36, apenas quatro podem ser classificados de obscenos.”
Críticos, como Leo Gilson Ribeiro, afirmam que Hilda é a mais perfeita escritora em língua portuguesa viva. O amor, a morte e Deus são temas básicos. Vive reclusa desde a década de 1960 em sua Chácara do Sol, no interior de São Paulo, cercada por amigos e dezenas de cães. Leu obras literárias, livros de física, matemática e filosofia. Foi amiga do físico Mário Schemberg (1914-1990), a quem dizia que “expressões como ‘número quântico de estranheza’, ‘algures absoluto’ ou ‘luz interdita’ tinham tudo a ver com poesia e metafísica”. A ousadia e a irreverência talvez sejam as maiores marcas de Hilda. Para ela, “poesia é uma espécie de exercício do não-dizer”.
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_______________________DIA NACIONAL DO COMPOSITOR
"APERTEI A MÃO DO MESTRE E FIQUEI SEM FALA"
Estávamos em 1956. Eu tinha 18 anos e era um novo compositor da Escola de Samba Aprendizes da Boca do Mato. Naquele ano a escola desfilou com um samba-enredo de minha autoria, o primeiro que fiz, sobre a vida de Carlos Gomes:
Viemos contar a história
De um maestro cheio de glória
Carlos Gomes
O nome do Brasil elevou
Nasceu na cidade de Campinas
Aluno do seu genitor
Regente de orquestra
E grande compositor

Partiu para a Europa
Com o apoio de Pedro II
Empolgou os estrangeiros
Tornando-se famoso em todo o mundo
Noites de Castela, O Escravo, O Guarani
Sinfonias belas
As mais lindas que eu ouvi

avalo de Aço, Bira. Apelidos de um dos maiores pivôs do basquete brasileiro. Paulistano, nasceu Ubiratan Pereira Maciel em 18 de janeiro de 1944.
Com 1m98, não tinha altura de pivô.
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____________________________________________DIA DO PINTOR DE PAREDE
JÁ OUVIU ALGUÉM FALAR DO GUIDO?
ENTÃO VEJA
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______________________________________________________DIA DO MÉDICO
ALIVIADOR ALIVIA DOR
amenizar o problema está a organização não-governamental Aliviador, tendo à frente o médico João Augusto Bertuol Figueiró.
Figueiró conduz a Caravana Aliviador, visitando cidades, dando entrevistas e
palestras para que o assunto ganhe a dimensão adequada na preocupação de todos. Esclarece a classe médica sobre o Aliviador – Programa Nacional de Educação Continuada em Dor e Cuidados Paliativos, que completa um ano em outubro – iniciativa de um grupo de médicos ligados ao Centro de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, do Instituto Nacional do Câncer, da Unicamp (Campinas) e da Liga Paranaense do Câncer. Tornou-se programa oficial da Associação Médica Brasileira. A partir de 18 de outubro de 2002, manterá página na internet com informações sobre o projeto: www.aliviador.com.br.
“Temos muito o que fazer e acho que caminhamos lentamente. Mas, toda vez que penso nisso, lembro de uma mensagem da Organização Mundial de Saúde, afirmando que nossa velocidade está admirável. Nem nos Estados Unidos o processo está tão ligeiro.”
dor atinge 50 milhões de brasileiros e traz prejuízos para pacientes e empresas. Por trás das ações para
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_______________________________________________DIA DA DEMOCRACIA
DEMOCRACIA ENTROU PARA A CLANDESTINIDADE,
ALZIRA TAMBÉM
"Vale a pena insistir”: assim Alzira Grabois definiu seu movimento pela democracia. Militante e representante de pessoas que perderam parentes na ditadura militar (1964-1985), em 1973 viveu drama pessoal: perdeu o marido Maurício Grabois, o filho André e o genro Gilberto Olímpio, na guerrilha do Araguaia. Os três desapareceram combatendo militares no sul do Pará.
Alzira viajou para o Araguaia em 1980, à procura de informações, sem sucesso. Sofrimento que a levou a exigir seus direitos. Membro da Associação de Mulheres da Gávea, fundou o Movimento de Mulheres pela Anistia e o Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, em 1986. Encontrou formas de denunciar esse período triste da nossa história, lutando por liberdade política, direitos humanos, exigindo
PÁGINA INFELIZ
malária nas selvas da Venezuela.
De volta a Montevidéu, com a bagagem cheia de histórias e vivências, foi atrás de livros e relatórios econômicos para “provar, através de documentos, que nossa situação atual não é o resultado de desígnios da natureza”.
Galeano viveu 12 anos no exílio. Na Argentina, fundou e dirigiu a revista Crisis; na Espanha, concluiu a trilogia Memórias de Fogo, livros que contam pequenas histórias da América Latina desde a chegada dos europeus.
Em 1996, lançou Futebol ao Sol e à Sombra, em que revela sua paixão pelo futebol-arte dos sul-americanos, contra o futebol de resultados dos europeus. Impossível ser mais latino-americano que este pensador do continente. Ele poderia ter assinado embaixo na música de Gilberto Gil, Capinam e Torquato Neto: Soy Loco por Ti, América.
ALGURES ABSOLUTO
HILDA VÊ POESIA ATÉ NA FÍSICA QUÂNTICA
Walter Rosa, compositor-ícone da Portela, falou pra todo o mundo que meu samba era muito bom e fiquei envaidecido. Entretanto, não levei muito em conta, porque o Walter era meu amigo.
Eu já admirava a musicalidade do Silas de Oliveira, mas não o conhecia. Aí o Walter chega num dos ensaios dos Aprendizes com o Silas e me diz:
“Martinho, este aqui é um monstro da música. Eu não gosto de falar não, mas dizem que ele é o maior de todos nós. Só o trouxe porque ele já ouviu uns sambas teus e me disse que queria te conhecer.”
Eu apertei a mão do mestre e fiquei sem fala. Mal consegui dizer:
“Muito prazer.”
Silas era de poucas palavras, eu também não era de muitas, e só conseguimos conversar um pouco porque o Walter Rosa era bom de prosa e não nos deixou ficar mudos. O mestre pediu pra eu cantar o Carlos Gomes, elogiou o meu samba simples e depois cantarolou pra mim o antológico Cinco Bailes na História do Rio, obra-prima pela qual eu babava:
Carnaval… doce ilusão
Dá-me um pouco de magia
Eu não sabia que ele criou o samba em parceria com Dona Ivone Lara e Chocolate. Não conhecia também a Dona Ivone e foi o Silas quem me falou dela.
Um pintor de olhos atentos para cores, cenas e paisagens urbanas. Pouco conhecida e divulgada, a obra de Guido Poianas mostra imagens figurativas, primorosas no trato com luzes e sombras. Guido (ao lado, auto-retrato de 1956) nasceu na Itália em 1913 e aos 11 anos veio com a família para o Brasil. Em 1927, os Poianas instalaram-se em Santo André, cidade industrial que mais tarde formaria o famoso ABC paulista, junto com São Bernardo do Campo e São Caetano. Guido ganhava a vida pintando paredes.
Vendeu poucas telas. A maior parte deu de presente, trocou por remédios na farmácia ou ofereceu para pagar conserto de geladeira. A luminosidade é marcante. A preocupação social também. Guido era sindicalista, tinha amigos anarquistas e o pai militava no Partido Comunista. Enaltecia o operário e o mundo do trabalho. Retratava paisagens urbanas com preocupação
pouca gente. Na tela Primeiro de Maio, Guido retrata uma rua quase deserta, com enorme faixa saudando a data. Um amigo pergunta onde estão os trabalhadores. Guido responde: “O pessoal já foi pra casa e deve estar almoçando.” Admirava Portinari, com quem teve contato. Guido morreu em 1983 e a maior parte de sua obra encontra-se no Museu de Santo André. Um velho companheiro, Philadelfo Braz, juntou-se ao pesquisador José Armando Pereira da Silva para lançar um livro-catálogo sobre a obra de Guido. O museu prepara exposição para novembro. Chance de conhecer o trabalho de Guido e lhe dar lugar na história das artes plásticas do Brasil.
documental. Quadros de cores vivas, não naturais, com
Daí pra frente ficamos amigos.
Fizemos parte do Grupo Opinião, que patrocinava um evento no Teatro de Copacabana chamado A Fina Flor do Samba, organizado pela Tereza Aragão, mulher do poeta Ferreira Gullar que gostava muito da gente.
Eu morava em Pilares e depois de uma noitada levei o Silas lá pra casa em companhia da Maria Aparecida, uma pretinha
miúda, extremamente magra, que tossia muito, amiga nossa. Aparecida foi cantora de um único compacto simples e também de um único sucesso:
Boa noite quem é da noite, boa noite quem é do dia.
Ninguém gostava de andar muito com ela porque era tísica, mas o Silas gostava dela. Daquele dia em diante, de vez em quando eles iam se esconder lá em casa.
Minha mãe o admirava muito e dizia:
“Não sei como pode um homem tão educado namorar essazinha aí, que só vive tossindo.”
Maria Aparecida, não demorou muito, parou de tossir para sempre e o Silas morreu “numa batucada de bambas, na cadência bonita do samba”, sonho do grande Ataulfo Alves. O gênio foi pro céu no meio de uma roda de sambistas no Teatro Opinião.
Na obra dele, além dos Cinco Bailes eu particularmente destaco A Festa do Divino, outro sobre Maurício de Nassau, o eterno Aquarela Brasileira, grande sucesso da minha carreira e de maneira especial o Heróis da Liberdade, que eu, emocionado, gravei no meu disco deste ano – Voz e Coração.
Com saudades.

Martinho da Vila é cantor e compositor.

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______________________________________________DIA DO BASQUETE
MUDOU NOSSO BASQUETE NO TAPA
‘‘O basquete brasileiro divide-se em antes e depois de Bira’’, define Milton Setrini Júnior, o Carioquinha, armador por 15 anos da Seleção Brasileira.
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_______________________________________________________DIA DO PROFESSOR
SEM DINHEIRO PARA LIVROS, LIA DIRETO NAS PAISAGENS
Nasci num entremeio de um mar de morros
No poema escrito na ado-
lescência, Aziz Nacib
Ab’Saber prenunciava a ciência que abraçaria. Um dos mais respeitados geomorfologistas do Brasil, o paulista Aziz veio ao mundo em 24 de outubro de 1924, em São Luís do
Paraitinga, Vale do Paraíba. Quando a família se transferiu para São Paulo, Aziz prestou exame para o curso de Geografia e História na Universidade de São Paulo. Começaria a construir carreira sólida e brilhante.
O preço dos livros e das assinaturas das revistas era um empecilho. Nas excursões, descobriu que podia ler a paisagem em vez de livros. Bastava ter
saúde e boa vontade. Começou a fazer viagens. Sem ter máquina fotográfica, aprendeu a desenhar.
Formado, tratou de conhecer o Brasil. Filiou-se à Associação dos Geógrafos Brasileiros, o
que lhe permitiu viajar e publicar notas. Começou a trabalhar na universidade. Tomava conta da biblioteca. Passou a prático de laboratório até fazer doutorado e livre-docência. Sobre o ensino da Geografia, diz:
“A principal missão do professor de Geografia é ajudar o aluno a entender o local onde vive e atuar sobre ele.”
Rubião foi cruel com o serviço público. No conto O Ex-Mágico da Taberna Minhota, um atormentado mágico, que tira cobras e lagartos do chapéu, tenta o suicídio entregando-se a leões saídos do próprio casaco. Sem o resultado esperado, ele mesmo os engole esperando fatal indigestão. Frustrado, acha solução na rua:
ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos. Suas narrativas percorrem o mundo onde o que era fantástico parece ter virado realidade. Um enfarte levou Rubião em 1991.
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_____________________________________________DIA DO FUNCIONÁRIO PÚBLICO
A combinação escritor mineiro-funcionalismo público rendeu muito para a literatura brasileira. Além de Drummond e Guimarães Rosa, gerou Murilo Rubião, nosso primeiro contista moderno a enveredar pelo fantástico.
Nascido em Carmo de Minas em 1916, leu na infância contos de fadas, Dom Quixote e a Bíblia. Lançou Ex-Mágico em 1947. Compararam Rubião a Kafka, escritor tcheco e maior nome do gênero fantástico, de quem ele mal tinha ouvido falar.
Passou a vida no serviço público. Foi chefe de gabinete do governador Juscelino em 1951; adido na Espanha em 1956. Aposentou-se na Imprensa Oficial, onde lançou o suplemento literário do jornal Minas Gerais.
Criava histórias absurdas, tratadas com naturalidade. “Nunca me espanto com o sobrenatural, com o mágico”, dizia. Assim é a história do sujeito que mora com um coelho que fala, fuma e tem namorada humana (Teleco, o Coelhinho, do livro O Pirotécnico Zacarias, 1974). Assim também, no conto Alfredo, o personagem narra à mulher a conversa que teve com o irmão, um dromedário, tentando “explicar-lhe que o sobrenatural não existia”.
COISA MAIS NATURAL: TIRA LEÕES DO CASACO E OS ENGOLIU
esclarecimento das mortes e desaparecimentos.
Em 1962, funda o Partido Comunista do Brasil (PC do B). Com o golpe militar, muda do Rio para São Paulo e vive na clandestinidade até março de 1980. Formada em Direito, militou até sua morte em 29 de outubro de 1999. Deixou muitas conquistas no combate contra a opressão e o esquecimento.
que era preciso contar a história do continente com outra visão: a dos vencidos. Eduardo Galeano, escritor e jornalista, escreveu As Veias Abertas da América Latina, lançado em 1971 e publicado no mundo todo. Com pouco dinheiro, viajando de ônibus, caminhão, cavalo e trem, conviveu com mineiros de estanho no altiplano boliviano, índios no Alto Paraná, pegou
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A Rainha Careca, A Fadinha Lésbica. Dizendo-se cansada da “literatura séria” e do esquecimento a que estava relegada, resolveu ser mais pornográfica. O livro, relançado este ano, faz parte de projeto da Editora Globo de lançar a obra completa de Hilda. Jaguar ilustra os obscenos, cômicos e despudorados poemas de Bufólicas e não perde a oportunidade de exercer os dons de um sátiro desenhista. Essa senhora, nascida
Inovou. Veloz, saltava primeiro para atrapalhar os adversários. Enquanto o outro descia, Bira subia para ficar com a bola. Dominava o garrafão. Ganhava rebotes e acionava contra-ataques rápidos. Mudou o estilo do nosso basquete. Deixava adversários desconcertados com os tapinhas que dava na bola.
Em 1959, praticava atletismo. O treinador sugeriu basquete. Foi o primeiro brasileiro a jogar no exterior, em 1970, na Itália.
Incansável. Com Bira, o Brasil foi bicampeão mundial em 1963; prata em 70; bronze em 67 e 78; e bronze nas Olimpíadas de 64. Campeão paulista 11 vezes: cinco no Corinthians, onde jogou oito anos. Único brasileiro cotado para o Hall da Fama, nos Estados Unidos.
Com mais de 20 anos de carreira, em 1985, o Rei do Tapinha se aposentou. Dever cumprido. “Com garra e tenacidade”, concluiu. Morreu em 17 de julho de 2002, aos 58 anos.
Por MARTINHO DA VILA, especial para o ALMANAQUE BRASIL
NASCEU GEÓGRAFO
ANTES TARDE DO QUE NUNCA