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25 – Abril de 2001

21……………………Dia de Tiradentes

CONFISSÕES DO HERÓI
(quando Tiradentes abre o coração e fala de seus sonhos)

Por Roberto Drummond


Tiradentes por Décio Villares, 1928

Irmão Tiradentes, tu, por quem sonhaste?

Pelos pobres filhos da América, sonhei. Pelos humilhados e ofendidos, sonhei. Pelos deserdados do mundo, sonhei. Pelos brasileiros, como tu e eu, sonhei. Ah, eu sonhei o melhor sonho que existe, o sonho acordado, de olhos abertos, então eu via meus irmãos brasileiros tendo direito a trabalho e a escola, a pão e salário, a amor e a solidariedade e a liberdade. Conspirando à luz de vela, eu descobri que a maior reivindicação que existe e ainda hoje não foi atendida, não é apenas terra para os sem-terra, casa para os sem-casa, esperança para os sem-esperança. A maior reivindicação de todas é a felicidade.

Por que mais sonhaste, irmão Tiradentes?

Sonhei pela liberdade como se fosse uma mulher. Como se a liberdade tivesse corpo de mulher, olhos de mulher, boca de mulher, mãos de mulher, cabelos de mulher, e as grandes e as pequenas esperanças de uma mulher. Sonhei com uma liberdade criança. Uma liberdade querendo brincar, fazer festa, a festa do povo brasileiro, por que liberdade não é gritar abaixo o tirano, a liberdade é não ter tirano, por isso a liberdade é festa. Ser livre não é gritar: abaixo a ditadura, ser livre é não ter ditadura, ser livre é não ser escravo do rei, nem da coroa, nem dos pensamentos e das idéias que nos escravizam e nos tiranizam.

Diz, irmão Tiradentes, por que conspiraste?

Pelo sonho de ser livre, eu conspirei, que conspirar vem de Minas, está na alma de Minas, está em mim e em ti, e em todos os filhos de Minas. Há sempre um sino das igrejas de Minas tocando dentro da gente. Há sempre a voz das beatas do interior de Minas cantando desentoadas numa procissão dentro do peito da gente. Sempre uma rebelião em curso. Sempre uma conspiração em curso. Sempre a liberdade dançando como uma bailarina inspirando a conspiração da gente. E eu sempre acreditei numa conspiração dentro da conspiração, uma rebelião dentro da rebelião, uma revolução dentro da revolução.

Irmão Tiradentes, por que, em vez de capitular diante da tirania, preferiste morrer?

Por uma pátria livre, eu morri. Pelos irmãos brasileiros, livres e iguais e solidários, eu morri. Por uma pátria que planta sonhos e colhe felicidades.

Em que pensaste, irmão Tiradentes, na hora em que iam te matar?

Pensei em beber um conhaque.
Em beber um conhaque, irmão Tiradentes?

Isso mesmo, pensei em beber um conhaque. Pensei nas coisas simples que podia ter feito e não fiz: beber um conhaque, andar descalço na chuva, dançar nas festas, galopar a cavalo, ficar olhando as galinhas ciscando a terra, ficar vendo o rio correr, que a liberdade é simples como pão, e não é solene. Tive de morrer para saber: a liberdade não é apenas pra tu e eu falarmos o que quisermos, não apenas pra mudar o destino da gente, a liberdade é pras coisas mais simples: tomar um sorvete de morango, comer o pé de moleque que a avó da gente faz.

Irmão Tiradentes, isso lá são modos de um herói falar?

Um herói é gente. Na hora em que um herói deixar de ser gente, o herói perde o Trem da História. Eu tenho um trem de Minas apitando alegrias no meu peito. Então eu quero gritar, usar minha liberdade de falar: – Êta trem bom é ser livre pro que der e vier.

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