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25 – Abril de 2001

26……………………Dia do Goleiro

INSTANTE FATAL

Por Millôr Fernandes

Lendo artigo do jornalista esportivo francês Cristophe Barbier, narrando o momento decisivo da cobrança de um pênalti, resolvi traduzi-lo e parodiá-lo.

Acho este artigo oportuno, no momento em que o futebol se transformou numa porcaria esportiva em que, depois de meses de manchetes, fortunas em contratos, lições de falta de esportividade pra todo lado, as partidas, depois de 90 minutos de tédio, são decididas em pênaltis. Na última que vi foram precisos 25 chutes pra decidir a disputa. Por que não decidir logo na porrinha, o grande jogo nacional?

Cantada em prosa e verso (hoje, sobretudo filme e televisão), a angústia do goleiro no momento da cobrança de um pênalti não é segredo pra ninguém. Mas engolir um pênalti é o esperado. Se a bola atravessa a linha fatal, ninguém culpa o goleiro, desde que a torcida sinta que ele se esforçou. Seu esforço é sempre visível e muitas vezes aplaudível, mesmo quando não consegue evitar o tento. E, se a bola vai pro espaço ou bate numa das traves, a galera aplaudirá sua sorte, sinal do além que distingue os grandes defensores. E se, mais que isso, ele detém a bola, defende o pênalti, é um Hércules, um deus do esporte, um milagre da natureza (com direito a gigantesco aumento no valor do passe).

O artilheiro tem todo um outro destino. Marcar um pênalti não é mais do que sua obrigação. No futebol marcar gol de pênalti é quase o mínimo exigido pela confederação pro atleta ser considerado um profissional. Falhar, ao contrário, significa que não merece o salário que ganha, o pão (ou a bela namorada) que come. Um avante que perde um gol feito é um fracasso, o que perde um pênalti é um traidor do clube. Arrisca a vergonha, a punição de ofensas na rua, até agressões físicas. Daí a angústia do artilheiro na hora da cobrança do pênalti ser bem maior do que a do goleiro. A dúvida metafísica – à direita ou à esquerda? Com violência ou na malandragem? De bico ou de lado? Examina com exatidão o jeito de colocação do goleiro ou usa seu melhor estilo e seja o que Deus quiser? Mas há a alternativa inevitável – chutar raspando bem abaixo da trave superior ou visar um dos extremos laterais? Mas raspar bem abaixo da trave superior significa a possibilidade muito mais ampla de raspar acima, e o extremo lateral de dentro não raro se torna o extremo de fora. E como, quase sempre, o goleiro se prepara pra saltar pra um dos lados, certos cobradores visam exatamente ao meio do alvo. É assim que muitos goleiros, petrificados pelo medo em sua posição recebem a bola em pleno peito. Variação do herói militar que defende a pátria oferecendo o peito a balas. E sobrevive.

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