36 – Março de 2002

2……. Dia da Luta Contra a Censura no Brasil

PAU-DE-ARARA NÃO É FRANCÊS
Por Elifas Andreato


Cartaz censurado, em 1977.

Gastei minhas madrugadas de sexta-feira durante dois anos, de 1972 a 1974, na preparação das capas do jornal Opinião. Prontas, iam para a Polícia Federal e quase sempre voltavam vetadas.

Nas manhãs de sábado, eu fazia outras, a partir de textos previamente aprovados pelos censores, para não fazer novas consultas. Sabíamos que eles jogavam com o tempo para inviabilizar impressão e distribuição do jornal.

Em 1974, a mesma história em São Paulo, com o jornal Movimento e a revista Argumento, apreendida na quarta edição. Editada por intelectuais brasileiros, liderados pelo futuro presidente Fernando Henrique Cardoso, foi proibida de circular porque tinha como slogan:
Contra fatos há Argumento!

Há inúmeras histórias hilariantes. Algumas ouvi contar, outras vivi nas redações de publicações que faziam oposição ao regime militar. A mais surpreendente foi a justificativa para a apreensão do cartaz que desenhei para a peça Mortos Sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, dirigida por Fernando Peixoto e produzida por Sérgio Motta, futuro ministro das Comunicações, morto em abril de 1998.

Policiais federais nos chamaram ao Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, para explicar o desenho (acima), que divulgava o espetáculo. Disse a eles que o texto era francês e que a peça se passava na França, durante a 2ª Guerra Mundial. Mas não teve jeito. Um deles agressivamente contestou as explicações, gritando:

“Que Guerra Mundial, que nada! Pau-de-arara é invenção brasileira!”

E levaram os dez mil cartazes.


Elifas Andreato é jornalista, artista gráfico e diretor do Almanaque Brasil.