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25 – Abril de 2001

7………………….Dia do Jornalista

CLAUDIO FOI O MAIOR E ISTO NÃO É TUDO

Por Mino Carta


Claudio Abramo era incomum, insuportavelmente incomum. Acho que ele podia ser irritante até quando vestia um terno bege de ótimo corte – levemente amarrotado – e saía por aí, cabelos e gravata regimental ao vento, apoiado em uma bengala, com andar de lorde sujeito a ataques de gota. Ele não sofria de gota, alegava várias injúrias reumáticas, ou do nervo ciático, mas tendo a crer que usasse a bengala como toque conclusivo de uma elegância senhorial inacessível aos senhores.

Houve tempo em que Claudio calçava um par de sapatos ingleses, munidos na proa de uma proteção de metal. Passou a ser anunciado por um tilintar sobre calçadas, lajes ou assoalhos, por onde transitasse, àmoda de Restif de la Bretonne, o que devia causar grande desconforto mesmo antes de sua chegada. Ele sempre conseguia espantar a tigrada, tinha senso de humor. Não disse? – era incomum. Mas os lenços de seda que eventualmente emergiam do bolsinho do seu paletó causavam nos outros inquietações infinitamente menores do que aquelas que seu agudíssimo senso moral provocava nele mesmo.
Claudio não alimentava dúvidas sobre a qualidade dos princípios e das idéias que o conduziram pela vida, mas estava sempre alerta, de sorte a impedir a mais tênue discrepância entre crença e ação. Havia qualquer coisa de místico nesta vigilância interior. Em tempo integral, Claudio foi o mais impiedoso cobrador de si próprio.

Escrevi estas maltraçadas há aproximadamente catorze anos, quando Claudio morreu, aos 64. Era começo do prefácio do seu livro póstumo A Regra do Jogo, único da sua vida, juntando artigos e crônicas, em parte publicados em revistas que dirigi. Poderia escrevê-las em qualquer momento, desde sempre, porque Claudio nunca deixou de ser a mesma pessoa, o que é raro. Falo do maior jornalista brasileiro, mas isto está longe de ser tudo. Falo de um indivíduo honesto e coerente, de um cidadão consciente e responsável, de um esteta certeiro e refinadíssimo, de um autodidata genial, profissional sem mancha e sem medo. Falo de um amigo que faz imensa falta.

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