36 – Março de 2002

12…………..Dia da Biblioteca

A SAGA DOS LIVROS QUE FUGIRAM DE NAPOLEÃO
Por Lilia Moritz Scharcz


Obra de Diderot, raridade da biblioteca.

Na primeira metade do século 18, João V, rei de Portugal, tinha um dos melhores conjuntos bibliográficos da Europa. Dizia, com certo exagero, que os milhares de volumes da Real Biblioteca valiam mais que o ouro remetido do Brasil. Mas a sina da biblioteca, acumulada desde o século 14, mudaria.

Em 1755, um terremoto destruiu quase tudo em Lisboa, inclusive a Livraria de El Rey. D. José I deu início a nova coleção. Porém, seu fado não estava completo. Diante da invasão napoleônica, em novembro de 1807, a família real transferiu-se para o Brasil. Mas não a biblioteca. Encaixotada, ficou no porto na confusão do embarque. Viria em três lotes para o Rio de Janeiro, nova sede do império lusitano. Atravessariam o Atlântico 60 mil peças.

A Real Biblioteca entrou na história brasileira ao instalar-se em parte do hospital da Ordem do Carmo, perto do Paço Real, em 1810. Ganharia mais cômodos para “o arranjamento e manutenção do referido estabelecimento”.
Em 1811, vieram mais duas levas. Aberta ao público três anos depois, ocupava todo o prédio. Possuía raridades renascentistas; a Bíblia de Mongúncia; gravuras e desenhos de Dürer, Rafael e Rembrandt; a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert. Ainda seria acrescida de valiosas doações e aquisições. Mas o destino da biblioteca mudaria outra vez.

Com a independência, em 7 de setembro de 1822, o padre Dâmaso, diretor da Real Biblioteca, retornou a Portugal levando algumas obras e queixando-se de não poder carregar todo o acervo. Esta “disputa bibliográfica” não foi mero detalhe: dá idéia da luta, de um lado para conseguir que a biblioteca voltasse ao pouso original, e de outro para mantê-la, como parte da política de fortalecimento científico e cultural da nova nação.

A agora Biblioteca Imperial e Pública virou motivo de atos diplomáticos e Pedro I concordou em indenizar a família real portuguesa por seus bens e propriedades deixados no País. A instituição mudou de nome e de endereço ao longo dos anos, multiplicou o acervo. Hoje, a Fundação Biblioteca Nacional é uma das dez maiores instituições do gênero no mundo.


Lilia Moritz Schwarcz, livre-docente no Departamento de Antropologia da USP, e Paulo Cesar de Azevedo, pesquisador e produtor cultural, preparam, com patrocínio do Grupo Odebrecht, a história da Real Biblioteca e seu acervo, além de catálogo de referência em CD ROM