PAULO LEMINSKI

Cachorro louco

{junho de 2010}

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Tropicalista psicodélico, cachorro louco assumido. Em 44 anos de vida desregrada, deu tempo para ser tradutor, jornalista, professor, publicitário, escritor, letrista, judoca, quase monge e, sobretudo, poeta. No monastério ou na boemia, amava estudar a palavra. Ao “educar-se na pedra filosofal da poesia concreta”, tornou-se fundamental à poesia brasileira.

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No dia em que o fim da Segunda Guerra foi anunciado, nasceu Paulo Leminski, primogênito de Paulo e Áurea. O menino afro-polaco-brasileiro, no primário, passaria horas debruçado sobre dicionários de latim e francês. Além de verbetes, decorava Camões e Homero. Quando conheceu Antônio Vieira e a literatura católica, resolveu se internar no mosteiro de São Bento, em São Paulo. Tinha 13 anos.
Apesar de se destacar pelos conhecimentos e inteligência, os monges acharam que o curitibano não tinha vocação religiosa. Principalmente quando encontraram fotos sensuais de Brigitte Bardot embaixo de seu colchão. Virou poeta: as mãos que escrevem isto / um dia iam ser de sacerdote / transformando o pão e o vinho forte / na carne e sangue de cristo / hoje transformam palavras / num misto entre o óbvio e o nunca visto.
“Notavam-se em Leminski alguns traços de boemia”, comentou um monge do São Bento. “Não com relação à bebida, evidentemente, mas com relação ao romantismo.” Pois os traços se inverteriam. Afastaria-se de tudo que é clássico – considerava até pontos finais e letras maiúsculas muito “parnasianas”. E seria íntimo de bares, álcool, cigarros e drogas. Tentando a abstinência, escreveu a um amigo: “Não quero terminar como Fernando Pessoa, com hepatite etílica aos 44 anos. Pound e Maiakóvski, os maiores poetas do século, não bebiam”. Mas pouco depois, com a morte do filho e do irmão caçula, entregou os pontos, como atesta uma anotação: Maremotos em mares mortos. Pai morto. Mãe morta. Filho morto. Irmão morto. Como querer que minha vida não seja torta?. Morreu como Pessoa, em 7 de junho de 1989, aos 44. Com um abismo entre os dois, claro, quanto ao estilo poético.

Pedra filosofal
Certo encontro literário em Belo Horizonte mudou a vida do estudante de Direito e Letras. “O Leminski nos apareceu aos 18 anos, Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos. Esse polaco-paranaense soube, muito precocemente, deglutir o pau-brasil oswaldiano e educar-se na pedra filosofal da poesia concreta, magneto de poetas-poetas.” Quem narra é o ícone do movimento, Haroldo de Campos. Espécie de mascote do grupo concretista, Leminski levou o estilo ao Paraná.
Com o golpe militar e a necessidade financeira, deixou os cursos universitários e descobriu-se excelente professor de cursinho pré-vestibular, pioneiro na dinamização das aulas. Só deixou de vez a profissão muitos anos depois, devido à vida boêmia. Dizia-se apenas “um bandido que fala latim”.
Por um tempo, trabalhou em três jornais no Rio de Janeiro, enquanto disseminava seus escritos autorais em importantes revistas literárias. De volta à Curitiba, pela primeira vez ele, as filhas e a mulher, a poeta Alice Ruiz, moraram numa casa, e não mais em repúblicas – as chamadas “comunidades” dos anos 1970.


pauloleminski / é um cachorro louco /
que deve ser morto / a pau e pedra /

a fogo e a pique / senão é bem capaz /
o filhodaputa / de fazer chover /

em nosso piquenique”

Rock and roll e haicais
A década de 1970 foi intensamente vivida por Paulo em todos os sentidos. Era entusiasta da Tropicália, da psicodelia, da contracultura e, como não podia deixar de ser, do rock and roll. Autor do projeto Em Prol de um Português Elétrico, participou de grupos musicais e teve canções, não só roqueiras, gravadas por Caetano, Gil, Moraes Moreira, Ney Matogrosso e Ângela Maria.
Ao mesmo tempo, a cultura oriental lhe era intrínseca. Faixa preta no judô, foi um de nossos maiores tradutores e escritores dos singelos haicais japoneses: Pelos caminhos que ando / um dia vai ser / só não sei quando. Escreveu o perfil do poeta japonês Bashô. No ramo das biografias, assinou também uma do escritor Cruz e Souza, de Trótski e Jesus Cristo. Foi ainda tradutor de muitas obras, em diversas línguas.
Andou por oito anos com rascunhos do seu romance-ideia debaixo do braço, uma prosa experimental que imagina o filósofo Descartes no Nordeste brasileiro. Os amigos começaram a chamar de “catatau” o inseparável bolinho de guardanapos e papéis. E Catatau virou o título da obra.

Ainda cresce capim
Leminski trabalhou por muito tempo como publicitário. No mundo das agências, era competente e excêntrico como em tudo que se metia. Costumava deixar os clientes esperando dias para entregar um trabalho que fizera em minutos – “para valorizar”.
No polaco havia muita pose, julgava o crítico Décio Pignatari: “Falava que conhecia línguas, mas na verdade conhecia muito mal umas sete ou oito. Tinha crises de megalomania que faziam parte do próprio mergulho etílico no qual vivia mergulhado. Seu discurso político-ideológico era confuso, sem muita coerência”. Mas nem mesmo Décio seria capaz de negar sua importância literária como poeta. Para Augusto de Campos, era o maior de sua geração.
Por ele mesmo: pauloleminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau e pedra / a fogo e a pique / senão é bem capaz / o filhodaputa / de fazer chover / em nosso piquenique.
No fim dos anos 1980 já podia dizer: “Não sou poeta de fim de semana. Faço poesia 24 horas por dia. Montei a minha vida de tal forma que a produção textual me permite pagar o aluguel do fim do mês, a escola das minhas filhas, o meu cigarro, o vinho”. No texto Resto Imortal, escreveu que queria “deixar neste planeta não apenas um testemunho” da sua passagem, “campo onde não cresce mais capim”, mas sim o “pensar transformado em máquinas objetivas, sobrevivendo a mim”.

SAIBA MAIS
Paulo Leminski – O bandido que sabia latim, de Toninho Vaz (Record, 2001).

Natália Pesciotta
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