ATLÂNTIDA

Continente perdido do cinema a redescobrir

{setembro de 2005}

Moacir Fenelon (Centro): União de cinema artístico e popular.

Em 18 de setembro de 1941, começa a aventura pioneira de dois empresários: produzir cinema brasileiro em escala industrial. Moacir Fenelon e José Carlos Burle, liderando um grupo de profissionais de teatro e imprensa, queriam unir cinema artístico e cinema popular. Nasce a Atlântida Cinematográfica.

A companhia seria responsável pelos registros de uma sociedade em transição de rural para urbana. Abriria caminho para a televisão. Permitiu ao povo ver-se a si mesmo na tela. E fortaleceu, por meio dos filmes, o que se poderia chamar de identidade nacional, filtrada pelas lentes da então capital federal.

Oscarito e Grande Otelo

A MÁGICA DO “RÁDIO COM IMAGEM”
De um lado, unanimidade do público. De outro, discussões da crítica, que tentava entender o que seria aquela mistura de rádio, teatro, circo e carnaval. O “rádio com imagem” logo receberia o nome de “chanchada”, palavra do lunfardo, a gíria portenha: porcaria, coisa sem valor.
As chanchadas conquistaram o País. Tinham valor. Ofereciam mais que apenas números musicados do teatro de revista: lá estava também a crítica social, habilmente tratada por meio de paródias e, em alguns casos, histórias autobiográficas.
Uma delas, primeiro sucesso da companhia, foi Moleque Tião (1943), dirigido por José Carlos Burle. Conta a história de um jovem negro do interior que sonha ser astro. Sofre maus-tratos na infância, muda para o Rio, perambula até conseguir uma oportunidade. Enredo inspirado na vida do protagonista estreante Grande Otelo, ou Sebastião Bernardes de Souza Prata (1915-1993).
Em 1947, viria Luz dos Meus Olhos, com outra promessa: Cacilda Becker, que se consagraria como atriz de teatro. Aborda o conflito racial e social. Eleito pela crítica melhor filme do ano. Seriam os primeiros de uma dúzia de filmes produzidos até 1947.

MENINO PRODÍGIO E TOUREIRO AVACALHADO
Davam prestígio os filmes “sérios”, mas a vocação estava nas comédias. Nelas brilhavam, ao lado de bandidos, mocinhas e galãs, artistas que fizeram gargalhar gente de todo o País, com um humor extremamente popular. Dercy Gonçalves, Eva Todor, Ivon Cury, Zé Trindade, Ankito. Mas Grande Otelo conquistou lugar de destaque, principalmente ao contracenar com um ator nascido na Espanha, que veio ainda criança para o Brasil: Oscarito (1906-1970), apresentado em Gente Honesta, de 1944. Formaram a mais famosa dupla de comediantes do cinema nacional. Em Aviso aos Navegantes (1950), Oscarito se define como “um toureiro avacalhado de Cascadura”.

HISTÓRIA PELO RISO
Uma marca dos enredos era a variação de história genérica: o mocinho deve alcançar um objetivo, luta contra inimigos e conta com a ajuda de amigos atrapalhados e simplórios; o mocinho acaba vitorioso e o vilão, derrotado. No recheio, improvisações, paródias e piadas que faziam a graça da Atlântida. Num filme, surge a incrível sátira de expressão racista. Ao sair de um show, Grande Otelo paga o ingresso e diz ao porteiro: “Preto, quando não paga na entrada, paga na saída.”

MOCINHO, MOCINHA E VILÃO
Fórmulas infalíveis faziam a alegria do povo: tipos populares, herói malandro e mulherengo, dona de pensão, imigrante nordestino; vida urbana, burocracia, demagogia populista.
A Atlântida passa a ter inédita aceitação. Populariza artistas, divulga músicas carnavalescas, elege sucessos que tocariam no rádio. Surgiriam astros consagrados, destinados a papéis específicos. Mocinho: Cyll Farney ou Anselmo Duarte.


NÃO MUDAR PARA CRESCER
No fim da década de 1940, a Atlântida receberia ataques da crítica e da própria classe cinematográfica. Equipamentos sem manutenção, atores mal pagos, condições precárias. Urgia uma mudança.
Entra em cena o empresário Luís Severiano Jr., que já detinha lucros sobre a distribuição e exibição em 40% das salas brasileiras. Em 1947, Severiano torna-se sócio majoritário da Atlântida.
A companhia passa a contar com modernos laboratórios, em iniciativa inédita na produção de nosso cinema. O enredo, porém, permanece. Com senso comercial, Severiano acha que, se as chanchadas fazem sucesso, devem continuar. Equipa a Atlântida para produzir mais e controla todas as fases do processo.
Dessa época datam pérolas como O Homem do Sputnik (1959), comédia sobre a Guerra Fria que critica o imperialismo americano. É considerado um dos melhores da companhia, com atuação marcante de Oscarito e da novata Norma Bengell.

FILMES PERDIDOS, MEMÓRIA VALORIZADA
A fórmula da chanchada, impregnada de humor carioca, tinha também a missão de enfrentar a paulista Vera Cruz, criada no início da década de 1950 pelo teatrólogo Franco Zampari e pelo gigante das comunicações Assis Chateaubriand. Com o compromisso de investir no nível técnico e estético, a Vera Cruz reunia profissionais europeus. A Atlântida manteve-se até o final da década de 1950. O último filme seria Os Apavorados, 1962. A companhia associa-se a outras nacionais e estrangeiras em co-produções, que começam a rarear.
A valorização de temas de contestação, que dariam origem ao Cinema Novo, se choca com o conceito de entretenimento da Atlântida. A televisão lhe rouba artistas e profissionais.


FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA

Caçula do Barulho (1949)
Primeiro filme brasileiro com técnicas cinematográficas italianas nas cenas de brigas. Com direção do italiano Ricardo Freda. No elenco, Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte e Giana Maria Canale.

Gol da Vitória (1946)
De José Carlos Burle, conta a vida do craque Laurindo, personagem vivido por Grande Otelo. Inspirado em lances futebolísticos do jogador Leônidas da Silva, o Diamante Negro.

Amei um Bicheiro (1952)
Gênero romântico-policial, com praticamente o mesmo elenco das chanchadas, incluindo Grande Otelo em ótimo desempenho dramático. De Jorge Ileli e Paulo Wanderley.

Matar ou Correr (1954)
Paródia do faroeste Matar ou Morrer (High Noon, 1952), de Fred Zinnemann. Contou com cidade cenográfica em Jacarepaguá (RJ). Dois simplórios forasteiros (Oscarito e Grande Otelo) chegam à cidade de Citydown, onde quem manda é o vilão Jesse Gordon (José Lewgoy). Os dois conseguem prender o bandido, que foge da cadeia jurando vingança.

Carnaval no Fogo (1949)
Misturando elementos de chanchada, show e romance, a intriga envolve troca de identidades. De Watson Macedo.

A Sombra da Outra (1950)
Adaptação do romance Elza e Helena, do amazonense Gastão Cruls. Dá a Watson Macedo o prêmio de melhor diretor do ano.

A Dupla do Barulho (1953)
Primeiro filme de Carlos Manga como diretor, após exercer atividades em todos os setores da companhia. Oscarito e Grande Otelo são artistas de teatro mambembe que percorrem o País em busca do sucesso.

Esse Milhão É Meu (1958)
Oscarito é Filismino Tinoco, um funcionário público padrão que atura o mau humor da mulher (Margot Louro) e da sogra (Zezé Macedo). Sua assiduidade ao trabalho, porém, lhe rende o prêmio de 1 milhão de cruzeiros. Com tanto dinheiro no bolso, as confusões são inevitáveis.

CENAS ANTOLÓGICAS

Carnaval no Fogo (1949)
Oscarito (vivendo Romeu) e Grande Otelo (como Julieta) recriam a cena em que os personagens shakespearianos namoram num balcão.

De Vento em Popa (1957)
Oscarito imita um dos grandes mitos dos anos 1950: Elvis Presley.

Nem Sansão Nem Dalila (1954)
comédia política, satiriza o governo populista em paródia da superprodução americana Sansão e Dalila (Samson and Delilah, 1949).

EPÍLOGO
Depois do incêndio

A partir dos anos 1970, a crítica passou a reconhecer o valor da chanchada, especialmente seu conteúdo crítico, entremeado de humor.
A única grande derrota da Atlântida, talvez, veio pelas mãos do acaso. Em 1952, um incêndio destruiu todos os filmes de sua primeira década; restou a comédia Fantasma Por Acaso, dirigida por Moacir Fenelon.
Em 1974, Carlos Manga realiza a coletânea Assim Era a Atlântida, com trechos dos principais filmes produzidos pela companhia. Os tipos brasileiros, os argumentos divertidos e o humor descompromissado, aliados à verve da sátira, estão ali retratados no trabalho de profissionais que iriam brilhar na televisão.


Você sabia…

…que a criatividade brasileira antecipou-se a Hollywood? Um ano antes de Gene Kelly protagonizar o clássico Singin’ in the Rain (Cantando na Chuva, 1952), Emilinha Borba, de capa de chuva transparente, cantava Tomara Que Chova, em Aviso aos Navegantes. O diretor Watson Macedo pôs no cenário – um transatlântico – outros números cantados e dançados: os sucessos internacionais C’Est Ci Bon e Che Sera Sera – este cantado seis anos depois por Doris Day em O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1956), de Alfred Hitchcock.

Juliana Winkel
Nenhum comentário. Comente!
Compartilhar



Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,