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25 – Abril de 2001

SINCERAMENTE, BRASIL!

Por Elifas Andreato

Aprimeira notícia que tive do Brasil chegou a um roçado no extremo norte do Paraná onde vivia com a família cultivando café.

Os dias naquele lugar eram rigorosamente iguais e desesperadamente longos para as crianças que precisavam trabalhar.

Mas aquele dia não foi como os outros; mudou para sempre minha vida. Deixamos a roça distante, cerca de um quilômetro da casa dos avós, perto das seis horas, exauridos e famintos. Minha avó Maria, portuguesa risonha e religiosa, não estava na varanda esperando, como sempre, para nos abençoar pelo dia trabalhado. Alguma coisa, e parecia grave, havia alterado a rotina da casa naquele princípio de noite. Eu temia pelo pior. Era assustador adoecer naquele fim de mundo.

Já passava da hora do jantar e não tínhamos rezado a Ave Maria como de hábito e isso nos afligia ainda mais. Alguém avisou para nos tranqüilizarmos, que era só um mal-estar passageiro e que logo ela serviria o jantar. Esperamos famintos e curiosos por um bom tempo, até que avó Maria chegou à cozinha, rezando, vestida de luto, com um véu preto cobrindo o rosto, e anunciou o que ouvira no rádio: “O Getúlio matou-se a si.” Tinha, então, oito anos e exultei! Tinha pavor do saci e saber que ele estava morto me alegrava. Havia entendido “o Getúlio matou o saci”.

Mas minha alegria durou pouco. Logo a notícia foi corrigida; para meu desespero, o saci continuava vivo e o presidente do Brasil havia se suicidado. Assim, tragicômico, o Brasil aconteceu em minha vida, em 24 de agosto de 1954.

“O País está órfão”, alertavam as manchetes das revistas que chegavam da cidade. Eu não sabia ler e não me lembro se chegaram a explicar o que era ser órfão, mas jamais esqueci a comoção popular que vi naquelas fotografias. O mais traumático foi ter compreendido que o órfão daquela tragédia era o Brasil e que, longe daquele roçado, havia o povo do Brasil e eu queria fazer parte dele. Queria crescer para ser brasileiro.

Aquelas imagens trágicas do Brasil banhado em lágrimas pela morte do presidente me impregnaram de uma profunda compaixão, por essa terra e por sua gente parecida comigo, que seriam para sempre a causa e a inspiração de todos os meus desenhos.

Antes de crescer fui ser brasileiro em São Paulo. Aprendi a ser torneiro mecânico e desenhava escondido no banheiro da oficina charges críticas para o Jornal dos Operários, distribuído clandestinamente entre os trabalhadores. Tinha catorze anos e já era mais um operário brasileiro. Sabia também que a sorte havia me reservado uma vaga para viver no Brasil mais difícil. Aqueles desenhos que punham em risco meu emprego retratavam o Brasil humilhado pela pobreza. Aprendi, vivendo, que a pobreza é a forma mais cruel de humilhação. E foi essa pobreza humilhante que conheci na ocasião da morte de Getúlio Vargas, que me condenou a amar incondicionalmente o Brasil e sua gente.

Pensei muitas vezes, ao longo desses trinta anos de jornalismo, em abandonar o Brasil. Quis, por muitas vezes, deixá-lo em paz com sua miséria, com seu povo triste, humilhado e sem futuro. Pensei que poderia viver apenas contemplando sua exuberante beleza natural; mas não consegui abandoná-lo, não consegui deixar de amá-lo. Ao contrário disso, a cada dia que passa me dedico mais e mais à construção de seu futuro e de sua dignidade. Às vezes, quando me faltam forças para seguir editando este Almanaque Brasil de Cultura Popular, diante de tantas adversidades, penso no Brasil sinceramente e faço deste Almanaque mais um gesto de amor por minha gente e sua história. E persisto! Minha vocação é a esperança.

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