Por Gilberto Freyre

“Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor,
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
Contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem para morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil.”

Gilberto Freyre (1900-1987) é autor de Casa Grande & Senzala, obra-mestra da sociologia brasileira. O texto acima é parte do poema O Outro Brasil que Vem Aí, de 1926.

fábrica, como operário. Quase virei torneiro mecânico e não pude ir à universidade. Há sete anos, quando me preparava para publicar meus trabalhos e impressões do mundo, recebi depoimentos de amigos para inserir no livro. Um deles dizia:
“Se, em vez de virar artista, o Elifas tivesse ficado numa fábrica, ele certamente seria hoje um peão de respeito.”
Por estas e outras identidades, fico feliz e orgulhoso em ver a pessoa que fez aquela afirmação tornar-se presidente do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva é um vitorioso no embate com a vida. Enfrentou a pobreza, a ditadura, o preconceito. É o primeiro presidente com a cara do povo brasileiro. É um Da Silva legítimo, marca registrada da maior parte dos nascidos neste País.
Sua eleição sinaliza
esperança e confiança.
É possível não gostar de Lula
e pode ser legítimo temê-lo, embora isso me pareça pouco razoável.

Mas, gostando ou não dele, é impossível não reconhecer que o Brasil tenha com os excluídos uma gigantesca e secular dívida, que precisamos começar a pagar. E é aí que vejo mais identidades com o presidente Lula. Ele carrega esse compromisso na pele.
No mesmo depoimento que deu ao meu livro, Lula me chamou de “companheiro peão”, dizendo que pertenço à “geração inconformada com as riquezas da sua terra e as misérias cada vez maiores da sua gente”. É verdade, canto o Brasil, nessa revista, sem medo de ser feliz e de falar bem de nossas coisas
ou de nós mesmos, brasileiros.
Mas faço isso sem disfarçar
nossas mazelas.
Por tudo isso me incluo entre
os otimistas, confiando que nosso próximo presidente dará certo, apesar das dificuldades que o aguardam. E se “gente é pra brilhar não pra morrer de fome”, como disse Caetano Veloso em uma de suas mais belas canções, queremos ver
o presidente Lula semeando rostos iluminados por este Brasil afora.

P
Da Silva Legítimo
assei boa parte da adolescência e juventude trabalhando numa