103 – Novembro de 2007


DIA MUNDIAL DO INVENTOR 

 

INVENTOS DO BRASIL PARA O MUNDO

 

Texto: Rafael Capanema

Arte: Paula Chiuratto

 

 

 

Das criações advindas da sabedoria popular, passando pelas experiências dos padres pioneiros até os mais recentes avanços tecnológicos, o Brasil tem uma vasta gama de inventores notáveis. Se, por um lado, enfrentamos problemas na área da ciência e da tecnologia, podemos contar sempre com a fonte inesgotável de criatividade da nossa gente. 5 de novembro é o Dia Mundial do Inventor. Celebremos os nossos.

 

Alguns poucos ficaram milionários, outros tantos lutaram e ainda lutam pelos direitos de patente sobre suas invenções. Os inventores do Brasil nos proporcionaram muitos momentos de glória. E também várias controvérsias. O exemplo clássico é a eterna discussão sobre a paternidade da aviação, contrapondo os irmãos Wright a Santos-Dumont.

O 14-Bis, primeiro avião a voar por seus próprios meios, sem qualquer tipo de força extra, é o símbolo máximo da capacidade de criação brasileira; e Santos-Dumont, patrono absoluto dos nossos inventores. Mas temos ainda muito mais do que nos orgulhar.

Em 1893, um ano antes do italiano Guglielmo Marconi, tido como criador do rádio, o padre Landell de Moura transmitiu sua própria fala da Avenida Paulista para o Alto de Santana, a oito quilômetros dali. Chamaram-no de impostor, de bruxo. Desiludido, abandonou os experimentos. Deixou para trás as patentes do transmissor de sons (ondas hertzianas), do telefone e do telégrafo sem fio.

Conrado Wessel, em 1922, teve destino diferente. Descobriu uma nova fórmula para a revelação fotográfica. Patenteou a invenção e fundou a primeira fábrica de papéis fotográficos do Brasil. A Kodak comprou a patente e a fábrica, transferindo os lucros a Wessel durante 25 anos. O inventor fez fortuna e determinou em seu testamento a criação da Fundação Conrado Wessel, que agracia pesquisadores e escritores com até 100 mil reais – iniciativa conhecida como o prêmio Nobel brasileiro.

Em 1971, Euryclides Zerbini abriu caminho para importantes avanços na medicina com a invenção da válvula coronária. Nelson Bardini criou em 1978 a tecnologia dos cartões telefônicos que usamos hoje. E também somos especialistas em soluções de genial simplicidade, como o aquecedor solar criado em 2002 por José Alcino Alano, usando apenas materiais reaproveitados, como garrafas pet. O autor disponibilizou na internet o manual para quem quiser construí-lo (http://josealcinoalano.vilabol.uol.com.br/manual.htm).

E tem também a criação da paulistana Terezinha Beatriz Alves de Andrade, que não se conformava com a pia de casa entupida depois de lavar arroz. Criou, então, um protótipo de alumínio que misturava bacia e peneira: o popular escorredor de arroz, usado no mundo todo. É simples, mas por que ninguém pensou nisso antes?

 

JANGADA

 

NOSSA EMBARCAÇÃO NÃO PRECISA DE LEME

 

 

 

Uma das nossas invenções mais geniais não tem pai conhecido, muito menos patente. A jangada em si não é exatamente brasileira. Foi criada na Ásia muitos séculos atrás, e trazida para cá pelos portugueses, por volta de 1570. Aqui é usada, sobretudo, por pescadores. Sofreu adaptações até surgirem variantes tipicamente nossas, como a jangada de piúba, de origem cearense, provavelmente a única embarcação no mundo que não precisa de leme. A jangada, que esconde extrema sofisticação tecnológica por trás da aparência primitiva, inspirou o navegador Amyr Klink a construir seu moderno barco Paratii 2.

 

BALÃO

 

BARTOLOMEU VOOU MUITO ANTES DOS FRANCESES

 

 

 

O feito está registrado em documentos do Vaticano. Em 5 de agosto de 1709, 74 anos antes dos irmãos franceses Montgolfier, o padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão promoveu o primeiro vôo de um aparelho movido a ar quente. O religioso aplicou um princípio científico que descobrira observando uma bolha de sabão subir, impulsionada pelo calor da chama de uma vela. Gusmão, paulista de Santos que já gozava de certa fama por invenções nas áreas de mecânica e engenharia naval, ficou conhecido como o Padre Voador. Feito de papel grosso, o balão apelidado Passarola, não tripulado, subiu quatro metros durante uma demonstração em Lisboa, testemunhada por Dom João V e sua corte.

 

MÁQUINA DE ESCREVER

 

PADRE INVENTOU MÁQUINA, MAS SÓ EXPUSEMOS MATÉRIA PRIMA

 

 

 

A solução para substituir o manuscrito veio de mais um padre brasileiro, o paraibano Francisco João de Azevedo. Em 16 de novembro de 1861, ele apresentou na Exposição Industrial e Agrícola da Província de Pernambuco sua revolucionária máquina de escrever. Pedro II premiou o padre pelo invento. A máquina, no entanto, não foi exposta no pavilhão brasileiro da Exposição Internacional de Londres do ano seguinte. Alegou-se "falta de espaço". Preferimos expor café, madeiras, minérios, borracha, frutos, algodão e fumo.

 

O LADO B DE SANTOS-DUMONT

 

Alberto Santos-Dumont, o brasileiro que deu asas à humanidade, era aficionado por máquinas desde a infância. Alimentou o desejo de voar observando os pássaros e lendo as aventuras fantásticas de Julio Verne. Além do lendário 14-Bis, de 1906, desenvolveu vários modelos de balão e avião, além de invenções em diversas áreas. Nunca patenteou uma criação. Ofereceu-as como presentes para a humanidade.

 

A senhorita mais charmosa de Paris

 

 

 

Uma das criações mais populares de Santos-Dumont, sua máquina voadora n° 19, ficou pronta em apenas 15 dias. Foi projetada em 1907 para participar de um concurso. O aviador perdeu a disputa, mas arrebatou a admiração de todos com sua elegante aeronave. Oito vezes menor do que o 14-Bis, o avião ganhou o apelido Demoiselle (senhorita, em francês).

Avistada freqüentemente nos céus de Paris, a donzela causava sensação por onde passava. O avião foi produzido em série, a preços razoavelmente acessíveis. Seu criador, porém, abriu mão de receber qualquer dinheiro pelo invento. O Museu Asas de um Sonho, em São Carlos, possui uma réplica da aeronave em seu acervo (www.museutam.com.br).

 

Inventor do relógio de pulso?

 

 

 

Ao contrário do que se difunde amplamente, a invenção do relógio de pulso não pode ser atribuída a Santos-Dumont. Em um jantar com Louis Cartier, dono de uma das joalherias mais chiques de Paris, o aviador queixou-se que não conseguia olhar para o relógio de bolso durante os vôos porque tinhas as mãos ocupadas. Cartier, então, retomou uma invenção que também não era sua. O relógio de pulso já havia sido usado pelo filósofo Pascal, pelo exército alemão e pela rainha Elizabeth I, da Inglaterra, mas não havia se popularizado. O joalheiro presenteou o amigo com um exemplar exclusivo, chamado Santos, que Dumont nunca mais tirou do pulso.

 

E não pára por aí

 

 

Santos-Dumont lançou também tendências de moda. Criou sapatos com saltos disfarçados para aumentar a estatura, o colarinho alto e uma capa para ir à ópera, forrada de seda. O chapéu de abas abaixadas, sua marca registrada, surgiu quando ele usou o acessório para conter as chamas de um pequeno incêndio. Para se habituar a comer nas alturas, o inventor suspendeu no teto a mobília da sala de jantar, usando cordames. O teto acabou cedendo, e Dumont optou por mesas e cadeiras de dois metros de altura, acessíveis com escadas portáteis. Também inventou uma catapulta salva-vidas, aparelho com um arpão que lança bóias de borracha presas a cordas em direção ao local onde houver uma pessoa se afogando.

 

WALKMAN

 

NASCEU AQUI O TOCADOR PORTÁTIL DE MÚSICA

 

 

 

Andreas Pavel, alemão que veio para o Brasil ainda menino, queria poder ouvir música em qualquer lugar, a qualquer hora. Ele criou então um aparelho singelamente intitulado "pequeno equipamento de fixação corpórea para a reprodução de eventos auditivos em alta qualidade", ou stereobelt (cinto estéreo, em inglês). Patenteou o invento em 1977 nos Estados Unidos e em países europeus. Ignorando os registros, a empresa japonesa Sony lançou no ano seguinte o walkman, que vendeu mais de 200 milhões de unidades. Pavel entrou na Justiça contra a gigante japonesa. Só ganhou a causa em 2004. Recebeu 10 milhões de dólares, além de direitos sobre a venda de aparelhos derivados, incluindo os atuais telefones celulares com tocador de mp3. 

 

BINA

 

GRAÇAS A UM BRASILEIRO, SABEMOS QUEM NOS LIGA

 

 

 

Outra função básica dos telefones celulares de hoje é o identificador de chamadas. O princípio é o mesmo da invenção criada por Nelio José Nicolai 30 anos atrás. O mineiro de Belo Horizonte, técnico em telefonia, criou em 1977 o Bina. O nome vem da sigla de " b Identifica o Número de a ". Nélio registrou o invento no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) em 1980. As primeiras unidades começaram a ser vendidas no Brasil em 1982. Oito anos depois, foi lançado nos Estados Unidos o caller id (identificador de chamadas), baseado nos princípios do Bina. Até hoje Nicolai briga na Justiça pelos direitos de patente.

 

URNA ELETRÔNICA

 

NOSSAS ELEIÇÕES SÃO EXEMPLO PARA O MUNDO

 

 

 

A apuração de votos em eleições com cédulas de papel chegava a durar semanas. Com a urna eletrônica, o processo foi reduzido a algumas horas. Desenvolvido por técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Aeronáutica e Ministério do Exército, em conjunto com o Tribunal Superior Eleitoral, o aparelho estreou em 1996 nas capitais e em cidades com mais de 200 mil eleitores. Desde 2000, as eleições são informatizadas em todo o território nacional. O Brasil é considerado modelo em processos de votação e fornece a tecnologia para países do mundo todo. 

 

SAIBA MAIS

 

Para navegar

Galeria de Inventores Brasileiros: www.inova.unicamp.br/inventabrasil

Associação Nacional dos Inventores: www.inventores.com.br

 

Para visitar

Museu das Invenções. Reúne desde invenções com preocupações ambientalistas, como o chuveiro a cartão, de Mário Godinho, até as que resvalam no mais puro besteirol, como um capacete com papel higiênico para gripados. Rua Dr. Homem de Mello, 1109. São Paulo-SP. Tel.: (11) 3873-3211.