Suplemento da Mulher

Especial dia internacional da Mulher

{março de 2008}

Editorial
Imagine um dia em que todas as notícias de um jornal dissessem respeito às mulheres. E que os feitos de ilustres brasileiras, a despeito das mais distantes épocas em que viveram, fossem reunidos em uma mesma edição. E que elas se encontrassem lado a lado, apesar de suas diferentes áreas de atuação, cor, classe social. Pois bem, nós imaginamos. Neste especial comemorativo do Dia Internacional da Mulher (8 de março), tratamos de subverter o tempo para reunir algumas das tantas mulheres brasileiras que, contrariando os obstáculos impostos ao gênero, entraram para a história e mudaram os destinos do País.

“Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria”, diz Isabel

Da sucursal de Lisboa

Em entrevista exclusiva a nosso correspondente em Lisboa, Isabel Cristina Leopoldina Augusta Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, mais conhecida como Princesa Isabel, mostrou-se indignada com o modo como o Brasil vem tratando sua família. Para ela, os brasileiros demonstraram ingratidão ao derrubar seu velho pai do poder e ainda expulsá-lo do Brasil em 1889.
A princesa, tida como a primeira chefe de Estado das Américas, sente-se credora pelos atos que desempenhou a favor do progresso do País, como a assinatura da Lei do Ventre Livre e diversas outras medidas e ações reformistas que culminaram com a libertação dos escravos em 13 de maio de 1888.
Diante da indagação da reportagem quanto a seu sentimento frente às afirmações do Barão de Cotegipe – “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono” -, a princesa reafirma o que vem declarando: “Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos do Brasil”.

Donatária aposta na exportação de açúcar para o Velho Mundo
Do enviado a São Vicente
A eminente donatária Ana Pimentel não pôde comparecer ontem à Vila de São Vicente, mas enviou um representante por ocasião da plantação do primeiro pé de cana-de-açúcar em Cubatão, neste ano de 1534. Na cerimônia, foi lido um texto da esposa de Martim Afonso de Sousa, no qual afirma acreditar que, com o cultivo da espécie, a nação viverá no futuro os louros dessa empreitada, tendo em vista que o açúcar vem sendo paulatinamente adicionado aos costumes europeus.

Com apenas 17 anos, a nadadora Maria Lenk acaba de tornar-se a primeira mulher sul-americana a competir em Olimpíadas, nestes badalados Jogos de Los Angeles-1932.

Com uma vitória na final do torneio de Wimbledon-1964, Maria Esther Bueno sagrou-se tricampeã da mais prestigiosa competição de tênis do mundo.

Guerrilheira grávida falece em fuga na Itália
Do enviado a Roma
Faleceu ontem (4 de agosto de 1849) Anita Garibaldi. A revolucionária catarinense tornou-se famosa depois de participar, ao lado do marido Giuseppe, da Revolução Farroupilha (1835-1845).
Em 1841, quando a situação militar da República Riograndense tornou-se insustentável, a família passou a viver no Uruguai. Seis anos depois, mudou-se para a Itália, onde Giuseppe tornou-se figura fundamental na luta pela unificação italiana. Com a queda de Roma, o casal teve que partir para o exílio. De acordo com informações de correspondentes de guerra, deixaram Roma perseguidos por cerca de 40 mil soldados franceses, espanhóis e napolitanos. Grávida, Anita não pôde resistir à caçada. Faleceu em Mandriole, na Itália, de causas desconhecidas. Deverá ser lembrada como heroína dos dois mundos por sua ativa participação, ao lado do marido, em conflitos na Europa e na América do Sul.

Mossoroense quer votar
Vem de Mossoró, cidade a 285 quilômetros de Natal (RN), uma novidade que tem deixado a sociedade local boquiaberta. Não se sabe por quais razões a professora Celina Vianna decidiu inscrever-se para votar no próximo pleito municipal. A notícia vem correndo o Brasil desde que o jornal O Globo publicou o fato em sua edição de 21 de dezembro de 1927. Nunca antes uma mulher alistou-se como eleitora neste País.

Deu no New York Times
O diário norte-americano The New York Times noticiou no último sábado, 8 de setembro de 1928, a conquista da potiguar Alzira Soriano. O prestigioso jornal relata que, enfrentando acusações de que “mulher pública é prostituta”, a fazendeira viúva elegeu-se como mandatária maior da Prefeitura de Lajes (RN). Trata-se da primeira prefeita eleita do Brasil e da América Latina. O diário acrescenta ainda que, envergonhado pela derrota, seu adversário abandonou a cidade.

Toma posse Bertha Lutz
O Plenário da Câmara dos Deputados assistiu ontem (28 de julho de 1936) à posse de Bertha Maria Júlia Lutz. A deputada paulista assume a vaga aberta pelo falecimento do saudoso deputado Cândido Pessoa. Advogada pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e bióloga pela Universidade de Paris, a filha do cientista Adolfo Lutz criou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e representou o Brasil em reuniões e assembléias internacionais pela causa da emancipação política e social feminina. Certamente a história não haverá de esquecê-la.

Getúlio libera o voto das mulheres
No último dia 24 de fevereiro de 1932, o presidente Getúlio Vargas assinou, no Palácio do Catete, o Decreto nº. 21.076, que institui o Código Eleitoral Brasileiro. Cabe notar que o artigo segundo define como eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo. Estão, portanto, aptas a votar as mulheres brasileiras. É de se ressaltar, no entanto, as determinações transitórias que dispõem que as mulheres em qualquer idade, assim como os homens com mais de 60 anos, estão livres de qualquer obrigação ou serviço de natureza eleitoral.

Escritora potiguar escandaliza sociedade
Da redação
Acaba de chegar às livrarias o primeiro livro brasileiro que versa sobre os direitos das mulheres à instrução e ao trabalho. Trata-se de Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens (1832), da potiguar Nísia Floresta, de apenas 21 anos. Nele, a autora aponta os principais preconceitos de gênero existentes no Brasil e identifica suas causas e sintomas. Fez alvoroço no ano passado a série de artigos sobre o mesmo tema publicados por Nísia em um prestigioso jornal pernambucano. Depois da repercussão, foi convidada a traduzir para o português o livro Vindications of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft.
Nísia, não satisfeita, decidiu ir além: como não havia obra que discorresse sobre a condição feminina no Brasil, resolveu fazê-lo. O resultado pode ser lido nessas páginas, que – a julgar pelo burburinho que vem causando até o momento – provavelmente terá muitas reedições e reimpressões.

Estreou na última quarta-feira (28/5/1930) o primeiro filme brasileiro dirigido por uma mulher: O Mistério do Dominó Preto, da paulista Cleo de Verberena, pseudônimo de Jacira Martins Silveira. Para realizar seu sonho, a moça de 21 anos teve que desfazer-se de jóias e propriedades.

Por 23 votos, a cearense Rachel de Queiroz sagrou-se a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. A posse deve ocorrer ainda em 1977, no dia 4 de novembro. A escritora de O Quinze ocupará a cadeira de número 5, que tem como patrono Bernardo Guimarães e outrora foi guardada pelo médico Oswaldo Cruz.

Composição feminina abre alas nos salões
Da redação
Neste Carnaval de 1899, uma novidade vem agitando os salões cariocas e tem tudo para entrar para a história: uma composição criada especialmente para os festejos de Momo. A responsável pela idéia é a compositora Chiquinha Gonzaga. Ô Abre-Alas é um sucesso. Contagia banda e público por onde passa.
A trajetória da compositora, no entanto, não foi cheia de glórias. Casou-se aos 16 anos, e o marido a obrigou a deixar sua grande paixão: a música. Pior para ele, que ficou sem esposa. Para sobreviver, deu aulas de piano, tocou em pequenos saraus, vendeu partituras na rua. Mulher à frente de seu tempo, engajou-se na luta pela abolição da escravatura e pelo fim da monarquia. Com o sucesso nos salões, promete abrir alas para os foliões!

Necrológico
 

Morre catadora de papel que se alimentava da escrita
Carolina Maria de Jesus * 14 de março de 1914  * 13 de fevereiro de 1977

Morreu ontem, em São Paulo, a ex-catadora de papel Carolina Maria de Jesus. Em 1960, com a ajuda do jornalista Audálio Dantas, lançou o livro Quarto de Despejo, sucesso editorial traduzido para 29 línguas, em que narra a miséria, a fome e os preconceitos que enfrentou. Carolina foi uma das únicas brasileiras que ganharam menção na Antologia de Escritoras Negras e no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis. Em entrevista, definiu sua atividade: “Alimentei, eduquei e amei meus três filhos. Catei papel, revirei lixo. Do papel também tirei meu alimento: a escrita”.

 

Bravas jovens prometem invadir os céus do Brasileira
Da redação

Na manhã de ontem, 8 de abril de 1922, a paulistana Tereza de Marzo tornouse a primeira mulher brasileira a obter brevê de aviação. Aprovada em todos os exames, a jovem de 18 anos precisava ainda completar cinco “oitos” com seu avião no ar. Surpreendeu todos os presentes ao repetir a manobra por oito vezes consecutivas. Hoje uma nova candidata deve subir ao ares com grandes chances de repetir o feito: a paulistana Anésia Pinheiro Machado, apenas um ano mais velha do que Tereza.

Futura primeira-dama quer animar as festas do Catete
Da redação

Num furo de reportagem, nosso repórter descobriu a data do casamento do presidente Marechal Hermes da Fonseca. Os festejos acontecerão no dia 8 de dezembro de 1913. A noiva, Nair de Teffé, é tida como a primeira caricaturista brasileira. Com trabalhos em diversas publicações de prestígio, a moça já anuncia o afastamento de suas atividades jornalísticas. Ao repórter, a futura primeira-dama confessou que o flerte teve início quando o Marechal perguntou a seu pai, o Barão de Teffé, como havia de permitir que tão bela dama andasse a cavalo desacompanhada. “Se me permitir, eu acompanharei essa delicada moça não só em seus passeios a cavalo, mas por toda a minha vida”.
O que se espera dessa união é que o Palácio do Catete seja invadido pela alegria e descontração. Dona Nair promete incluir a poesia de Catulo da Paixão Cearense e o Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga, no repertório das festas, tradicionalmente muito chiques e elegantes.

Francesa é nomeada parteira oficial do Império
Da redação
Preste atenção, caro leitor, aos choros de recém-nascidos. Em instantes, irá deparar-se em alguma esquina do Rio de Janeiro com uma moça de aspecto peculiar, trajando casaca e cartola. Trata-se de Marie Josephine Mathilde Durocher, a parteira mais disputada nesses idos de 1886. Com 22 anos de formada, ela acaba de ser nomeada parteira oficial da residência do imperador Pedro II. Oportunidade honrosa e inédita, levando-se em consideração que não é profissão comum entre as mulheres.
Natural de Paris, Durocher chegou ao Brasil com 7 anos. Diplomou-se no Curso de Partos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Como há carência de maternidades na cidade e a enfermaria da Santa Casa encontra-se em estado lastimável, Durocher acompanha nascimentos na casa das parturientes – entre elas, esposas de figuras notáveis da sociedade carioca.



SAIBA MAIS

História das Mulheres no Brasil, organização de Mary Del Priore (Editora da Unesp, 1997).

• Dicionário Mulheres do Brasil, organização de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil (Jorge Zahar, 2000).

Redação: Danilo Ribeiro Gallucci
Arte: Guilherme Resende

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