CÂMARA CASCUDO

Explicador da nossa alma

{janeiro de 2001}

Já disseram que, se o Brasil desaparecesse do mapa e sobrassem apenas livros de Luís da Câmara Cascudo, seria possível no futuro saber o que havíamos sido, Segundo Drummond, ele sabia “tintim por tintim a alma do Brasil”.

Câmara Cascudo

Era um menino rico, nascido em Natal, Rio Grande do Norte, a 30 de dezembro de 1898. O pai, coronel que perseguiu cangaceiros, era o comerciante mais abastado da cidade. A mãe, descende de aristocratas, sabia piano e falava francês. O garoto passou infância de mimos, cuidados e proibições. Já havia perdido três irmãos.
“Fui menino magro, pálido, enfermiço, cercado de dietas e restrições alimentares. Não corria. Não saltava. Nunca pisei areia nem andei descalço. Jamais subi a uma árvore. Cuidado com fruta quente, sereno, vento encanado!”, relata em O Tempo e Eu (1968). Amarrado aos livros, colecionava estampas de santos e histórias. Foi o primeiro menino da cidade a possuir biblioteca. Na adolescência, o contato com o sertão. Aos dezesseis, já anotava tudo o que via: causos, cantigas, lendas, receitas. Em Vaqueiros e Cantores (1939), contará: “Vivi no sertão típico, agora desaparecido. Cortei macambira e xique-xique para o gado nas secas. Banhei-me nos córregos ao inverno. Peguei tatus de noite, com fachos e cachorros amestrados”.

Rosário com Patuá
Jovem elegante e de modos aristocráticos, em 1918 ganha um jornal do pai: A Imprensa, onde publica os primeiros textos. Aventura-se pelo submundo. Repórter, acompanha batidas da polícia em terreiros de candomblé e prostíbulos – novas fontes para sua coleção de histórias. Estuda medicina. Um ano em Salvador, outro no Rio. Doente, volta a Natal. Cursa direito no Recife.
Publicou sobre o Rio Grande do Norte, biografias do Marquês de Pombal e do Conde D’Eu, de quem era amigo, editados por Monteiro Lobato. Monarquista e católico, trazia sempre rosário no bolso, devidamente acompanhado de uma patuá. Foi integralista na década de 1930, o que talvez explique o desprezo da intelectualidade de esquerda por sua obra até recentemente. Abandonou o ideário desiludido, no fim daquela década. Política, nunca mais.

Nasce o etnólogo
Desde 1924, correspondia-se com Mário de Andrade. Em junho de 1937, Mário surpreende-se com o pedido do amigo: arranjar um jornal para que ele colabore, “para o leite da Ana Maria”. O menino rico empobrecera. A resposta faz nascer o etnólogo. Mário apela a Cascudo que abandone seu “ânimo aristocrático”. Instiga-o a “descer da rede” e prestar atenção à riqueza cultural que passa à porta. Cascudo perdeu o fôlego: “Não sou capaz de escrever coisa alguma depois de sua carta (…) careço de tempos em tempos de voltar à tona e consertar a respiração”. Retomou o fôlego e não perdeu mais. Deixaria mais de 140 livros; clássicos como Dicionário do Folclore Brasileiro (1954); Histórias da Alimentação no Brasil (1967); Histórias dos Nossos Gestos (1976).

60% Ouvindo, 40% lendo
Viajou pela Europa, África e Brasil atrás de nossa alma. Falava dez línguas, leu os clássicos. De tudo o que aprendeu, “60% foi ouvindo e 40% lendo”. Reafirmava: “os anos vividos no sertão do Rio Grande do Norte forma cursos naturais de literatura oral”. Foi a campo, misturava-se ao povo e ouvia pescadores, amas-de-leite, ex-escravos, cantadores, “tudo o que era negado pelo letrado, esquecido pelo professor, ironizado pelo viajante”. Consultou arquivos mundo afora, professores estrangeiros. Descobriu vínculos entre velórios do sertão e costumes do antigo Egito; histórias das Mil e Uma Noites recontadas por sua ama, analfabeta; lendas medievais européias nos folhetos de cordel. O “provinciano incurável”, como gostava de se definir, jamais abandonou Natal. Oxfordr rendia-lhe homenagens. Juscelino Kubitschek o queria reitor da Universidade de Brasília. Sorbonne e USP, como professor. Preferiu ficar lecionando na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cascudo, explicador do Brasil, morreu a 30 de julho de 1986. Sua melhor definição, de Carlos Drummond de Andrade: “Não é propriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário”.

“O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”.
Câmara Cascudo

Luiz Henrique Gurgel
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