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Villa Kyrial livrou intelectuais da vida chã E-mail
Escrito por Natália Pesciotta   

Não havia artista em turnê pelo Brasil que não passasse por lá.

Domingos de Morais, 555. Segundo Mário de Andrade, um oásis tinha esse endereço na São Paulo do começo do século 20: “É o único salão organizado, único oásis a que a gente se recolha semanalmente, livrando-se da vida chã”, dizia o poeta sobre a Villa Kyrial. Tratava-se da chácara do senador Freitas Vale, um grande mecenas do período.

No casarão, ele organizava salões de arte que não deviam nada à efervecência cultural da Belle Époque. Em saraus, banquetes e recepções, reuniam-se vários tipos da intelectualidade brasileira. “Desde o fútil autômato da diplomacia do século 19, Sousa Dantas, até uma promissória de gênio, o pianista Sousa Lima”, exemplificava Oswald de Andrade. Foi ali que ele e Mário, entre outros, conceberam a Semana de Arte Moderna de 1922.

Não havia artista em turnê pelo Brasil que não passasse por lá. No gramado jogava-se croquet, jogo europeu parecido com o golfe, e na adega aconteciam concorridos campeonatos de pingue-pongue. Mas não pense que era bagunça. Apesar dos ares de vanguarda artística, tradições aristocráticas eram respeitadas. Os convites pessoais para banquetes esclareciam, além da programação cultural, o traje necessário: casaca ou smoking. Era necessário entender de vinhos e degustação de pratos exóticos.

Para o crítico Antonio Candido, a Villa Kyrial foi “o mais completo exemplar que houve em São Paulo um traço característico da Belle Époque: a concepção de que o cotidiano deveria se tornar obra de arte”. Depois de demolida para dar lugar a prédios nos anos 1960, a chácara localizada na Vila Mariana sobrevive apenas nas fotos.


SAIBA MAIS
Villa Kyrial - Crônica da Belle Époque brasileira, de Marcia Camargos (Senac, 2000).
 

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