Tia Dag E-mail
Escrito por João Rocha Rodrigues   

"Educar é devolver sonhos"

Seu nome é Dagmar Garroux, mas basta caminhar pelos labirintos da Casa do Zezinho para perceber que há tempos o tratamento afetivo suplantou o nome de batismo. De minuto em minuto, a conversa é interrompida por um “Oi, Tia Dag”, geralmente acompanhado de um abraço, um beijo ou simplesmente um sorriso. E não há quem a trate de outra forma – seja empresário, artista, jovem ou velho. Quando ela chegou a esse mesmo endereço, no início dos anos 1990, o imóvel que hoje abriga o projeto não passava de um “três cômodos” na região mais violenta de São Paulo. Para batizá-lo, inspirou-se no poema de Drummond que fala de um José sem saída. Arrancou-lhe a dúvida e sapecou uma exclamação: é agora, José! A Casa do Zezinho cresceu. Alavancada pelo carisma singular da educadora e pelo que ela atribui a uma “conspiração do universo”, a entidade atende hoje 1.200 jovens e crianças. Já passaram por lá mais de 10 mil pessoas – Zezinhos que hoje não apenas conquistaram espaço no mundo do trabalho, mas que passaram a enxergar o mundo de um outro modo. “Devolva o sonho para alguém e ele irá aonde quiser”, ensina. Tia Dag não se atém aos números: “O que vivemos aqui todos os dias não cabe nas planilhas”. Mas quem for afeito a elas pode tirar conclusões reveladoras: na Fundação Casa, a antiga Febem paulista, gasta-se cerca de 3.700 reais por mês com cada criança. Na Casa do Zezinho esse custo não passa de 350 reais.

 

Como começou a história da Casa do Zezinho?
O embrião do projeto se deu ainda nos anos 1970. Depois que me formei em Pedagogia, comecei a trabalhar com crianças exiladas – crianças que vinham do Chile, da Argentina, do Líbano, de Israel. Uma das ferramentas pedagógicas que usava era levar essa turma para conhecer outras realidades tão difíceis quanto às delas, que persistiam por séculos, passando das senzalas às periferias. Depois de conhecer mais de perto a vida das crianças das favelas, não tive como não me envolver. Em dado momento, começaram a aparecer os grupos de extermínio. Eles punham num poste quem ia morrer se não saísse da favela em sete dias. Matavam meninos que tinham roubado canetinhas – crianças de 10, 12 anos. Com meu marido, comecei a rodar São Paulo para encontrar um lugar para abrigar esses meninos. Mas, por medo, ninguém queria se envolver, nem mesmo os orfanatos. Eu não podia deixar aqueles meninos morrerem. A única solução era levá-los para a minha casa. Logo ela ficou pequena, e nós encontramos essa aqui, que hoje tem 3.200 metros quadrados de área construída, mas que naquela época era só sala, cozinha e banheiro. Então, com as minhas colegas da USP, começamos a Casa do Zezinho.

Como o projeto se bancava no início?
Éramos nós e nós. No começo, todos éramos voluntários, colocando parte do dinheiro que ganhávamos com outras atividades. A cada dia, um de nós era responsável por tudo: limpeza, comida, aulas. Em termos pedagógicos, escolhemos atuar com a cultura. Todo mundo sabia o que havia de ruim na periferia, então partimos para descobrir o que havia de bom e fizemos disso o nosso conteúdo. Um menino foi contando para o outro o que acontecia por aqui, e o espaço foi ficando pequeno. E lá foi a Tia Dag fazer puxadinhos. Fiz questão que essa casa fosse construída igual a uma favela, um labirinto de puxadinhos.

Como esse esforço transformou-se em um projeto tão estruturado como é hoje?
Eu diria que houve uma conspiração do universo – a gente pensa que tem as rédeas na mão, mas não tem, não. Num dia em que a Casa do Zezinho estava sob a minha responsabilidade, uma criança quebrou o dedo. Levei-a correndo para o ortopedista e, na volta, a estúpida aqui decidiu fazer um agrado à criança: passamos no McDonald’s. A criança voltou com o dedo engessado e um McLanche Feliz. No dia seguinte, havia três crianças com o dedo quebrado. Isso me assustou: se hoje o menino quebra o dedo para comer um sanduíche, daqui a 10 anos vai fazer o quê?


Como você contornou a situação?

Primeiro conversamos com as crianças, dizendo que aquilo não era solução para coisa alguma. Depois, não teve jeito: tive que levar a turma toda para a lanchonete. Mas quando chegamos lá, com umas 60 crianças, um sujeito que estava lanchando com os filhos se aproximou e perguntou o que estava acontecendo. Quando contei a história do dedo quebrado, ele perguntou se não podia ajudar a levar as crianças de volta. E lá fomos nós. Chegando aqui, passamos por um lugar onde acontecia a desova de corpos – essa região era chamada de Triângulo da Morte, juntando Jardim Ângela, Parque Santo Antônio e Jardim São Luiz. Nossa rua era assaltada 17 vezes por dia, havia morte o tempo todo, chacinas. Os coveiros do cemitério deixavam 60 covas preparadas para os mortos que iam chegar no fim de semana. No caminho, fui contando isso tudo. Quando ele viu o terreno vago ao lado da nossa casa, perguntou quantas crianças a gente conseguiria cuidar se tivéssemos esse espaço. Eu respondi que mais de mil, sem acreditar que a pergunta tinha alguma intenção. No dia seguinte, chegou aqui um caminhão de arroz, feijão, dois freezers. Só então fui ler o cartão que o cara tinha me dado: era o João Batista Cardoso, dono do Moinho Santo André. Ele mobilizou sua rede de relacionamentos, comprou o terreno e começamos a obra. O Batista, que até hoje é o nosso vice-presidente, diz que foi a obra mais cara da vida dele. Não tinha jeito: às vezes, diante das dificuldades por que passávamos, eu ligava para ele e perguntava: “E aí, Batista? Compramos cimento ou feijão?”. E comprávamos feijão.

Foi essa a grande virada da Casa do Zezinho?

Não. Acho que isso, de certa forma, já estava acertado para acontecer. Para mim, a grande virada foi quando assassinaram meu pai. Nessa época, eu já cuidava de 200 Zezinhos. Um menino invadiu o sítio em que morávamos – em Itapecerica da Serra, pertinho daqui –, meu pai reagiu e levou três tiros. Foi um baque. Desaluguei o sítio e fiquei um mês sem aparecer na Casa do Zezinho. Um dia, uma criança me ligou e falou: “Tia Dag, você tá muito triste, né? Se a gente for lá na Febem e mandar matar o cara que matou seu pai, você volta?”. Aquilo me deu um frio na barriga. Falei para mim mesma: “Caraca, meu pai morreu defendendo aquilo em que ele acreditava, que era a família. Eu vou morrer em pé”. Aí voltei. Voltei como uma louca, com uma energia sem fim. Essa foi a grande virada para mim. E não acho que isso foi uma prova. Não acho que faço missão alguma. Pode tirar estas palavras. Eu adoro o que faço, sou abençoada porque posso fazer o que gosto do jeito que gosto. Sou uma felizarda.
A presença da Casa do Zezinho nessa região tem algum significado especial? Sempre acreditamos no desenvolvimento humano e local. O que adianta tentar tirar 100 mil pessoas do Parque Santo Antônio? Por que não melhorar o Parque Santo Antônio? O Capão Redondo tem quase um milhão de habitantes, e só há dois cinemas pagos na região. Mas há também o contra-ataque. Há 10 anos o Sergio Vaz toca a Cooperifa. Tem a turma do Ferréz, os Racionais, que colocaram a região na música e no mapa. Quando há saraus nos botecos, ninguém bebe, ninguém fuma – é só poesia. Nesses 18 anos oficiais de Casa do Zezinho, além de 35 de área social, eu finalmente vi a população fazendo e reivindicando por ela. Esses caras são, para mim, os maiores pedagogos da região. Eles transformaram o Capão. Heliópolis também tem seus agitadores, Paraisópolis também – pessoas do lugar que investiram na própria periferia. Esse movimento refletiu na entrada de ONGs, de pessoas que começaram a cutucar, mostrar, falar.

Como você define a sua participação nesse movimento?
Eu sou simplesmente a “Tia Dag”. Eu vou morrer educadora. Para mim, a Casa do Zezinho é uma ponte. Ponte para os empresários, para os agitadores culturais daqui, para as crianças, para o pessoal do outro lado da ponte. É esse o papel da Casa do Zezinho.

Como vê a recente enxurrada de críticas às ONGs?
Recentemente, numa discussão com outras entidades, estava tão brava com a situação que pensei em sugerir que todas as ONGs do Brasil fizessem uma semana de greve. Todas: ambientais, de saúde, educacionais, culturais. Eu queria ver o que aconteceria com o Brasil. O terceiro setor não pode ser tomado de forma pejorativa.

Como é possível restabelecer vínculos sociais com crianças que caminham desde cedo no território da marginalidade?
Uma vez, cheguei numa menina de uns 12 anos que estava se prostituindo na favela. Perguntei para ela: “Escuta, quanto é que você ganha por programa?”. E ela: “Dez real”. A menina ganhava 10 reais e ficava com cinco. “Por que, Tia Dag, tá pensando em ser puta?” “Eu não”, respondi. “Se fosse pra ser puta, seria puta em Brasília. Lá ganharia três mil por transa, compraria um apartamento e casaria com um conde italiano cheio da nota. Muito melhor do que ficar aqui ganhando essa mixaria.” Depois que disse isso, olhei para o céu, pedi desculpa ao “patrão” e toquei em frente. Três dias depois, a menina me procurou: “Tia Dag, quero ser puta em Brasília”. Era a minha oportunidade: “Então vem para a Casa do Zezinho. Você vai ter que arrumar os dentes, estudar, aprender outra língua, fazer atividade física”. Ela veio, e hoje é dentista.

O diálogo é parte importante da pedagogia da Casa do Zezinho?

É esse tipo de situação que os educadores enfrentam todos os dias aqui. Nada é julgado, tudo é questionado. Não julgamos se a criança está cheirando, roubando. Uma carteira de identidade que eles roubam e levam para a “biqueira” vale 100 reais. É difícil competir. Paulo Freire dizia que educar é seduzir. Qual é a sedução que a Casa do Zezinho tem contra 100 reais imediatos? Então não adianta julgar o menino. Nesse mundo em que a gente vive, ele também quer o brinquedo, o tênis. É por isso que essa época para mim é um horror. No Natal desses meninos não tem ceia, não tem presente – no máximo, um frango assado em cima da mesa. Mas na tevê, no comércio, os meninos veem os presentes, as lojas enfeitadas... Como é que fica? É por isso que na Casa do Zezinho não fazemos Natal. A gente faz confraternização de fim de ano. E não aparece Papai Noel algum, porque se aparecer vai ser expulso. Natal para mim é todo dia. A gente tem que exercer essa condição humana de gratidão, compreensão e tolerância. Não fazemos nem Dia das Mães nem Dia dos Pais. Imagina aqui quantos já perderam o pai assassinado, ou o pai está preso, ou sumiu. A escola comemora todas essas datas – uma prova de como está distante da realidade dos alunos.

Há algum método para reproduzir a pedagogia que foi criada aqui?

O que fazemos aqui se inventa todo dia. Basta exercitar os cinco sentidos, e batalhar. Se realmente estiver disposto a compreender o outro, pode-se fazer em qualquer lugar. É só ouvir. E saber fazer as perguntas.

O que você espera para esse lugar nos próximos anos?
O mesmo sonho continua, que cada criança, cada jovem, cada ser humano, cada bairro seja ouvido. Educar é um ato total de amor. É preciso ter a humildade de saber que não somos onipotentes, onipresentes. Que também somos educados dia após dia. Educar é devolver o sonho para alguém. Devolva o sonho para alguém e ele irá aonde quiser.

 

Adicionar comentário

Seus comentários serão moderados e assim que aprovados serão publicados no site.