Marcio Baraldi dirige documentário sobre o “mestre do terror” E-mail
Escrito por Bruno Hoffmann   

Apesar de argentino, o autor de histórias em quadrinho Rodolfo Zalla foi um nome decisivo a partir da década de 1960 para dar uma cara nacional à produção do gênero no País. Em suas tramas não há super-heróis de cabelos loiros e olhos azuis, mas caboclos, índios e animais amazônicos. Boa parte das tramas é ambientada em florestas tropicais. Ao lado de Flávio Colin, Gedeone Malagola, Eugênio Colonnese e outros, deu uma cara real aos gibis brasileiros.

 

Seu gênero mais marcante foi o de terror. Lançou revistas clássicas como Escorpião, Targo, Calafrio e Mestres do Terror. Também caminhou por outras trilhas. Recentemente, publicou revistas sobre a vida do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e do médium Chico Xavier. Aos 82 anos, continua a trabalhar em seu estúdio em São Paulo.

 

Por motivos misteriosos, ainda é deconhecido do grande público. Mas atrai fiéis admiradores, como o também quadrinista Marcio Baraldi, que acaba de lançar o documentário Ao Mestre com Carinho, em homenagem a Zalla. Trata-se de uma grande entrevista em que o autor conta sobre sua vinda ao País, os primeiros personagens e suas escolhas estéticas. E fala principalmente sobre histórias de terror, suas preferidas.

 

Nesta entrevista com Baraldi – que também é quadrinista, especializado na temática do rock –, o diretor conta por que decidiu filmar o documentário, lamenta sobre a falta de reconhecimento e exalta a sua temática nacional. “Zalla é o melhor cronista visual do povo simples e interiorano brasileiro. Se os Estados Unidos tiveram Jack Kirby, se a França teve Moebius, nós temos Zalla”.

Marcio Baraldi e Rofoldo Zalla

 

Quando começou sua admiração pela obra de Zalla?

Desde moleque, quando eu lia os gibis como Escorpião, Targo, Calafrio, Mestres do Terror etc. Eu admirava toda aquela geração que surgiu nos anos 1960 e 1970: Zalla, Colonnese, Gedeone, Rubens Cordeiro, Fernando Ikoma, Jayme Cortez, Nico Rosso e tantos outros. Eu lia os gibis e pensava: “Será que um dia serei igual a eles?”. Imagina minha alegria quando, anos depois, virei profissional de quadrinhos e conheci quase todos.

 

O que te levou a produzir o documentário?

Meu sonho era fazer um documentário com vários mestres dessa geração. Queria mostrar o que foi aquele período intenso e nacionalista dos anos 1960 e 1970. Eu adoro aquilo. Pra mim essa é, de longe, a melhor geração do quadrinho brasileiro. Gosto dos valores morais que esses artistas tinham, que  acho que é uma coisa que se perdeu. As novas gerações não têm esses valores coletivistas e militantes que eles tinham, vivemos a era do individualismo resignado. Mas vários artistas começarama morrer: Gedeone, Colonnese, Claudio Seto, Minami. Os quatro morreram em cerca de um ano. Eu resolvi correr e fazer o Zalla, antes que ele morresse também (risos). Quer motivação melhor? Essa geração maravilhosa, que tem tanto pra nos ensinar, que fez tanto pela cultura brasiileira, que defendeu a soberania nacional,está indo embora. E se ninguém registrar suas obras e ideias, as próximas gerações não farão a menor ideia de quem foram. E infelizmente nenhuma emissora de tevê e nenhum orgão do governo quis documentá-los até hoje, não dão a mínima para a importância deles. Então coube a um fã como eu cumprir essa missão.

Quais são os personagens criados por Zalla que mais te impressionam?

Acho o Targo e o Escorpião bacanas porque são heróis amazônicos, que já defendiam a floresta amazônica do desmatamento e dos contrabandistas nos anos 1960. Apesar de ambos os personagens terem começado como plágios dos heróis americanos Tarzan e Fantasma, quando Zalla assumiu a direção artistica dos dois, os transformou em personagens mais autênticos, com feições e características típicas sul-americanas, os tornou verdadeiros heróis tropicais. Isso, sem dúvida, foi um grande mérito do Zalla.

 

Quais são suas publicações preferidas?

Adoro as quadrinizações que fez do Lula e a do Chico Xavier, ambas ficaram ótimas. Também adoro o Escorpião, tenho a coleção completa. E, claro, a Calafrio e a Mestres de Terror, que foram duas revistas históricas, que duraram dez anos ininterruptos nas bancas, um feito extraordinário pra uma editora minúscula como a D-Arte.

 

Quais são as características mais importantes das publicações de Zalla?

O naturalismo e academicismo. Zalla desenha as coisas como elas realmente são na vida real. Ele nunca seguiu o padrão Marvel Comics, por exemplo, de heróis com músculos absurdos. As heroínas e heróis americanos são sempre esguios, altos e loiros. Os personagens de Zalla são diferentes. As mulheres são baixas, morenas de cabelos cacheados e lábios fartos. Os homens têm sombrancelhas grossas, bigodinhos finos, cabelos desgrenhados. Muitos são caboclos perfeitos. Zalla também sempre adorou desenhar a natureza e tratou de retratar bichos e plantas com a fidelidade de quem se utiliza de  fotos como referencia até hoje. Zalla retrata a vida como ela é.

 

Apesar de argentino, é possível dizer que sua arte é brasileira?

Sim, e muito. Basta pegar os gibis do Targo e do Escorpião para ver que Zalla

colocou nas histórias índios típícos brasileiros, vegetação e animais típicos. As etnias, roupas e feições dos personagens são sempre sul-americanas. E Zalla tem um traço inconfundível que a gente conhece de longe. Os Estados Unidos tiveram Jack Kirby,  a França teve Moebius, e nós temos o Zalla. Ele é o melhor cronista visual do povo simples e interiorano brasileiro e sul-americano.

 

Por que os quadrinistas do Brasil daquela geração, principalmente os dedicados ao universo do terror, como Zalla e Flavio Colin, são ainda tão pouco populares no Brasil?

Porque o Brasil nunca teve memória e só dá valor para o que tem de bom quando o perde. Nós temos um histórico secular  de desrespeito com a nossa própria cultura. Não nos valorizamos, não nos enxergamos como nação e damos mais valor para a cultura estrangeira do que

para a nossa. Se Zalla tivesse migrado para os Estados Unidos em vez do Brasil, como José Delbó, que ficou pouco tempo no Brasil e logo zarpou pra lá, hoje estaria milionário. Mas Zalla nunca ligou pra fama e fortuna. Só quer fazer as coisas do jeito dele, sem se preocupar com as opiniões

alheias e as tendências estéticas do próximo verão. Não podia ser diferente. Afinal, sem sombra de dúvida, ele é mestre!

 

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