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Semente do paraíso E-mail
Escrito por Mylton Severiano e Kátia Reinisch   

Com sua irresistível ardência, é tempero indispensável no mundo todo. Alimento funcional: nutre e ao mesmo tempo preserva a saúde. Poderoso afrodisíaco, é a alma da comida brasileira desde que aqui se juntaram índios, europeus e africanos.

Como podemos gostar do alimento que nos deixa a boca pegando fogo? Que mistério há no prazer desse ardor? A questão remete à Pré-história. Há indícios de que na futura América já se comia pimenta, no mínimo, 12 mil anos atrás.

Colombo, ao chegar ao Novo Mundo em 1498, pensando que chegava às Índias, viu nativos temperarem comida com picantes frutinhas: brancas, vermelhas, rosadas, verdes, amarelas. O genovês, leigo em botânica, achou que eram variedades da “especiaria das especiarias”. E as chamou pimentas. Mas não eram parentes da Piper nigrum, da família piperácea, que dominava o mercado mundial das especiarias; pertenciam a outras duas das três famílias que nos presenteiam com frutinhos ardidos: solanáceas e anonáceas. Mas o termo pegou: ardeu, é pimenta.

Para nossos tupis-guaranis, kyinha, apuã. E uma curiosidade. Chamamos a piperácea asiática de pimenta-do-reino porque nos vinha através do Reino – de Portugal. Mas temos piperáceas nativas do Brasil, como a pimenta-do-mato e a dos-índios – kyinha çobaigoara para os tupis.

Para esta pimenta, usamos o nome científico Capsicum frutescens, em reverência às solanáceas mais populares desse gênero no País: dedo-de-moça (caiena), cumari e malagueta – esta também usada para fins religiosos e outrora chamada de “grão do paraíso”.

Em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre anota que “o abuso que faziam os indígenas da pimenta se prolonga na culinária brasileira de hoje”. A portuguesada se deleitou com a abundância. Freyre cita o Barão de Nazaré, fidalgo pernambucano que “não ia a banquete sem levar pimentas no bolso da casaca, com receio de que o anfitrião, por elegância europeia, não as oferecesse à mesa”. A usança “aguçou-se”, acresce Freyre, “pela influência da culinária africana, ainda mais amiga que a indígena dos requeimes e excitantes do paladar”.

Vamos concluir com outro gigante da brasilidade, Luis da Câmara Cascudo: “O brasileiro é o herdeiro fiel do patrimônio culinário das três raças formadoras de sua etnia. A pimenta vivia na preferência de seus avós negros, caboclos e portugueses.”

Então, pois, voltemos à questão inicial: por que tanta avidez por um alimento tão ardido? Pedimos humildemente licença a Camões para usar o primeiro verso de seu mais belo soneto: “Amor é um fogo que arde sem se ver.”


Tal e qual a pimenta: queime a língua e seja feliz
Receptores na língua avisam que a boca está “pegando fogo”. O cérebro acode liberando endorfina, que alivia a dor e traz bem-estar; hormônios sexuais; e serotonina, de ação alucinógena. A temperatura sobe. O sangue corre rápido. Somos tomados de energia, alegria e disposição sexual. As melhores para isso são pimenta-de-cheiro, dedo-de-moça, malagueta e cumari.

Pimenta vicia? Dizem estudiosos que sim. Temos as nossas no quintal. Pois, como o citado Barão de Nazaré, tememos uma síndrome de abstinência.


Temperos mais usados no mundo: sal e… pimenta

Antes da geladeira, conservava-se alimento com a bactericida pimenta. No México, põe-se até em frutas e doces. Na Idade Média, era proibida aos jovens para não lhes despertar o apetite carnal. O viajante alemão Hans Staden escreveu, em 1557, que franceses pirateavam nosso litoral tanto atrás de pau-brasil quanto de pimenta. Na Antiguidade, egípcios a passavam nas partes íntimas para aumentar a excitabilidade. Só nós temos a dedo-de-moça. Antes de conhecer cachaça, caiapós faziam aguardente de pimenta.


Quanto mais picante, melhor
A Capsicum contém muita vitamina A (boa para a pele, mucosa, dentes); e quatro vezes mais que laranja a C (anti-infecção, cicatrizante). Antioxidante, adia a velhice. Tem flavonoide, previne câncer. A capsaicina, seu princípio ativo, fortalece a imunidade, tal como a piperina das piperáceas – família da pimenta-do-reino. Previne reumatismo, doenças cardiovasculares. Ajuda a regular a pressão.

Estimula a circulação no estômago: bom para a digestão. Combate enxaqueca, gripe, inflamações. Cicatrizante. Mas atenção: falamos do uso frequente, não de passar no local, nem comer em caso de crise hemorroidal (e nisso a do-reino preta é “a perigosa”).

Acelera metabolismo, eleva temperatura. Você queima mais calorias, o que emagrece. E quanto mais ardida, mais capsaicina ela tem.

Mas como medir a ardência? Você sabia que um farmacólogo americano criou um método que responde a essa questão? E que a pimenta exerce importante papel no reino espiritual? Veja em Da matéria e do espírito.


SAIBA MAIS
História da Alimentação no Brasil, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2004).
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Editorial Enciclopédia, 1978).
Revista Vida Natural & Equilíbrio Especial - Alimentos Poderosos e Seus Efeitos Curativos: Limão (Escala, s/d).
Veja outras duas matérias sobre a pimenta no site do Almanaque: Especiaria das especiarias e Da matéria e do espírito.
 

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