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Que reino é esse? E-mail
Escrito por Mylton Severiano e Kátia Reinisch   

Eles vêm chamando atenção da ciência pela quantidade de substâncias benéficas que contêm – de valor alimentício e medicinal. E vão ajudar a matar a fome da humanidade com deliciosas iguarias. Que tal o cogumelo juba-de-leão, que tem sabor de lagosta?

Marina Wilkens tem um ano e três meses e come cogumelo há dois anos. “Desde a barriga da mãe”, explica o pai, “e continua até hoje: adora papinha de cogumelo”. Os pais de Marina, na zona rural de Garopaba, 90 quilômetros ao sul de Florianópolis, há quatro anos cultivam o fungo. Vendem sob a etiqueta Gula – das iniciais de seus nomes: Gustavo e Laura.

Escolheram como carro-chefe o hiratake, terceiro mais popular no Brasil, depois do champignon – que produzem em menor escala – e do shiitake. “O hiratake é o mais fácil de cultivar para quem está começando”, aconselham.

O forte da produção é o Pleorotus ostreatus – o píleo (chapéu) lembra uma ostra. E é bonito de se ver, pois frutifica amarelo, rosa, marrom, cinza-azulado, salmão. O casal acaba de ampliar o cultivo, que começou num latão de cem litros e já emprega quatro funcionários. Com empréstimo do Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar (Pronaf), construíram um “berçário”.

Depois de ter pousada e restaurante, Gustavo percebeu o nicho escancarado no sul: tinha de importar cogumelo de São Paulo. A Gula abastece duas redes de supermercados em Florianópolis e restaurantes da região. Sai tudo. “Compramos uma desidratadora para aproveitar o que sobrasse”, contam, “mas só usamos para testar, faz oito meses”.

Perguntamos sobre a carga diária de trabalho. Umas sete horas? Ele riu: “Tem dia de vinte horas. Hoje saí às três da madrugada para fazer entregas”.

A trabalheira compensa, e o casal planeja voar mais alto: cultivar um exótico, Hericium erinaceus, na Europa barba-de-bode ou juba-de-leão, que já testaram e aprovaram: tem sabor de lagosta.

O que Laura e Gustavo nos transmitem é que a procura em nosso país avança veloz, apesar de ainda haver preconceito. A avó de Gustavo, quando ele disse que ia cultivar cogumelos, perguntou: “Filho, isso não é tóxico?”. Mas, para se ter ideia do potencial, informam eles, o consumo per capita no Brasil é de apenas 40 gramas por ano, enquanto na Europa é de três quilos: 75 vezes mais. E nos passam o argumento definitivo de que seguem no rumo certo: “Nos próximos 50 anos, teremos de produzir a mesma quantidade de alimentos que produzimos desde que a humanidade passou a se dedicar à agricultura, 12 mil anos atrás”.

Eles pensam no futuro dos bisnetos, os netos de Marina.


Nem bem animal nem bem vegetal

Achavam que, por ter raiz, caule e copa, ele fosse vegetal. Descobriram que possui quitina, encontrada na pele de animais. E tem tanto mineral, que se poderia encaixar também nesse reino. Concluíram que ele é único: do reino dos fungos – fungi, em latim.

A “raiz” se chama micélio; o “tronco”, estipu; a copa, ou chapéu, se chama píleo, e é o “fruto” que brota do micélio. Popularmente, é tudo cogumelo. A palavra latina cogumellus significa caldeirãozinho, como a forma do champignon, convidado especial do estrogonofe.


Dá ao nosso corpo o que ele não fabrica
Tem muita proteína e, alguns, todos os aminoácidos essenciais – os que, necessários à vida, o organismo não fabrica. Baixo teor de gordura. Rico em minerais, fibras, vitaminas B e C. Antibactericida, antioxidante, antiviral, antitumoral; regula a pressão; fortalece a imunidade, rins, fígado, coração, nervos, pulmões. Baixa o colesterol.


Trabalho que recompensa
O casal da Gula adota processo chinês introduzido pela Embrapa: jun cao, “vindo da grama”. No caso, trigo. O que o triticultor joga fora, encontra serventia. Compram barato a “impureza”. O processo:

1) Põe-se a palha no misturador, molha-se e mistura-se, formando o substrato.
2) Passa-se este para um mesão de tampo cercado, que num ponto possui uma abertura onde uma funcionária encaixa saquinhos plásticos especiais e enche um a um com 2 quilos.
3) No forno, são aquecidos a 95 graus para pasteurizar.
4) Na “sala limpa” inocula-se a semente (sacos e sementes compram em São Paulo).
5) Na sala de produção vem a indução. Pelo trigésimo dia, abrem talhos nos sacos para a frutificação dos cogumelos.

Foi o espetáculo que vimos: uns mil saquinhos explodindo em coloridos frutos. Um ciclo dura 35 dias e cada “fornada” dá três safras, cada saco fornecendo 400 gramas por vez. Entregam em bandejas de 200 gramas a R$6 cada. Podem faturar até R$25 mil por mês.


SAIBA MAIS
Dieta Mediterrânea com Sabor Brasileiro, de Fernando Lucchese (L±, 2005).
No Reino dos Cogumelos
, reportagem de Luciana Franco, publicada na revista Globo Rural 253, novembro de 2006.
Veja nossos outros textos sobre cogumelos: Símbolo do eterno renascer parte 1, Símbolo do eterno renascer parte 2 e Em se cultivando, cogumelo dá.
 

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