Banner
Símbolo do eterno renascer parte 1 E-mail
Escrito por Mylton Severiano e Kátia Reinisch   

Vários povos o veem como sinal da regeneração da vida. Promissor coadjuvante na cura de câncer, na limpeza de águas poluídas, e na descoberta de novas iguarias: já provou uma torta de chocolate puxada no cogumelo e coberta com filetes de hiratake seco?

Já vimos que boa parte dos cogumelos cresce em material orgânico em decomposição (alguns no esterco de gado, como certos fungos alucinógenos). Então, quem resolve cultivar cogumelos comestíveis pode aproveitar restos do vegetal produzido em sua região – palha de trigo, de arroz; restos de bananeiras, de palmeiras; bagaço de cana. Ao chegar à Univille, em Joinville, 170 quilômetros ao norte de Florianópolis, encontramos, no laboratório de pesquisa em biotecnologia, moças do curso de Engenharia Química preparando substrato de pupunheira, palmeira cultivada por lá. Na extração do palmito, sobra muita bainha – que o abriga – mais palha e folha. E o que seria um problema para o agricultor é uma solução para quem cultiva cogumelo.

As jovens são alunas de Mariane Bonatti Chaves, que acaba de defender tese de doutorado sobre cogumelos, e de Elisabeth Wisbeck, que, junto com outros pesquisadores, coordena projetos. Um deles, menina dos olhos do grupo, usa Pleorotus ostreatus, o hiratake. “A gente está apostando na área terapêutica”, informa Elisabeth.

Elas nos contam que misturaram na ração de coelhos o “resto do resto” – o substrato depois de colhidos os cogumelos. No inverno, os coelhos que comiam ração comum ficaram gripados, com coriza e olhinhos fechados; e os que comiam a ração “especial” permaneceram sadios, ou seja: até o substrato adquiriu a ação antibiótica do cogumelo.

A mais recente experiência, em laboratório, mostra o potencial do cogumelo na luta contra o câncer. Em cobaias com melanoma – tumor de pele maligno – aplicaram injeções de substância extraída do hiratake. “Obtivemos no teste 96% de redução do sarcoma 180 – nome do tumor de pele”, relata Elisabeth.

Perguntamos quando o remédio vai para as prateleiras, e elas dizem que “isso é complicado”, exigiria uma série de testes e parceria com a indústria farmacêutica, “que ainda é difícil”. “A gente faz e publica o trabalho”, arremata Elisabeth. A coordenadora lamenta que o brasileiro ainda não consuma cogumelos como europeus e asiáticos. “Não temos o hábito, primeiro porque não faz parte da nossa cultura; e depois, o que existe é caro.” Ela apanha um saco de hiratakes secos e nos oferece: parecem chips de exótico sabor – que vamos provar dali a pouco numa fantástica sobremesa no laboratório de gastronomia.


Uma torta de chocolate, morango e hiratake, eba!

O cogumelo comestível está na lista dos alimentos nutracêuticos, os que, além de nutrir, previnem ou tratam doenças. Na Univille, numa encosta a 100 metros da Biotecnologia, instala-se o curso de Gastronomia. Mariane nos reservava uma surpresa. Apresentou-nos à mestra Mariana Duprat (aparentada de Rogério Duprat, o maestro do Tropicalismo), que nos levou à sala-laboratório de confeitaria. O professor Alex Santos instruía 16 alunos na feitura de tortas e bolos. Rapazes e moças se debruçavam sobre uma torta de pão de ló negro – à base de chocolate e hiratake seco moído, recheada com morango e ganache, uma calda de chocolate em barra derretida no creme de leite. Um aluno cobria a torta com o ganache e enfeitava com mais morangos. E o professor fez o acabamento: dispôs em cima tiras de hiratake seco, em forma de raios. Aí veio o melhor da festa: a degustação. Nunca provamos torta de chocolate mais saborosa. O gosto delicado do cogumelo persistiu na boca por mais de uma hora.


Da morte nasce a vida
Para os chineses, ele simboliza a longevidade, sobretudo o agárico, que nasce em restos de vegetais: depois de seco, dura muito tempo. Acreditavam que o agárico só crescia se houvesse paz e prosperidade no império. Para o povo tungue da Sibéria, as almas se reencarnam na Lua como cogumelos e assim voltam à Terra. Bantus do Congo também os consideram símbolos da alma. Há um ponto comum nas crenças: o cogumelo é símbolo da vida regenerada após a decomposição orgânica, ou seja, a vida depois da morte.


Águas poluídas, não percam a esperança
uma pesquisa, vislumbramos um veio para limpar águas. Mariane nos mostra um equipamento, o biorreator, onde um líquido borbulha fazendo girar incontáveis células de Pleurotus – borbulhas de oxigênio, para que possam respirar. O líquido é um efluente de indústria têxtil, que chegou escuro de corantes. Houve a descoloração do efluente, que já parece água. Falta saber se os Pleurotus também descontaminaram a água. Saberemos no mês que vem. Caso sim, imagine as possibilidades de limpeza do meio ambiente.


SAIBA MAIS
Dieta Mediterrânea com Sabor Brasileiro, de Fernando Lucchese (L±, 2005).
No Reino dos Cogumelos, reportagem de Luciana Franco, publicada na revista Globo Rural 253, novembro de 2006.
Veja nossos outros textos sobre cogumelos: Que reino é esse?, Símbolo do eterno renascer parte 2 e Em se cultivando, cogumelo dá.
 

Adicionar comentário

Seus comentários serão moderados e assim que aprovados serão publicados no site.