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Uma fogueira no coração do povo E-mail
Escrito por redação   

A tradição europeia abrasileirou-se. Confira alguns elementos que não podem faltar nas festas juninas e duas cidades do nordeste do Brasil que levam a sério as comemorações.

Desde o século 4º, acendiam-se fogueiras em junho, para saudar o verão europeu. O catolicismo associou a celebração ao aniversário de São João. No século 12, portugueses passam a comemorar também São Pedro e Santo Antônio. A festança é mais popular no Norte e Nordeste. No Sul, reúne-se a família à mesa de jantar. No Sudeste, escolas, clubes e igrejas realizam quadrilhas e quermesses. As tradições evoluem mas não morrem. Aqui vão algumas que resistem.


Quadrilha

Nas cidades, a festa foi estilizada. Em escolas e clubes ainda há restos da tradição. A quadrilha nasce na França, derivada da contredanse. Adaptação da country-dance inglesa.

Virou contradança e veio na bagagem da família real. Fez sucesso nos salões com os mestres franceses Milliet e Cavalier. E, até os primeiros governos republicanos, foi dança de honra que dava início aos bailes oficiais.

Popularizada, torna-se manifestação da gente dos campos e das cidades. Comandos do mestre se acaipiraram: “en arrière” (para trás) virou anarriê; o “tour” (volta), tur; a grande “chaîne” (corrente), garranchê. Rabequinhas davam o tom no nordeste; sanfonas, no sul e sudeste.


Pau-de-sebo
A brincadeira se fazia no início com uma arvoreta originária da China e aclimatada no Brasil, chamada assim mesmo: pau-de-sebo. Dá frutos gordurosos e cresce no mínimo cinco metros. Para a festa, tiram todos os nódulos e lixam. Revestem com sebo. No topo, prega-se a tábua, onde fica o prêmio, geralmente dinheiro. Quem conseguir chegar lá, fica com a nota.


Fogueira e fogos
Para os pagãos, a fogueira espantava maus espíritos; para os cristãos, era bom presságio. O fogo espantava pestes e pragas.

Conta lenda que Isabel mandou acender fogueira no alto de um morro quando seu filho João nasceu. Anunciava a boa nova à prima Maria, futura mãe de Jesus. Nas festas juninas, armar a fogueira é ato de devoção. A tradição manda acendê-la às seis da tarde: hora da Ave Maria.

Fogos de artifício, em alguns lugares, são chamados de espanta-capeta. Ornamentais ou sonoros, têm função de “acordar” São João para assistir às comemorações de seu aniversário.


Mastro da bandeira
Noite de São João. Uns rezam. Outros escavam para levantar o mastro, de cinco a seis metros, pintado de branco com desenhos de flores ou anéis coloridos. Na ponta, a bandeira do santo. Expectativa para saber de que lado a bandeira ficará. Na direção da casa do festeiro é sorte. Caso contrário, pode ser desgraça. Quando vira na direção da pessoa que está embaixo, significa que ela está abençoada.


Comidas
A mesa deve ser farta. Milho, pamonha, pipoca, canjica, amendoim cozido, pé de moleque, batata-doce, inhame. Doces de goiaba, caju ou jaca. Licores de frutas tropicais. Garapa, aguardente, quentão. As trocas de doces, preparados artesanalmente, aproximam pessoas e expressam alegria.


Balões
Surgiram para levar aos céus pedidos de graças para São João. Soltá-los virou crime no Brasil, em 1965, devido ao risco de provocar incêndios.


Cantigas
Compostas por Ary Barroso, Haroldo Lobo e Milton Oliveira, João de Barro, Assis Valente, as canções juninas encantam o Brasil.

Lamartine Babo deixou duas obras-primas: Chegou a Hora da Fogueira e Isto é Lá com Santo Antônio. A primeira foi lançada em 1933 pela dupla Mário Reis-Carmen Miranda: Pensando na cabocla a noite inteira / Também fica uma fogueira / Dentro do meu coração. Em 1934, a mesma dupla grava a segunda canção junina de Lamartine, com arranjo de Pixinguinha: Eu pedi numa oração / Ao querido São João / Que me desse um matrimônio / São João disse que não / São João disse que não / Isso é lá com Santo Antônio.


Correio elegante
Nas quermesses, moças e rapazes trocam bilhetes com mensagens de amor ou brincadeiras. Modernizou-se. Nas cidades grandes, chama-se torpedo. Torpedeiros mandam bilhetes anônimos ou propõem namoro, com troca de telefones, nas casas noturnas.


Campina Grande Vs. Caruaru: uma disputa em que todos ganham
São trinta dias de comemoração pelas colheitas, trinta dias de disputa entre as duas grandes cidades nordestinas.

Na pernambucana Caruaru, o povo enfeita mais de duzentas ruas. Mais de cem conjuntos de forró animam a festa. As tradicionais bandas de pífanos se apresentam com as tropas de bacamarteiros - atiradores que deflagram descargas de pólvora, em homenagem aos santos padroeiros. Comidas à base de milho e macaxeira (mandioca, aipim) e bebidas são distribuídas fartamente. A Cidade Ardente é iluminada por 30 mil fogueiras. As maiores, com 15 m de altura, são erguidas como verdadeiros monumentos a São João e a São Pedro.

A rival Campina Grande, no interior paraibano, tem como principal atração o Parque do Povo, o “forródromo”. Lá estão comes e bebes e acontecem shows e quadrilhas de nomes engraçados como “Daquilo Roxo” e “Virgens da Seca”. Única cidade do mundo que tem uma orquestra sanfônica. O “trem forroviário” leva os turistas de outras regiões, que dançam durante a viagem ao som do forró.
 

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