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É carnaval E-mail
Escrito por Natália Pesciotta   

Na nossa festa mais democrática, personalidades como Carmen Miranda, Chacrinha, Carlos Marighella e princesa Isabel também viraram foliões. Prepare a serpentina e se junte a este grande bloco, onde ilustres brasileiros desfilam histórias carnavalescas em meio à multidão.

 


Do primeiro grito do recifense Galo da Madrugada até descer o pano da quarta-feira de cinzas, está instalada a festa. Já disse o Barão do Rio Branco: “No Brasil, só duas coisas são bem organizadas: a desordem e o carnaval”. Em nossa bagunça democrática, cabe “o maior espetáculo da terra” – como até Maradona definiu o desfile das escolas de samba cariocas –, os passos de frevo, o axé dos trios elétricos, marchinhas em blocos e bailes por todos os cantos.

Adaptamos e assumimos como nenhum outro povo o costume da folia que nasceu na Antiguidade como uma homenagem a Saturno, atravessou a Idade Média e hoje marca o início da quaresma cristã. Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, o carnaval é cultura pura, ao apresentar “ardente a preocupação de criar beleza, de expressar alegria ou de manifestar sentimentos”.

A máxima permanece, apesar das constantes transformações na forma e no conteúdo. Nesse balanço sem fim, reinventaram-se desde os entrudos dos tempos de Colônia, passando pelos cortejos de carruagens e nobres bailes de máscaras do Império até os formatos que atravessaram o século 20.

Que gente longe viva na lembrança / Que gente triste possa entrar na dança / Que gente grande saiba ser criança. O ideal descrito por Chico Buarque em Sonho de Um Carnaval se repete todo ano. E a fantasia vale não só para os anônimos. Antes de ser famoso, Chacrinha encarnou Rei Momo. O maestro Camargo Guarnieri deixou a música erudita de lado para compor marchinhas para um baile. O guerrilheiro Marighella, já atuante, não deixava de ir ao Bola Preta. E para que ninguém tome a folia por alienação, modernistas, intelectuais de Ipanema e até a princesa Isabel aproveitaram a ocasião para organizar festejos politizados. Nos blocos a seguir, veja como brasileiros de áreas tão distintas como pintura, música e política se renderam (ou não) à folia de Momo.

Modernistas fundaram território para cair na folia
Na Spamolândia, a moeda vigente era o spamote, cantava-se o hino Spantriótico e lia-se o jornal A Vida do Spam. Parece até tratar-se de um país, mas era apenas um dos bailes de carnaval mais extravagantes que São Paulo já viu. A cidade em miniatura foi organizada em 1933 pelo movimento modernista com o objetivo de arrecadar fundos para a Spam (Sociedade Pró-Arte Moderna) – além do propósito festeiro, claro. Teve toda a decoração e fantasias criadas por artistas como Lasar Segall e Anita Malfatti. Camargo Guarnieri compôs a marchinha e Mario de Andrade cuidou do panfleto. Talvez o baile só perca em extravagância para a festa dos mesmos modernistas no ano seguinte. Dessa vez, Lasar Segall, empolgado com a função de carnavalesco, criaria um ambiente tropical: Uma Expedição às Selvas da Spamolândia.

No último carnaval antes da Abolição, a princesa Isabel preparou um festejo especial. Aos moldes das batalhas de flores francesas, enfeitou a carruagem com camélias – na época, símbolo da libertação dos escravos – e saiu com conde d’Eu e os filhos jogando flores e confetes pelas ruas. A ideia era mobilizar a alta sociedade para a causa e arrecadar recursos para a Confederação Abolicionista.

Era sábado de carnaval, em 1973, quando Pixinguinha teve seu derradeiro enfarto, enquanto apadrinhava um menino numa igreja carioca. A Banda de Ipanema festejava ali do lado. Tratou de improvisar uma versão de Carinhoso, que nunca mais saiu de seu repertório.

Em plena ditadura, moçada de Ipanema pôs o bloco na rua
Sentado na mesa de um bar carioca em 1964, o cartunista Jaguar escrevia uma lista. Os integrantes da futura Banda de Ipanema, que ele fundava com amigos, chegavam a 30. Mas, a partir daqui, ganhariam a companhia de mais de 10 mil pessoas. Leila Diniz consagrou-se como rainha da bateria alternativa e gente como Beth Carvalho e Bibi Ferreira foi homenageada. A censura não proibia o carnaval da turma de ipanema, mas dizem que chegou a mandar espiões infiltrados. Apesar do engajamento dos participantes, nada de subversivo pôde ser encontrado. Ali a afronta era a própria festa. Quero a minha voz / Dentro do coral / Viva a vida e morra a morte / E a moçada de Ipanema/ Botou na rua seu carnaval, diz a marchinha de Sergio Cabral e Rildo Hora. Desde 2004, o bloco é tombado como patrimônio do Rio de Janeiro.

Quando encontrou a ex-mulher na Banda de Ipanema, no Carnaval de 1970, o técnico da seleção brasileira João Saldanha não resistiu. Depois de meses separados, os foliões reataram o casamento entre confetes e serpentinas.

Antes de Chacrinha, Aberlado foi Rei Momo
O que Chacrinha tem a ver com carnaval? O nome e o pontapé da carreira. O locutor foi descoberto por uma rádio de Niterói quando promovia a venda de chuveiros em uma loja. Com carta branca da Rádio Clube para criar um programa, Aberlado Barbosa escolheu apresentar músicas carnavalescas na sede da emissora, uma pequena chácara. Daí o nome da sua primeira aventura com o auditório, ao qual ficou associado a vida toda: O Rei Momo na Chacrinha.

Papel de jurado quase rende desavença a Chico Buarque
Caramba, caramba / Nem o Chico entendeu / O enredo do meu samba. Talvez Martinho da Vila tivesse sua parcela de razão ao reclamar dos critérios de Chico Buarque, um dos jurados do carnaval de 1967, que não deu 10 ao samba-enredo que compôs para a Vila Isabel. Afinal, na longa madrugada dos desfiles, Chico foi visto mais de uma vez tirando um belo cochilo na sala do júri. Mas Martinho não tinha tanto do que reclamar: o mangueirense havia tascado uma nota 9 para a Vila. O pesquisador Ricardo Cravo Albin, outro jurado daquele ano, lembra de um apelo que o companheiro de júri lhe fez. Maravilhado com o desempenho da Mangueira, Chico pediu: “Ricardo, não me deixe ser injusto com as outras”.

Mesmo proibido, Jesus Cristo sambou
O arcebispo do Rio de Janeiro não gostou nada quando soube da ideia da Beija-Flor para o carnaval de 1989. Proibiu na Justiça o carro abre-alas que traria um enorme Cristo Redentor vestido como mendigo. A montagem fazia parte do enredo Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia, sobre a pobreza. Às vésperas do desfile, o carnavalesco Joãosinho Trinta ainda não sabia o que fazer para substituir a imagem. Mas, na hora de entrar na avenida, não titubeou. Simplesmente cobriu o Cristo com plástico preto grosseiro e uma enorme faixa: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Foi uma das cenas mais marcantes do carnaval carioca. Em 2012, no primeiro carnaval depois da morte de Joãosinho, a escola repete o feito e desfila novamente com o Cristo mendigo coberto.

“Isso não é carnaval, é parada militar”
, disparou Cartola, em 1979, quando convencionou-se que cada escola deveria desfilar em 80 minutos. Sob forma de protesto, o fundador da Mangueira recusou-se a entrar na avenida.

Imagine Raul Seixas ensaiando passinhos enquanto canta marchinhas de carnaval. Pois o Maluco Beleza fez o número ao lado de sua cantora preferida, Wanderléa, a musa da Jovem Guarda. O clipe de 1978 fazia parte de um especial da rede Globo com as melhores marchas eleitas por críticos.

Ismael Silva também ficou de fora de um desfile, em 1969, depois que a entrada na festa começou a ser cobrada. O criador da Deixa Falar, primeira escola de samba de que se tem notícia, não tinha dinheiro para assistir ao espetáculo que ajudou a colocar na avenida.

Se Rita Lee não pulava carnaval quando era garota, não era por adotar espírito roqueiro. O pai, bastante autoritário, não permitia que as filhas saíssem para os bailes paulistanos. Restava à futura cantora brincar de se fantasiar com as irmãs em casa, durante o feriado.

Noiva de Ari Barroso não podia celebrar com Momo
Ari Barroso se arrepiava só de pensar na aproximação de fevereiro de 1927. Trabalhando no interior de São Paulo, o compositor carioca teria que passar o carnaval longe da noiva. O que fazer? O então pianista de 24 anos tratou de escrever à amada uma proibição expressa: ela não podia cair na folia. Ari até tentava ponderar: “Ficas zangada comigo? Nem deves ficar, porque, meditando bem, hás de concordar. Não parece bem a uma noiva entregar-se aos prazeres de Momo, longe do noivo, em terra estranha”. Mas terminava batendo o pé: “Não se fala mais nisso, pois a minha opinião é só essa”. Por ironia da história, os pombinhos só trocariam alianças definitivas três anos depois, graças ao dinheiro de um prêmio de músicas carnavalescas vencido por Ari.

Morte do Barão do Rio Branco multiplicou o carnaval
“Só duas coisas são bem organizadas no Brasil: a desordem e o carnaval”, disse uma vez o Barão do Rio Branco. Nem imaginava que, com sua morte, em fevereiro de 1912, o governo brasileiro decretaria luto, adiando o carnaval para dois meses depois. Alheio aos decretos oficiais, o povo aquele ano multiplicou a folia: comemorou o carnaval em fevereiro e abril.

Carnaval abriu espaço para o coco de Jackson do Pandeiro
Zé Jack estava contrariado. Participaria do show de carnaval da pernambucana Rádio do Comércio, já como Jackson do Pandeiro, mas a música que escolheu tinha sido vetada. O produtor não queria que ele cantasse a marchinha carioca que ensaiou: “Esqueça isso. Mostre um desses cocos que você vive cantando”. Jackson improvisou Sebastiana, de Rossil Cavalcanti. Depois daquele “A, e, i, o, u, ypsilone”, Jackson não parou de emplacar sucessos em todo o País.

Calhambeque de Dodô e Osmar eletrizou Salvador
Uma semana antes do carnaval de 1950, uma banda de frevo pernambucana tocou pelas ruas de Salvador. A cena encantou especialmente os amigos Adolfo e Osmar. Animados com a ideia de sacudir as ruas com música, o mecânico e o técnico de som equiparam um calhambeque com dois alto-falantes. Guitarras plugadas em punhos, intitularam-se “duo elétrico”. Naquele domingo de carnaval, o carro juntou centenas de foliões pelas ruas. Quando a multidão chegou perto dos tradicionais blocos da elite da cidade, Dodô ordenou ao motorista: “Vamos parar antes que a gente seja preso”. Tarde demais. A engenhoca já havia quebrado há tempos e era levada pela multidão. Logo Dodô e Osmar trocaram o Ford por uma caminhonete e conseguiram mais um integrante. Nascia assim o trio elétrico.

Quando tornou-se sucesso nos EUA,
Carmen Miranda teve que se afastar da folia que tanto consagrou seu Abre Alas. A um amigo que a convidou para passar o carnaval no Brasil, lamentou-se: “Por agora, em vez de ‘Vesti uma camisa listrada e saí por aí’, infelizmente tem que ser ‘Assinei um contrato danado e fiquei por aqui’”.

 

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