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A odisseia da palavra E-mail
Escrito por redação   

Dois mil anos. E se ele­ge o li­vro a mai­or in­ven­ção da era.

Nem a va­ci­na, nem o com­pu­ta­dor, nem o re­ló­gio, sequer a nave espacial. Mas um pa­co­te de fo­lhas or­de­na­das, co­ber­tas de signos. Eis onde culmina a saga da es­cri­ta, esta sim a mais im­por­tan­te das in­ven­ções, de tal magnitude, que situa a própria saga hu­ma­na: antes da es­cri­ta, pré-história; História, só de­pois da escrita.

Há 42 sé­cu­los trans­mi­tin­do emoção, di­ver­são e co­nhe­ci­men­to, guardadinhos em le­tras ou sinais pic­tó­ri­cos. Do pa­pi­ro ris­ca­do com talo de junco mo­lha­do em tinta de fu­li­gem, ao computador - tão novo que ainda in­ti­mi­da mi­lhões de pessoas com seus "olhos de vidro" e sua ve­lo­ci­da­de ele­trô­ni­ca, mas que não dis­pen­sa nem jamais dis­pen­sa­rá a escrita.

Quanta mu­dan­ça, e nada mu­dou, exceto que on­tem nada foi melhor que hoje. No al­vo­re­cer do ter­cei­ro mi­lê­nio des­ta nos­sa era, o Almanaque ce­le­bra a pa­la­vra im­pres­sa, sem a qual es­ta­rí­a­mos aqui fa­lan­do e você não estaria cap­tan­do nada. Ce­le­bre­mos a edu­ca­ção e a di­fu­são cada vez maior do co­nhe­ci­men­to. Ce­le­bre­mos as letras.

Alfabeto, palavra formada pe­los nomes dos dois pri­mei­ros sinais da coleção de le­tras gregas, alfa e beta. Letras de­ri­vam das primitivas escritas, de com­pre­en­são restrita a poucos. A sim­pli­fi­ca­ção que elas trouxeram mul­ti­pli­cou por mi­lhões a possibilidade de acesso à in­for­ma­ção. Recentes des­co­ber­tas su­ge­rem que o alfabeto pode ter nascido no Egito há 4.200 anos.

Biblioteca, coleção de livros. Ale­xan­dria, cidade do atual Egito, ficou célebre pela sua: ne­nhu­ma outra da Antiguidade a superou em riqueza. Incendiada por soldados de Júlio César (101-44 a. C.). Guerra é guerra: estúpida.

Chineses e outros orientais de­sen­vol­ve­ram escrita por ide­o­gra­ma: desenho de uma coisa ou combinações de coisas que re­sul­tam em novos significados.

Digitar, neologismo in­for­má­ti­co, do la­tim digitus, dedo. Subs­ti­tui dac­ti­lo­gra­far, que se re­fe­re a máquina de es­cre­ver, sig­ni­fi­ca o mes­mo e de­ri­va do grego: es­cre­ver (grá­phe­in) utilizando o dedo (dáktylos). É o pro­gres­so.

Escrita busca representar a fala. Ao fa­lar­mos, usamos nu­me­ro­sos ní­veis de estruturas, com sen­ten­ças, pa­la­vras, sí­la­bas, en­to­na­ções, con­tex­to. A saga da es­cri­ta é, em par­te, a aven­tu­ra das des­co­ber­tas para re­pre­sen­tar com fi­de­li­da­de a fala, ca­pa­ci­da­de hu­ma­na pri­mor­di­al. Já a es­cri­ta é re­cen­tís­si­ma. Só para com­pa­rar, con­si­de­re­mos que a hu­ma­ni­da­de te­nha 2 mi­lhões de anos; e a es­cri­ta, 4.200 anos: se você re­su­mir tudo num dia só, equi­va­le­ria a ter­mos nas­ci­do há 24 ho­ras e ter­mos in­ven­ta­do a es­cri­ta 3 mi­nu­tos atrás. Mal co­me­ça­mos. Ain­da exis­tem mi­lhões de analfabetos. Edu­ca­ção ne­les!

Fidípides, mártir da notícia. Em 490 a. C., os gregos vencem os persas na aldeia de Ma­ra­to­na. Mil­cí­a­des en­car­re­ga-o de avi­sar a ca­pi­tal. Fi­dí­pi­des corre 42.195 m até Ate­nas. Che­ga, diz "ven­ce­mos" e cai mor­to. A pro­va mais di­fí­cil e emo­ci­o­nan­te dos jo­gos olím­pi­cos ho­me­na­geia Fi­dí­pi­des: o atle­ta deve cor­rer 42.195 m.

Gutenberg, saravá! O ourives ale­mão fun­de tipos móveis de chum­bo em 1436. Or­de­na-os for­man­do textos e leva-os à prensa de im­pri­mir. Po­dem ser usados in­de­fi­ni­damen­te. Livros e jor­nais se mul­ti­pli­cam. Co­me­ça o pe­rí­o­do da edu­ca­ção mo­der­na.

Hieroglifos, sinais da escrita egíp­cia. Ao invadir o Egito em 1798, Na­po­leão le­vou ar­que­ó­lo­gos. Em Ras­chid (Ro­se­ta), en­con­tra­ram uma pedra com ins­cri­ção em três lín­guas: hi­e­ro­glí­fi­ca, demótica (egíp­cio po­pu­lar) e grega. Champollion (1790-1832) de­di­cou a vida a de­ci­frar aqui­lo. Era a des­cri­ção de as­sem­bleia de sa­cer­do­tes em 196: agra­de­ci­am benefícios do faraó Pto­lo­meu Epi­fâ­nio. O co­nhe­ci­men­to so­bre a Antiguidade deu salto mo­nu­men­tal.

Internet, neologismo inglês para rede (net) interligada (de com­pu­ta­do­res). Pode-se trocar in­for­ma­ção em tempo real. 

João Francisco de Azevedo, pa­dre pa­rai­ba­no, inventou uma má­qui­na de es­cre­ver em 1861, doze anos an­tes da fa­bri­ca­ção da pri­mei­ra Re­ming­ton.

Kama Sutra, manual escrito em sâns­cri­to, no final do século 4, pro­va­vel­men­te pelo fi­ló­so­fo Vatsyaya­na, trata de téc­ni­cas sexuais e ou­tras coi­si­nhas mais...

Latim, língua mãe dos ir­mãos por­tu­gu­ês, catalão, es­pa­nhol, fran­cês, ita­li­a­no, la­di­no (ju­deu ro­mâ­ni­co), pro­ven­çal, ro­me­no - to­dos pa­re­ci­dos. Tome o nu­me­ral 5, quin­que em latim: es­pa­nhol, cin­co; fran­cês, cinq; ita­li­a­no, cin­que; por­tu­gu­ês, cin­co; ro­me­no, cinci.

Machado de Assis. Leia, di­vul­gue. É o maior escritor bra­si­lei­ro até aqui.

Notícia urge. No século 5º a. C., gre­gos co­pi­a­ram método dos chi­ne­ses e egíp­ci­os para ace­le­rar a di­fu­são: pom­bo-cor­reio. O ve­loz ani­mal­zi­nho sem­pre volta ao lar, não im­por­ta para onde o le­vem. Os gre­gos o usavam para anun­ci­ar pela Gré­cia, em poucas ho­ras, os ven­ce­do­res dos jogos olím­pi­cos.

Oratória, dom de quem fala cla­ro, con­vin­cen­te. Pro­pa­ga-se para a pos­te­ri­da­de gra­ças à es­cri­ta. Vi­ei­ra e Ruy, dois gran­des ora­do­res bra­si­lei­ros, dei­xa­ram im­pres­sos dis­cur­sos, ser­mões e con­fe­rên­ci­as. Co­nhe­ça.

Papiro, planta da foz do Nilo, deu o pri­mei­ro papel 5 mil anos atrás. Chi­ne­ses aper­fei­ço­a­ram o pro­ces­so, tran­çan­do fibras de linho. Nossa pri­mei­ra fá­bri­ca de papel se ins­ta­lou em Con­cei­ção, Bahia, em 1843.

Quirinal, Roma: nesse lu­gar se en­con­trou vaso com inscrição la­ti­na do século 6º a.C. O al­fa­be­to la­ti­no, dos mais usados no mun­do, de­sen­vol­ve-se a partir do etrus­co, com 23 letras, de dois tipos: maiúsculas e cur­si­vas (pe­que­nas, ma­nus­cri­tas).

Romanos davam va­lor à instrução. Man­ti­nham es­co­las e pro­fes­so­res par­ti­cu­la­res. Sa­bi­am da im­por­tân­cia da lin­gua­gem para a do­mi­na­ção de ou­tros po­vos. Di­zi­am: Ubicumque lingua ro­ma­na, ibi Roma, ou seja, Onde quer que (es­te­ja) a lín­gua ro­ma­na, aí (es­ta­rá) Roma.

Sumérios criaram o mais remoto sis­te­ma de es­cri­ta, a cu­nei­for­me, gra­va­da com estilete em placas de ar­gi­la. Sinais re­pre­sen­ta­vam uma ideia ou som. Dominaram a Me­so­po­tâ­mia até 2000 a.C. e nos dei­xa­ram obras como a Epo­peia de Gil­ga­mesh, so­bre as façanhas desse he­rói.

Tipografia: a primeira se ins­ta­lou no Brasil por or­dem de D. João VI em 1808, 372 anos de­pois dos tipos mó­veis de Gu­ten­berg.

Universidade nasce pelo fim da Ida­de Média, evolução das es­co­las que existiam ape­nas em mos­tei­ros e pre­pa­ra­vam as pes­so­as para o sa­cer­dó­cio. A pri­mei­ra foi fun­da­da em 1119, em Bo­lo­nha, Itá­lia.

Vogais não existiam an­ti­ga­men­te, só consoantes. Um gê­nio criou signos para elas. Note o cri­té­rio para a or­dem a-e-i-o-u: no a, boca aber­ta, que vai fe­chan­do até o u.

W, dáblio, duplo v, des­cen­den­te do waw fenício. Ti­ra­ram do nos­so al­fa­be­to. Subs­ti­tu­í­do por u ou v, con­for­me o caso. Que tal Uó­xin­ton? Es­pe­ci­a­lis­tas de­fen­dem seu uso em pa­la­vras de ori­gem es­tran­gei­ra ou tupi-gua­ra­ni.

Xanto era dono do escravo grego Eso­po, au­tor das fá­bu­las que há 2.600 anos ins­tru­em e di­ver­tem. Eso­po deu voz aos bichos para cri­ti­car os hu­ma­nos, como em A Ra­po­sa e as Uvas. Certo dia, Xan­to quis al­mo­çar o que hou­ves­se de melhor no mer­ca­do. Eso­po trou­xe lín­gua, ex­pli­can­do: trans­mi­te ci­ên­cia, ver­da­des. Xan­to pe­diu no dia seguinte que co­zi­nhas­se o pior. Eso­po trou­xe lín­gua: trans­mi­te in­sul­tos, er­ros, pro­vo­ca dis­cór­dia, guer­ras.

Y, a letra, existe desde os fe­ní­ci­os. Em tupi-gua­ra­ni y sig­ni­fi­ca água. Pro­nun­cia-se entre i e u, como o u fran­cês. Para sim­pli­fi­car, a or­to­gra­fia oficial subs­ti­tuiu o y pelo i, mas es­tu­di­o­sos a man­têm para pa­la­vras do tupi ou apro­pri­a­ções es­tran­gei­ras.

Zerar, recomeçar. Hoje você tem mei­os para guardar mi­lha­res de in­for­ma­ções, mas o mais pe­re­ne é a es­cri­ta. Sem ela, a hu­ma­ni­da­de não teria de­sen­vol­vi­do essas mo­der­nas má­qui­nas que ar­ma­ze­nam e trans­mi­tem o co­nhe­ci­men­to hu­ma­no. Foi a es­cri­ta que nos per­mi­tiu che­gar aon­de es­ta­mos.
 

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