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Escrito por Juliana Winkel   

Dia do Brinquedo, 24 de maio. Saudemos, respeitemos. Brincando, a criança aprende a ser quem é. E fazendo seu próprio brinquedo desafia suas capacidades. Criança que não brinca não aprende.

Mané-gostoso, símbolo da empresa que publica este Almanaque. Rabo-de-gato, jabolô, escada-de-jacó. Jogo-da-velha, corrupio, amarelinha. Tais termos, conhecidos das crianças de ontem, aos poucos se transformam, de mistérios, em surpresas para as crianças de hoje. Em forma de arte, ganham vida materiais simples: caixas, pedaços de madeira, garrafas e outras embalagens de plástico, papéis. Folhas de palmeira, sementes, pedrinhas. E o que mais surgir. Juntam-se a outros brinquedos invisíveis, às histórias, às músicas que fazem a cultura de um país. Tesouro que os adultos, por vezes, se esquecem de passar adiante. "Muitos pais acham que as crianças não vão se interessar pelas brincadeiras que eles sabem", diz a educadora Renata Meirelles.

Renata percorreu a Amazônia durante oito meses, aprendeu brinquedos com as crianças de vilas e aldeias, descobriu que o brincar fala linguagem universal. "Existe uma porção profunda de nossa personalidade pela qual todos os homens se comunicam", explica. "Essa memória comum vem à tona de diferentes formas, ajudando a criar e preservar as diferentes culturas." Nas pesquisas e nas viagens, Renata já catalogou 130 tipos de amarelinha, "inventados" por crianças de todos os continentes.


Uma linguagem expressiva
A teoria de Renata Meirelles ecoa nas palavras de Adriana Friedman, mestra em Metodologia do Ensino, fundadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid), e autora de livros relacionados ao tema.

"Brincar é uma das linguagens mais expressivas do ser humano. A criança expressa seu ser mais profundo, comunica como compreende o mundo, como ela está e o que está vivendo", diz. "É brincando que o ser humano aprende dos seus iguais e a respeitar os seus diferentes. É através do brincar que a criança tem a possibilidade de se inserir em um grupo. Ela sempre irá encontrar o seu lugar."

Tudo que embola desembola
Tudo que enrola desenrola


Cantando esses versos, o mineiro Chico dos Bonecos vai dando vida aos mais diversos materiais. Artista do teatro de bonecos, trabalha com a alegria das crianças e conquista a simpatia dos educadores. "Os brinquedos chamados ‘antigos' parecem simples, mas são verdadeiros desafios à criatividade, à imaginação, ao aprendizado", diz Chico. "As crianças têm direito a esses jogos, que fazem parte de sua cultura e de sua história."


"Legal" brincando, "chato" na classe
Os arte-educadores Chico, Renata e Adriana são unânimes: recuperar os brinquedos "de antigamente" faz parte de uma nova forma de encarar a educação. Em vez de perguntar "o que tenho para ensinar?", o educador se pergunta: "Como as crianças aprendem?" "Criar brinquedos e jogos é uma maneira de transmitir conhecimentos na linguagem que as crianças entendem", diz Chico.

E qual seria o futuro do brinquedo, em meio a telas de computador e evoluções tecnológicas? O futuro está em devolver a criança à natureza. À natureza do ser humano, como diz Adelsin, artista mineiro que desenvolve projetos com educadores em várias partes do Brasil. Em cidades carentes de quintais e espaços abertos, que foram os palcos de suas brincadeiras de infância, ele considera a escola como o principal espaço para que as crianças vivam sua infância.

O ex-professor do ensino fundamental que, durante o intervalo das aulas, preferia brincar com as crianças a ficar na sala dos professores, certo dia ouviu de uma aluna: "Você é legal brincando com a gente no recreio, mas é chato dentro da classe." E percebeu que a escola convencional não fornecia a melhor forma de aprendizado. "As crianças precisam de movimento, de espaços acolhedores e não repressores", diz. Para humanizar esses espaços, Adelsin aposta, mais uma vez, nas brincadeiras inventadas pelas próprias crianças - e por adultos também. "Brincar é um movimento natural do ser humano. Com os adultos, a gente o resgata. Com as crianças, a gente vive."


Curiosidades
– Há mais de 6 mil anos, crianças japonesas e chinesas faziam bolas de fibra de bambu ou crina de cavalo. Garotos romanos e gregos preferiam bolas de tiras de couro e penas de aves. Também usavam bexiga de boi para a brincadeira.

– A primeira bola branca foi feita por um brasileiro, Joaquim Simão, em 1935. Pretendia melhorar a visão da bola em jogos noturnos.

– Os primeiros piões conhecidos datam de 3 mil anos a.C., na Babilônia. Eram feitos de argila, traziam as bordas decoradas com relevos, formas humanas ou de bichos.

– Reis da Idade Média usavam soldados em miniatura para planejar batalhas. A partir do século 19, passou-se a vender os bonecos como brinquedos de luxo, encontrados somente nas casas das crianças nobres.

– A história aponta como criador do futebol de botão, em 1947, o inglês Peter Adolph. Mas, 17 anos antes, há registros de que um garoto carioca, Geraldo Décourt, já divertia a vizinhança com tal jogo. Seu colégio proibiu o brinquedo porque se tornou comum alunos assistirem às aulas segurando as calças com as mãos: tiravam os botões para formar os times.


Pião
Pião, na Amazônia, é brinquedo atual. Quem não tem faz o seu. Os mestres da confecção de piões são geralmente meninos entre 11 e 15 anos. Só precisam de um bom facão, um prego e uma língua de pirarucu, o maior peixe da Amazônia – pode chegar a 2 metros de comprimento. A língua tem consistência dura e áspera, ideal para lixar madeira.

Em 20 minutos, esses meninos conseguem encontrar a madeira ideal, cortá-la, lixá-la e, por fim, colocar um prego na extremidade inferior. Em segundos, o pião está rodando.


Para brincar mais
Projeto Bira (Brincadeiras Infantis da Região Amazônica) – www.projetobira.com
Aliança pela Infância no Brasil – www.aliancapelainfancia.org.br
A Arte de Brincar, de Adriana Friedman.
 

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