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Que tem a ver glostora com estampilhas? E-mail
Escrito por Lourenço Diaféria   

3 de junho - dia do escrevente de cartório

Quase cheguei a ser escrevente de cartório. Quase é modo de dizer. Circunstâncias variadas desviaram meu rumo, não sei se para melhor ou pior. Revelo apenas aqui que cartório foi meu primeiro emprego, eu totalmente inexperiente; não sabia sequer atender telefone. O titular e dono do 9º Tabelionato de Notas foi, como se dizia, condescendente. Tinha tipo físico durão, espadaúdo, não ria em público. Lembrava uma fortaleza inexpugnável; e era como antigo beque de espera do glorioso time do Paulistano.

O Doutor Rubião provinha de família quatrocentona, com raízes profundas na tradição histórica. Seus filhos eram também belas figuras. O Guilherme, traços finos, procurava enquadrar eventuais atitudes mais delicadas com um bigodinho bem cuidado. Já o outro, o Afonso Álvares, fazia o gênero atlético. Foi campeão brasileiro de natação, com méritos, competência e reconhecimento geral.

No cartório do Doutor Rubião trabalhavam raríssimas mulheres. A Carolina e a Rosinha eram as principais. O resto era homem feito ou moleque em regime de aprendizagem. Havia o Francisco, antigo galã de circo, que galgou cargos e por fim casou com a Carolina. Havia o Almeida, talvez o mais idoso, boa alma, mas que nem por isso deixou de me cobrar, em prestações, uma nota de 500 cruzeiros (seria isso?) que perdi ao fazer um pagamento. O Almeida deve ter pensado que embolsei o tutu. Havia o Derrico, antigo despachante. Havia outro – me foge o nome –, famoso como jogador de hóquei sobre patins, esporte dos mais violentos do mundo. Havia o Murdoco, cuja letra, garranchos, somente ele entendia. O Guarita, talvez na época o mais jovem dos escreventes, um dia me chamou para explicar que Marx, o filósofo comunista, não podia ser citado em vão por um moleque como eu era. É, de fato. A vida é um carrossel.

No cartório, o Alceu, sujeito bonachão, era o escrevente do qual mais tiravam pelo. Os livros de escrituras eram enormes, pesados, grossos. Na hora do almoço, o Alceu fechou sobre a mesa um deles e foi tomar um lanche no bar lá da esquina. Continuaria a lavrar a escritura na volta. Não sei qual foi o espírito de porco que colocou uma lagartixa de plástico, preta, no livro. Quando o Alceu voltou, deu com a lagartixa entre as folhas, pulou para trás, quase vomitou de susto o misto-quente com tomate. Todos rimos à beça.

Rir fazia parte da vida cartorária. Naquela época usavam-se estampilhas, pequenos selos, para recolher impostos. Uma das minhas promoções consistia em selar contratos particulares, em especial de portugueses que chamavam parentes do exterior para ajudá-los em negócios no Brasil. Eram as famosas cartas-de-chamada, que depois se tornariam também empresárias no chamado "País do futuro". Cheguei a usar estampilhas que nem sempre repunha na gaveta. Acho que foi esse um dos meus piores pecados veniais. O outro pecado, talvez mortal, tenha sido observar com curiosidade mais que juvenil as pernas morenas da Carolina, ainda solteira, enquanto ela lavrava, em livro próprio, procurações públicas.

Revelo estas indiscrições menos pudicas para homenagear os escreventes em geral. Posso fazê-lo, porque, como avisei lá no começo, mudei de rumo, de direção e de roteiro ao longo da vida. Me transformei em contador de realidades banais. Naquela época, além das estampilhas na papelada, usava-se também fixador Glostora para pentear os cabelos. Todavia, uma coisa não tem nada a ver com outra.
 

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