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Quantos Natais cabem no Brasil? E-mail
Escrito por Lucas Carrasco   

Natal é por todo o País. E, como o Brasil não é um só, são inúmeros os folguedos populares espalhados por aqui. A mistura de costumes fez surgir uma nova tradição, seja na cozinha típica, na decoração do presépio ou na música local. Há quem repouse o Deus Menino na manjedoura; outros o colocam na beira do rio. São reis persas que vêm visitá-lo, ou violeiros e benzedeiros? Peru de Natal ou pato no tucupi? Vai depender de onde você festejar.

Época de Natal, tempo de aguardar o Papai Noel e montar um pinheiro com sininhos entoando o Jingle Bells, certo? Em muitas casas, sim. Mas, em vários lugares do País, o 25 de dezembro é comemorado de um jeito bastante autêntico. Ou melhor, de vários jeitos bastante autênticos, conforme o clima, o sotaque e as influências da região.

Nosso ciclo natalino se destaca pela tradição do Pastoril e do Reisado. Em Pernambuco, corta-se cana o ano inteiro para, chegando o Natal, levar o Cavalo-Marinho às ruas. E a região Sul brinda conforme os costumes do Sudeste na Folia de Reis.

Em cada canto onde desembarcou uma tradição, vinda de onde viesse, o que era costume se transformou. E a tradição nunca mais foi a mesma. Coisas dos encontros do Brasil. O antropólogo Hermano Vianna explica: "A sobrevivência do folclore está ligada à sua capacidade de absorver novas influências." E nisso somos bons.

Se os Reis Magos levaram em camelos incenso e mirra para Belém, quando chegaram ao buritizal da Vereda-da-Vaca-Mansa, misturados com superstições que assombravam o Velho Chico, então resolveram deixar os camelos para trás e seguir viagem rodeados de brincantes, dançadeiras e cabocolinhos ponteando viola, sanfona e rabeca. Juntaram-se a um cordão encarnado de pastorinhas e celebraram a chegada do menino Jesus até 6 de janeiro, Dia de Reis.

Para não ficar de fora dessa folia tão sagrada e profana, cheia de História e simbolismo, saímos à rua para comemorar e encarnar o espírito natalino pelos quatro cantos do Brasil. Afinal, por aqui, o Natal não é um só.


Pastoril
Após dias e dias de dedicação e lavor esmerado, os santeiros finalizam os presépios. As figuras, moldadas em barro cru ou esculpidas a canivete, aguardam a passagem das pastorinhas. E lá vêm cantando loas ao Deus Menino, todas bem ensaiadas e vestidas com saiote, lenço, chapéu e muita fita. Fazem de conta que são pastoras ofertando flores a Jesus: Bailem bailem, pastorinhas / No meio desse torrão sagrado / Vamos ver o Deus Menino / Entre palhinhas deitado.

O baile pastoril não possui enredo, não conta uma história. Sua função é render homenagens qual camponesas e, principalmente, esmolar para o Natal dos pobres. O folclorista Alceu Maynard Araújo, em Folclore Nacional, explica melhor: "As pastorinhas representam autos. É o festivo teatro popular, alegre, jocoso às vezes, mas com ensinamentos morais e religiosos. As músicas cheias de ternura enchem de encantamento as noites em que visitam os presepes."

Mário de Andrade, passando pelo Rio Grande do Norte em 1928, registrou em Turista Aprendiz: "As meninas bailam no Pastoril. São umas deliciosas de cunhatãs, desacompanhadas de piano e violino, com tanta graça, tanta desenvoltura no gesto, que o futuro da pátria aqui está."


Alegoria pantaneira
Nos oratórios o comum é ter Maria, José, a vaca e o jumento ao pé do bercinho, mas no Pantanal a história muda de figura. Pantaneiros preferem onça, arara e tuiuiú resguardando Jesus. Em 2003, a Cia. Teatro em Cena levou ao palco do Museu do Rio o auto Alegoria Natalina. Virgem Maria é a lavadeira Maria Taquara, conhecida em Cuiabá por ser a primeira mulher a usar calças ­ pelo gesto, ganhou até estátua na praça. Jesus nasce à beira-rio, os reis magos são benzedores de bicheira braba e José, fazedor de viola de cocho.


Cavalo-marinho
Esse cavalo-marinho não vive no mar, e sim na Zona da Mata pernambucana. Na verdade, é o capitão Marinho que, montado em seu cavalo e de chapéu enfeitado com fitas e espelhinhos, arrenda sua fazenda para os vaqueiros Bastião e Mateus. Ao longo do auto, vão surgindo novos personagens: Catirina, Mestre Ambrósio, Saberença, Empata-Samba, Roda Grande, Cão, Velha do Bambu, entre muitos.

Mestre João, 82 anos, há 60 no Cavalo-Marinho, explica a complexidade da brincadeira: “Com dois caboclos-de-lança você apresenta um Maracatu. Mas dois Mateus não apresentam um Cavalo-Marinho”. São mais de 70 personagens divididos em cerca de 60 partes que compõem essa festa natalina com sotaque pernambucano.

O folguedo desgarrou-se do Bumba-meu-Boi e firmou pé com seu jeito próprio de entoar loas e toadas ao som de rabeca, pandeiro, baje (uma espécie de reco-reco) e mineiro (ou ganzá). Madrugada adentro, os personagens entram e saem da “dança dos arcos”, com diálogos, danças e brincadeiras, levantando assim a poeira da tradição. Um dos expoentes do Cavalo-Marinho é Mestre Salustiano. “É o maior divertimento na zona rural. Muitas vezes, as pessoas trabalham duro durante o ano inteiro para, na época de Natal, se divertirem com as toadas do Cavalo-Marinho.” Deu Natal, Salu chama mestres como seu Gasosa e Grimário para festejarem junto com ele em Olinda, num arrasta-pé que vara o dia reunindo grupos de diversos lugares do Estado.


Nada de peru
Não há melhor pedida que a culinária para mostrar como o povo mistura tradição e invenção em uma mesma panela. Na Comunidade do Carvão, no Amapá, para o Natal ficar no ponto, a família de Dona Deuza começa a espremer mandioca numa bolsa indígena de palha, o tipiti, para fazer o caldo que acompanha a ceia natalina: o pato no tucupi. É uma receita que, chega dezembro, já começa a cheirar na cozinha.


Folia-de-reis
"E tendo nascido Jesus em Belém, no tempo do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente. E eis que lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra" (Mateus, 2: 1-18).

Apronte o café, o Alferes pede sua licença para entrar. Acordai se estás dormindo / Escutai alegremente / É chegado os santos Reis / Da parte do Oriente.

Quem vem lá é a Folia de Reis, tradição festejada do Natal ao 6 de janeiro. Cada Folia tem seu jeito de sair às ruas. Há cidade que prefere nem dizer “folia” - sua devoção aos santos Reis não é baderna. Os palhaços (mocorongos) podem ser simples brincantes cobertos com máscara, Satanás ou espias de Herodes.

Nas ruas, o rei conduz o reisado: mestre e contramestre atrás. Riscando viola, sanfona, rabeca e pandeiro, os dançadores de entremeios vestem roupas coloridas e brilhantes, reluzindo espelhinhos, fitas e lantejoulas rumo às casas hospitaleiras de muitas cidades brasileiras.

Na função dos apitos, o mestre canta a abrição da porta. Com a licença de entrar, rasgam elogios ao anfitrião. Em louvação, dirigem-se ao presépio da casa para ajoelhar. De volta à sala, o rei ocupa seu trono e se encenam as embaixadas. Entre uma e outra peça, o rei levanta e cruza sua espada com o mestre.

Nas palavras do poeta Solano Trindade: "O mais importante da folia é a bandeira. Vai ela em lugar de honra. É a primeira a entrar em qualquer casa. Junto ao presepe, é a bandeira que se homenageia, com dinheiro ou presentes. Esse costume das zonas rurais a 2 mil anos de distância vem à rua lembrar a todos que nasceu o Salvador do Mundo, com sua promessa de paz aos homens de boa vontade."


Papai Noel ou Vovô Índio?
No Brasil dos anos 1930, os integralistas (políticos e intelectuais nacionalistas) criaram o Vovô Índio. Pesquisadores tentam descobrir se foi Monteiro Lobato ou Plínio Salgado quem inventou a figura do índio que, no Natal e no Dia de Reis, dava presentes de madeira às crianças. Deu até capa da revista Anauê. Infelizmente, muitos documentos do Integralismo foram queimados, o que só aumenta o mistério.


SAIBA MAIS
Foclore Nacional, de Alceu Maynard Araújo (Martins Fontes, 2004).
Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo (Global, 2000).
www.jangadabrasil.com.br
Missão de Pesquisas Folclóricas (Sesc SP, 2006).
 

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