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Pão dos pobres, Rainha do Brasil E-mail
Escrito por Mylton Severiano   

Basta um talo enterrado para ela se multiplicar. Resistente a pragas, dispensa agrotóxico. Alimenta gente e criação. Dela se extrai de álcool a plástico. Uma planta rainha, classificou-a Câmara Cascudo. Pão dos pobres, diz o povo.

Meu nordestino pai, Bernardo Severiano da Silva, alagoano de Viçosa, fugiu da miséria em 1935. Ouviu falar de um Eldorado: a paulista Marília. Riqueza do café. Estabeleceu-se sapateiro, casou. Cinco filhos. Prosperou com a Cidade Moça, que logo teria até serviço pioneiro, Táxi Aéreo Marília, nossa futura TAM.

Comprou data de mil metros, na Santo Antônio, 254. Ergueu casa, galpão para 40 funcionários e plantou mandiocal na outra metade. Quando trustes americanos asfixiaram indústrias nossas e a Fábrica de Calçados Silva passou meses em crise até ser vendida, comida não faltou. A mãe servia mandioca cozida, purê, amassada com manteiga, ensopada, frita; tapioca, beiju, bolo. E a farinha.

Vinte gerações antes, quando portugueses aqui pisaram, logo lhes serviu de sustento a mandioca, cultivada por antepassados imemoriais de Bernardo. Alimento responsável pela fixação do homem branco no Novo Mundo, a democrática nutria gentios e missionários, escravos e senhores. A farinha comiam com tudo, de carnes a frutas.

Rainha do Brasil, chama-a Câmara Cascudo, move tropeiros e bandeirantes. Espalha-se para a África como moeda de troca por escravos, chega à Ásia. Relata Cascudo: o pensador francês Montaigne provou dela. O autor de Ensaios (1572) achou-a “doce e um pouco insípida”. Devia ser um beiju “exilado e nostálgico”, conclui o autor de História da Alimentação no Brasil.

O primeiro a estudá-la foi o austríaco Johann Baptist Emanuel Pohl, aqui vindo em missão (1817-1822) depois que o futuro imperador Pedro 1º casou com a princesa Leopoldina de Áustria. Sobre o reconhecimento da importância do tubérculo radicular para a nascente nação, de sua versatilidade como alimento, diz bem o nome científico que Pohl lhe deu: Manihot utilissima.

Há os que a dizem pouco rica em vitaminas ou proteínas. Cascudo desdenha desses. Chama-a de “basalto fundamental na alimentação brasileira” e cita Von Martius, colega de missão de Pohl. O autor de Flora Brasiliensis escreveu que, com um saquinho de farinha, o brasileiro vive oito dias e, nas matas e pântanos, "cansaria o mais forte soldado nórdico e em guerrilha o venceria".

Tal como seus antepassados, Bernardo comia tudo com farinha - até melancia. Fazia jus à anedota do nordestino a quem outro pergunta:

- Tu gosta de mulé.

- Mulé? É, gosto - diz ele por dizer.

- E de farinha?

- Viiiiixe!!!


Sabe com quem está falando? Eu planto mandioca!
Na primeira Assembleia Constituinte (1823), eleitores do primeiro grau (paróquia), que elegeriam eleitores do segundo grau (província), tinham de provar renda mínima de 150 alqueires de mandioca. Os de segundo grau, que elegeriam deputados e senadores, 250 alqueires. E os candidatos, 500 alqueires (deputado) e 1.000 (senador).

A questão da escravatura e dos latifúndios permaneceu intocada. Seria mexer em vespeiro.


Ela é demais
Mandioca dá farinha, farofa, pirão, beiju, tapioca, tacacá, tucupi, maniçoba, bolos, doces, polvilho doce, polvilho azedo (para pão-de-queijo, secular delícia mineira). Ração animal vitaminada, que inclui a folhagem.

E já pensou em plástico-filme biodegradável, comestível e antibacteriano? Pesquisadores da Politécnica paulista desenvolvem a boa nova, engendrada pela engenheira de alimentos Priscila Veiga dos Santos, de Campinas. Plástico leva 100 anos para se decompor. Mas este, a partir do amido da mandioca, pode-se até comer. Detecta alterações no alimento embalado, mudando de cor - basta adicionar ingredientes como uva e repolho roxo, ricos em pigmentos sensíveis à acidez. E diminui a quantidade de lixo no planeta.

Mais: a asiática China e a africana Nigéria preparam-se para produzir álcool de mandioca, que também já experimentamos. E, mais uma vez, o planeta agradece. Que mais se pode querer da Rainha do Brasil?


Lenda da menina deusa
Mara, filha de cacique, contempla a Lua imaginando-se esposa e mãe. Sonha que um jovem de cabelos de ouro lhe jura amor. O sonho se repete, e se repete. Certa manhã, em seu ventre algo se mexe.

Nasce bela menina toda branca, Mani. A tribo a adora como deusa vinda do céu. Um dia acorda sem vontade de nada. Vem o luar. Mani, deitadinha no chão da oca, cerra os olhos, sorri e morre, sem doença alguma. A mãe a enterra ali mesmo e todo dia chora sobre a cova.

Com uns meses, algo brota. Mara escava e descobre raízes que, descascadas, revelam-se brancas e perfumadas: a manioca, oca de Mani.


SAIBA MAIS
História da Alimentação no Brasil, de Câmara Cascudo (Global, 2004)
Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo (Global, 2001)
Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura Tropical Global: www.cnpmf.embrapa.br
Projeto Mandioca Brasileira: www.mandioca.agr.br
 

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