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Panelas de barro E-mail
Escrito por Heitor e Silvia Reali   

Arte que une água, terra, fogo e ar.

Tradição de gerações de ceramistas, apenas mulheres as fabricavam, na Quaresma. Hoje, também homens, e todos artesãos hábeis, fabricam o ano todo as famosas panelas do Espírito Santo.


A cerâmica utilitária, panelas, potes, moringas ou alguidares, em geral constituiu sempre trabalho feminino, por exigir delicadeza e por estar ligada à preparação de alimentos.

Nossas primeiras artistas, as índias, contam aos filhos histórias que ilustram quanto seu povo é integrado à natureza. Uma delas é que aprenderam a amassar e moldar argila com o joão-de-barro.

Em Mão e Obra - Artesanato no Espírito Santo, Renato Pacheco e Luiz Santos Neves mostram como panelas de barro são tradição de gerações de ceramistas capixabas. Mulheres as produziam apenas na Quaresma, época de maior consumo de peixes e frutos do mar.

Passaram a ser produzidas o ano todo.

Tornaram-se também hábeis artesãos os homens - que antes apenas retiravam a argila do Vale do Mulembá, na Ilha de Vitória. O ceramista Josivam, do bairro das Goiabeiras, produz e vende 700 peças por mês, entre oito tamanhos de panelas, caldeirões e travessas.

Instalados em galpões, os ceramistas trabalham em tornos manuais e espalham as peças no chão para secar. Como ferramenta de banca, usam uma pedra tirada do rio para alisar o barro. As peças, secas, vão para o forno a lenha, no fundo do galpão. Todo o processo é artesanal. Serve de pincel um raminho de ervas do campo que, molhado no tanino - retirado das árvores do mangue -, dá tonalidade escura à peça. Ofício arcaico e simples, que une água, terra, fogo e ar.

Para a cozinheira Mara Fernandez Soares, da praia de Ubu, em Anchieta, um segredo do especial sabor da moqueca capixaba é que a panela de barro permite ao caldo engrossar naturalmente. Enumera outras vantagens: a panela vai direto do fogo para a mesa, mantém a comida quente por mais de 30 minutos, não deixa resíduos de alumínio e é mais fácil de lavar.

Além de perfeita para deixar o caldo do feijão mais encorpado e a farofa bem soltinha, a panela de barro confirma as alquimias entre sua delicadeza e força para o alimento.
 

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