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Cobertor de mostardas E-mail
Escrito por Heitor e Silvia Reali   

Nossas cores aquecem gente de outras cores.

Numa cidade escondida nos confins do Brasil, gente simples segue antiga tradição tecendo panos de lã que fazem sucesso além-mar.

Mostardas, cidade congelada no tempo, fica entre os areais e os mais antigos faróis do Rio Grande do Sul, na estreita faixa entre o Atlântico e a Laguna dos Patos. No inverno é comum encontrar, nas praias desse finalzinho de Brasil, focas, leões-marinhos, pinguins e aves migratórias. A Laguna, maior da América Latina, era chamada de Mar de Dentro pelos imigrantes do arquipélago dos Açores, portugueses saídos do Alentejo e Algarves para viver à sombra dos vulcões daquelas ilhas. Gente simples, religiosa e trabalhadora, foi "arranchada", a partir de 1752, no povoado de Mostardas para criar gado e cavalos, plantar trigo, cevada, centeio e algodão. Suas mulheres eram habilidosas em tecer panos coloridos para saias e xales, ponchos e bombachas, típicas vestimentas masculinas.

Os açorianos conviviam pacificamente com índios e escravos. Devido ao isolamento da região, ainda hoje conservam vestígios da miscigenação, no falar; no costume do Responso, oração para achar coisas perdidas; na festa do Divino Espírito Santo, trazida pela princesa Isabel; e no estilo despojado do casario colonial de porta e janela.

Gente boa, do bom tempo. Tece o linho, de que faz enxovais de casamento, e a lã para os xergões grosseiros e o picotinho lustroso. Nesse tempo existia aí uma raça especial de ovelhas que produzia lã, tão aquecedora como nunca mais vi outra. Essas ovelhas morriam muito no verão, abafadas na pele. A gente que trabalhava com tal lã suava em barba e ficava com as mãos vermelhas, quentes, fumegando, como se estivesse lidando com água esperta, retrata Simões Lopes Neto em seu livro Casos do Romualdo

Originalmente, os tecidos e cobertas dessa lã tosca eram considerados de má qualidade. "Talvez porque o aspecto lanzudo e grosso da urdidura lembrasse o pixaim dos escravos, somente agasalhavam índios e negros", deduz a tecelã Orlanda Silva Duarte, que fusa, abre as fibras com um pente de madeira, enovela a lã e trabalha em tear manual que por si só já é obra de arte.

Hoje esse fazer ancestral é sinônimo de valorização de nossas artes e tradições, da competência na tecedura da lã e de entrelaçar fios, obtendo ricas texturas. As cores harmoniosas são quase sempre sóbrias e remetem aos pampas secos do inverno gaúcho, onde persistem a neblina e a geada que embranquecem a terra. O cobertorzinho de Mostardas faz sucesso pra lá do mar, representa nosso desenho tão puro quanto primitivo, vendido nas mais sofisticadas lojas dos Estados Unidos, Itália, França e Alemanha.
 

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