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Grão nosso de cada dia E-mail
Escrito por Mylton Severiano   

Junto com arroz e milho, forma a trinca de cereais mais cultivados no planeta. Seu gérmen, “alimento milagroso”, combate doenças e rejuvenesce. Matéria prima do pão, das pastas, da pizza. Sua história no Brasil é apimentada e cheia de altos e baixos.

Nenhum outro cereal é tão consumido e celebrado. E, quando se fala em “pão”, está claro de que farinha se faz esse pão – tão arraigado na história das civilizações que se tornou sinônimo de alimento, inclusive do espírito, e símbolo do eterno renascer.

O trigo se origina de gramíneas que cresciam entre os rios Tigre e Eufrates. Provavelmente passamos a cultivá-lo ali, na Mesopotâmia (hoje Iraque, onde arqueólogos encontraram grãos que alguém tostou há mais de 6 mil anos). O homem aprendeu a triturar os grãos entre pedras para obter a farinha. Acredita-se que os egípcios, 3 mil anos antes da Era Cristã, assaram o primeiro pão fermentado. E, tal como nossos ancestrais ameríndios cultuavam a mandioca e o milho, os povos daqueles tempos sacralizaram o trigo: egípcios atribuíram seu surgimento a Ísis, deusa da medicina; hindus, a Brama, criador do mundo; árabes, a São Miguel, protetor dos justos; e a liturgia cristã está repleta de referências – em Mateus, Jesus exorta a separar o joio do trigo, o mal do bem.

Hoje falamos que “casa que não tem pão, todos chiam e ninguém tem razão”. No Egito se dizia que “a multidão rebelada deve ser conduzida até o celeiro”. E foi a falta de pão o estopim da Revolução Francesa, com ajuda da rainha Maria Antonieta, que, informada da revolta do povo com o sumiço do pão, sapecou: “Pois que comam brioches.”

Da farinha de trigo também se fazem pizza, panqueca, pastel, torta, bolo, bolacha, biscoito e as universais massas. Essa farinha, diferente de outras, possui duas proteínas balanceadas que formam o glúten, responsável pela elasticidade da massa. Mas atenção para este fato: crianças polonesas e alemãs vão menos ao dentista que crianças de outros países desenvolvidos, porque sua gente jamais abandonou o hábito de consumir a farinha integral, com gérmen e tudo.

Nem só de pão vive o homem. De beleza seu espírito se alimenta. Rousseau nos convida a ver as plantas não apenas como “úteis”, olhar o lado “gracioso dos campos”. Contemple um campo de trigo. Com tal olhar, Saint-Exupéry comparou os cabelos do Pequeno Príncipe ao trigal. A Raposa, cativada pelo menino, lhe diz: “Vês lá longe os campos de trigo? Tu tens cabelos cor de ouro. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo.”


Inspira pintura, música, poesia
Em 1890, Van Gogh pinta Os Campos (pela tela, avaliada hoje em 80 milhões de reais, nenhum contemporâneo seu deu um tostão); duas semanas depois ele se mata – num trigal. Em Cio da Terra, Milton Nascimento e Chico Buarque cantam: Debulhar o trigo / Recolher cada bago do trigo / Forjar no trigo o milagre do pão. Cora Coralina, em Eu Voltarei, escreve: Morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.

Note a simbologia da ressurreição sempre presente.


Gérmen, seu coração
Rico em proteínas, construtoras dos nossos tecidos; lipídios, reserva de energia; fósforo, para o cérebro; cálcio, para os ossos; ferro, para o sangue. Combate anemia, erupção cutânea, câncer de pele. Rico em vitamina B1 (tiamina), que mantém o sistema nervoso em forma. É a maior fonte natural de vitamina E, que protege dos radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento precoce; combate a diabete, ao reduzir a taxa de açúcar no sangue. O gérmen, embrião do trigo, é sua parte mais nobre.


Quando vamos poder dizer que o trigo também é nosso?
Até o século 20, brasileiro não ligava para pão. Anota Câmara Cascudo que nem o povo da cidade achava falta do “pão nosso de cada dia”. Devemos a padaria da esquina à saudade que os imigrantes, cada vez mais numerosos, sentiam do seu pão fresco diário.

O trigo, que Martim Afonso de Sousa trouxe em 1534, só ganha importância no século 18, graças ao clima propício e aos europeus vindos para o Rio Grande do Sul. Mas, durante os dois séculos seguintes, pesquisas ficavam entregues a heróis anônimos, como o italiano Aristides Germani, que veio morar com um tio na serra gaúcha em 1875. Montou moinho, ensinou colonos a plantar, selecionar grãos, combater pragas. Ao tentar importar máquinas modernas, enfrentou até empecilhos oficiais e ameaças, problema que se tornaria comum (não interessa uma triticultura nacional a quem enrica importando farinha). Para um consumo de 10 milhões de toneladas anuais do grão, a média das últimas quatro safras, apesar dos avanços, foi de apenas 4 milhões. Isso no país com mais terras agriculturáveis do planeta!


SAIBA MAIS
História da Alimentação no Brasil
, de Luís da Câmara Cascudo (Global, 2004)
Os Alimentos Naturais Milagrosos
, de Robert Dudley (Global/Ground, 1983)
 

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