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Divino grão E-mail
Escrito por Mylton Severiano e Katia Reinisch   

Conhecida desde a pré-história, pode ter sido a primeira planta cultivada. Hoje, da mesa simples à requintada, é alimento básico de meia humanidade. Combina com carne, peixe, ave, legume, cogumelo e o que mais você quiser. Símbolo de abundância e fecundidade.


Dizem que, se você perguntar a um chinês o que é mais valioso, pérolas ou grãos de arroz, ele fica com o arroz. De fato, é à base de arroz que sua civilização se sustenta há milênios. E é sua literatura que o menciona pela primeira vez. Noutra antiquíssima civilização, a indiana, todas as escrituras sagradas o citam. Forma com trigo e milho a trinca de cereais mais cultivados do planeta. Crescia como planta semiaquática nos trópicos úmidos e quentes, depois adaptou-se a regiões áridas ou frias. Hoje viceja do sul do Canadá e da Rússia ao sul do Brasil; de depressões abaixo do nível do mar aos 2.500 metros de altitude. Encontra-se, enfim, em mais da metade das duas centenas de países do mundo, e nós estamos entre os dez maiores produtores.

O nome vem do árabe al ruz, que vem do malaio ari, “grão [do arroz] descascado”. Ainda hoje, lembra Câmara Cascudo, no sul de Portugal se fala arruz. Herança dos 800 anos – do século 8 ao 15 – em que os árabes dominaram boa parte da Península Ibérica, onde introduziram e cultivaram excelente arroz.

Segundo nosso primeiro cronista, Gabriel Soares de Sousa, em Notícias do Brasil (1587), “levaram a semente do arroz ao Brasil do Cabo Verde”. Mas aqui já havia um que Von Martius classificou, nos lagos amazônicos, o abati – “milho d’água” em tupi. E o sertanista Couto de Magalhães, em O Selvagem (1876), relembrando os pântanos mato-grossenses “que vão a perder de vista de arrozaes silvestres”, evoca: O índio guató, para colhel-o, não tem outro trabalho além do meter por elle a dentro a sua canôa, e de bater indolentemente com o longo remo sobre as espigas vergadas para dentro do barco, que dentro em pouco fica cheio com aquelle grão de que elle e nós nos servimos como do arroz asiático.

O poeta Santa Rita Durão, no seu Caramuru (1781), registrou: Ótimo arroz em cópia prodigiosa Sem cultura nos campos aparece. No Pará, Cuiabá, por modo feito, Que iguala na bondade o mais perfeito.

Aos que o acusam de pouco nutritivo, Cascudo responde com fato exemplar. No meio do século 20, havia o mito de que “os ingleses, alimentados à carne, dominavam a multidão da Índia, mantida pelo arroz subserviente”. Mas, sem dispensar seu arrozinho de cada dia, “começando pelo frugalíssimo e ascético Mahatma Gandhi”, diz Cascudo, “os comedores de arroz despediram os comedores de carne”.


Vale ouro mesmo
O arroz contém fibras, minerais e é rico em vitamina B1 – que promove o crescimento da criança; previne dores musculares, protege o coração; facilita a digestão; limpa a pele; afasta a ansiedade. Falamos, atenção, do arroz integral: ao polir o grão, joga-se fora muito dessa riqueza nutricional.

Fibras, por exemplo, o integral tem seis vezes mais que o branco, este que a maioria da humanidade prefere por hábito – e disse Einstein que é mais fácil quebrar um átomo que um hábito. Mas, comendo do branco ou do marrom, a maioria das pessoas desconhece que a gramínea ainda nos proporciona inúmeros outros benefícios.

A quirera e a palha viram alimento para os animais; o farelo, óleo de cozinha; as hastes, papel. A casca tem alto poder calorífico: aquece fornos e caldeiras, move termelétricas; misturada a argamassa em pré-moldados, reduz o custo de casas populares. Sua sílica serve ao fabrico de pneu e aglomerado para chapa de madeira. Os orientais têm razão ao dizer: um grão de arroz, um grão de ouro.


Usos e costumes asiáticos
Mães dão aos recém-nascidos, como rito de boas-vindas, grãos mastigadinhos. Chineses dispõem aos pés do morto uma tigela de arroz cozido, para sua última viagem. No Vietnã, um amigo cumprimenta outro ao encontrá-lo com o filho pequeno: “Quantas tigelas de arroz ele comeu hoje?”. Japoneses, com o grão fermentado, fazem o saquê; com a palha trançada, tatame. De todas as tradições, uma criada na China espalhou-se e chegou até nós: a chuva de arroz sobre os nubentes como votos de fertilidade e fartura.


Feijão com arroz, um achado do povo brasileiro
A nutricionista Aishá Zanella explica melhor o que já dissemos aqui em janeiro de 2009, sobre feijão: “O arroz é pobre no aminoácido lisina, abundante no feijão, e o metionina é pobre no feijão, mas rico no arroz. Formam uma mistura de proteínas de ótima qualidade”. Especialista em doenças crônico-degenerativas, ela alerta para a tendência de trocar “qualidade por praticidade”. É o lanche rápido, a comida industrial que “aumentam a ocorrência de obesidade, diabetes e colesterol alto”.


SAIBA MAIS
Dicionário dos Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (José Olympio, 1992).
História da Alimentação no Brasil, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2004).

 

 

 

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