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Quando os brasileiros querem, podem E-mail
Escrito por Mylton Severiano   

Não foi preciso inventar o título acima. Bastou copiar o que disse o técnico Luiz Felipe Scolari numa de suas entrevistas minutos depois da vitória sobre os alemães, dia 30 de junho de 2002.

Termina o jogo. Pentacampeões do mundo. Uma emissora põe no ar filmes de antigas Copas. Tal como um mantra feito de sons e imagens, desfilam no vídeo cenas narradas por locutores de 44 anos atrás:

O chapéu-miniatura de Pelé no pé do beque galês em 1958, o único chute possível, o gol impossível que nos livrou da desclassificação, amém; diabruras de Garrincha; final contra a Suécia; o time da casa abre a contagem, te esconjuro; o caminhar sereno de Didi com a bola embaixo do braço rumo ao meio do campo; a matada no peito de Pelé, lençol no beque sueco, sem-pulo para as redes, a surra de 5 a 2 em cima dos suecos na frente da família real deles. Saravá. Segue o hino que diz:

A taça do mundo é nossa
Com brasileiro
Não há quem possa

Baixam todos os santos. Repita cinco vezes: somos os melhores do mundo. Contra os agourentos, os desanimados, os indiferentes, os que puxam pra baixo, os descrentes, os despeitados e alguns temíveis adversários.

A televisão repete os melhores lances da campanha de 2002. Vamos fazer de conta que não somos brasileiros. Que fale então o técnico da Alemanha, Rudi Völler:

“Eles são tão fortes em lances de um contra um, ou mesmo de um contra dois, tocam a bola tão rápido, são tão habilidosos, que não tínhamos nada para fazer.”

Metade da humanidade viu o que é jogar até sem bola: a deixada fatal de Rivaldo no segundo gol de Ronaldo contra a Alemanha; o que é aplicar a inércia, esta lei da física, para obrigar o marcador a curvar-se e desabar sob o próprio peso: Ronaldinho Gaúcho em disparada, o pé direito passa sobre a bola fingindo que vai para a direita, o beque cerca por ali mas só encontra o vazio, o toque exato de bico de chuteira com o pé esquerdo no mesmo rumo, mais duas passadas e a bola é lançada à direita, para Rivaldo despachar a Inglaterra.

Talento puro. Mas não só. Microfone para Scolari:

“Mostramos que os brasileiros, quando querem, podem. Com talento, com disciplina. E com amor.”

É mais que uma vitória do nosso futebol: uma vitória dos brasileiros. O oriundo Luiz Felipe Scolari, gaúcho de Passo Fundo, chegou aos campos da Ásia desacreditado de grande parte da torcida e dos comentaristas patrícios, à frente de sua desacreditada seleção. E aí está, dizendo por sua boca aquilo em que este Almanaque sempre acreditou. Com o pentacampeonato, a seleção transcendeu as quatro linhas do gramado e as próprias fronteiras do Brasil. O chefe de Estado venezuelano discursou para seu povo vestido com a camisa da seleção brasileira; as eleições presidenciais da Bolívia marcadas para o amanhecer daquele 30 de junho foram adiadas para “depois do jogo do Brasil”. Torciam por nós em toda parte, em muitas línguas, com olhos amendoados ou redondos, agitando bandeiras de tudo quanto é cor.

Durante a campanha, Scolari manteve à cabeceira um texto escrito há 25 séculos pelo general chinês Sun Tzu, A Arte da Guerra (L± Editores). Como certos clássicos, o livro permite transposições mil. Hosana! Apesar de dedicado à guerra, podemos sem dificuldade adaptar seus ensinamentos aos tempos de paz. E não apenas no campo do futebol, mas dos embates amorosos, da vida profissional e, o que mais nos interessa aqui, “do destino do povo” e do “esplendor e glória” da nação:

A garantia de nos tornarmos invencíveis está em nossas próprias mãos.

Pra frente, Brasil.
 

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