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Papagaios e periquitos do 13 de maio E-mail
Escrito por Joel Rufino dos Santos   

"A escravidão é um roubo. O escravo que mata seu senhor, seja em que circunstância for, age em legítima defesa."

No começo de 1887, uma procissão incrível percorreu o centro de São Paulo. Entre os andores dos santos, se viam instrumentos de tortura. Gargalheiras, grilhões, cangas, relhos, anéis de apertar os dedos (ironicamente chamados "anjinhos"), palmatórias.

Quase nenhum brasileiro hoje conhece esses objetos. Na São Paulo daquele tempo, não havia um só que não conhecesse. Seja por ter visto aplicar, seja por ter aplicado, seja por ter sofrido a dor que causavam. Máquinas de dor.

Na frente da procissão, bem debaixo da imagem do Cristo crucificado, desfilava aos tropeções um rapazinho preto. Mexia braços e pernas como boneco de engonço. Retorcia a cara, falava sozinho. Enlouquecera, talvez. A impressão da cidade foi grande. A polícia não ousou impedir. A multidão foi indo, silenciosa. De vez em quando um som de soluço partia dos que se aglomeravam nas calçadas.

Esse "espetáculo" foi armado por um agitador formidável: Antônio Bento, o líder dos Caifases. Bento era fazendeiro renegado. Lera em João, 11:50, o que Caifás profetizou: Jesus "deveria morrer pelo povo e, assim, a nação inteira não pereceria". Cansado e insatisfeito com os métodos legais de luta, Bento fundou uma organização armada para libertar escravos e executar torturadores. Caifases.

Pela ação dos Caifases nasceu em Santos, porto paulista, nas terras altas entre o mar e a montanha, o quilombo do Jabaquara. Imensa favela de madeira, palha, barro, telhados de zinco. Celeiro de estivadores, operários do carvão e, mais tarde, craques de futebol.

Aquela procissão, em que um escravo enlouquecido pela tortura desfilou ao pé do Cristo crucificado, inchou a organização de Antônio Bento. O espetáculo-agitação deu certo. Estudantes do Largo de São Francisco, jornalistas, advogados, rábulas, operários gráficos, ferroviários, fazendeiros esclarecidos... Havia cada vez mais Caifases, clandestinos ou abertos. Arriscavam a pele pelos slogans:

A escravidão é um roubo. O escravo que mata seu senhor, seja em que circunstância for, age em legítima defesa.

A partir de 1887, começou a deserção em massa dos trabalhadores escravizados. Centenas chegavam ao Jabaquara diariamente. Ou a Cubatão. Ou às matas em torno de Jundiaí. A pé, de trem, em burros, em carroças mal-ajambradas, quem sabe voando.


Como ia terminar aquilo? Não precisava bola de cristal. Os custos da escravidão ficavam cada vez mais altos. O trabalho escravo ainda era lucrativo. Mas o custo do sistema - manutenção do escravo mais gastos com segurança - o tornava inviável.

Nessa hora, as cabeças pensantes da classe proprietária decidiram uma coisa: entregar os anéis para não perder os dedos. Deputados e senadores, saídos em esmagadora maioria dessa classe, votaram em tempo recorde a, talvez, menor lei da história do Brasil. A Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888:

Artigo 1º. É declarada extinta a escravidão no Brasil.
Artigo 2º. Revogam-se as disposições em contrário.


Papagaio come milho, periquito leva a fama.

 

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