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Bendita borracha E-mail
Escrito por Mylton Severiano   

Esta é filha da Amazônia brasileira. A humanidade devia render homenagens à seringueira. Ela fornece uma goma que, por sua importância, figura ao lado do aço e do petróleo. E ainda protege a flora, a fauna e os mananciais.

Não existe, no atual estágio da civilização, atividade em que não entre a matéria-prima extraída dessa árvore amazônica. Elástica, flexível. Amoldável. Resistente ao atrito, à corrosão. Impermeável. Isolante de eletricidade. Aderente a tecidos e metais. Por tantas propriedades juntas, ela serve a uma infinidade de usos. Imagine o que seria da aviação sem a borracha. Imagine o maior cargueiro do mundo, o avião russo Antonov, seis turbinas, 84 metros. Seiscentas toneladas: 100 elefantes. Não há pneu que segure o impacto de um gigante desses ao bater no chão e frear, se não for de pura goma, 100% Hevea brasiliensis.

Em 1853, a navegação a vapor chega à Amazônia e marca o início do Ciclo da Borracha. A cultura indígena leva um choque de “civilização europeia”. Chegam empresários, aventureiros. Repete-se a clássica cena de barões a acender charutos em notas de valor, enquanto os seringueiros morrem de avitaminose, doenças; e índios são exterminados.

Manaus e Belém figuram entre as cidades mais prósperas do mundo. Manaus ergue o Teatro Amazonas, cópia da Ópera de Paris. A ferrovia Madeira-Mamoré, construída para escoar a borracha, entra para a história com laivos de tragédia: custou 30 milhões de dólares e milhares de vidas. Foi inaugurada em 1912, mas aí o Ciclo da Borracha declinava. O inglês Henry Wickham, 30 anos antes, tinha levado sementes de seringueira para a Inglaterra e, de lá, elas seguiram para colônias da Ásia. O Brasil deixou de ser o rei do ouro branco. De donos do mercado caímos a importadores.

O Ciclo da Borracha vive mais um round na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Falta látex. Vargas cria o Batalhão da Borracha. Campanha financiada por americanos arregimenta nordestinos, que vão para a Amazônia com promessas de fartura e reconhecimento como heróis. Mas a "batalha da borracha" dizima 30 mil nordestinos, de fome, doenças, ataques de animais. Agora a heveicultura se espalha. A ecológica seringueira fixa carbono, combatendo o efeito estufa. Conserva o solo. Produz látex por 30 anos. E ainda por cima gera empregos: 11 mil só em São Paulo, com cerca de 40 mil hectares plantados. A semente produz óleo para tintas, sabões e resinas. E da flor, as abelhas produzem mel. Abençoada seringueira.


O látex na vida de Manu
A primeira coisa que lhe tocou o corpinho foi a enluvada mão do obstetra. Ganhou chupetas. Do seio da mãe foi para o bico da mamadeira. Balões coloriram suas festas. Teve bonecas, bolas, bicicletas. Lápis e borracha na escola. Gostava do Edu, da bota de chuva amarela. Reencontraram-se anos depois num hospital. Ela com o contagotas dosando a medicação da avó, ele controlando o tubo de soro no braço do tio. Ao sair para a primeira noite de amor, a mãe a lembrou: ” Leva camisinha, filha”.


Linha elástica do tempo
Antes de 1500 - Restos de artefatos mostram que amazônidas coletavam látex e o secavam no fogo.
Século 16 - Religiosos portugueses mencionam o uso entre indígenas amazônicos.
1768 - O francês Fresnau fabrica botas de borracha para o rei prussiano Frederico, o Grande.
1770 - O químico inglês Priestley inventa a borracha de apagar lápis.
1823 - O escocês McIntosh cria a roupa a prova d’água, pondo uma camada de borracha entre dois tecidos. O inglês Hancock inventa o elástico.
1839-1842 - O americano Goodyear e Hancock descobrem a técnica, à base de enxofre e calor, que torna a borracha mais resistente: a vulcanização.
1846 - Hancock fabrica pneus sólidos para a carruagem da rainha Vitória.
1877 - Ingleses levam sementes de seringueira para a Ásia.
1888 - O escocês Dunlop inventa o pneumático (com câmara de ar).
Século 20 - Graças principalmente ao pneu, entramos na era do automóvel e do avião.


Os seringueiros têm um mártir
O acreano Chico Mendes decidiu ir à luta ao se deparar com a devastação das motosserras e queimadas. Fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Em 1970, cria os empates: seringueiros, pescadores, índios, camponeses, com mulheres e filhos, dão-se as mãos para impedir que peões derrubem as árvores. Em 1988, é assassinado. Respeitado e premiado internacionalmente pelo trabalho em defesa dos índios e da floresta, foi, no dizer do educador Darcy Ribeiro, "o único a indicar como fazer a Amazônia habitável e rendosa".


SAIBA MAIS
Seringal, de Miguel Jeronymo Ferrante (Globo, 2007).
Chico Mendes - Crime e castigo, de Zuenir Ventura (Companhia das Letras, 2003).
História do Brasil Volume 1, Amazônia, de Ernani Silva Bruno (Cultrix, 1967).
Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha: www.apabor.org.br.
 

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