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A semana e o Match de 1922 E-mail
Escrito por Joel Rufino dos Santos   

Nos acostumamos a pensar que só os acontecimentos políticos decisivos são fatos históricos. E só os “grandes homens” são personagens históricos. Os fatos esportivos, mesmo no “país do futebol”, correm por fora.


Notícia de jornal, 20 de fevereiro de 1922: Corinthians 2 a 1. Ontem, o bravo
team do Corinthians Paulista derrotou pelo score de 2 a 1 o do Palestra Itália no ground deste último. Goals do forward Neco (2) e do full-back Baggio. No ponto do bonds, após o match, um torcedor do Palestra, inconformado, apunhalou um corinthiano.

Naquela mesma semana, dias 13, 15 e 17, acontecera, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna. Se tivesse que eleger como fato histórico apenas um, qual dos dois o leitor escolheria - o jogo ou a Semana? Sabendo, desde o colégio, que a Semana projetou grandes escritores, como Mário de Andrade; grandes escultores, como Brecheret; além de músicos como Villa-Lobos, a maioria de nós responderia: “Ora, a Semana”.

Nos acostumamos a pensar que só os acontecimentos políticos decisivos são fatos históricos. E só os “grandes homens” são personagens históricos. Os fatos esportivos, mesmo no “país do futebol”, correm por fora. Mesmo quando enfurecem ou alegram a multidão, não merecem entrar nos livros de História, ensinados em classe.


Olhemos mais de perto aquela notícia de jornal. Em primeiro lugar, está recheada de palavras inglesas: forward, ground, match… Até o nome do time vencedor, Corinthians, é homenagem a uma equipe bretã que andou por aqui, goleando as melhores equipes do Rio e de São Paulo. Isso indica que os ingleses é que nos ensinaram a jogar foot-ball no início do século 1920. E que deviam ter, portanto, uma grande e antiga influência em nossa sociedade.

Nossos primeiros craques, rapazes da “sociedade”, imitavam os engenheiros e técnicos industriais ingleses que praticavam cricket, squash e foot-ball em suas chácaras fechadas. Esse prestígio dos costumes ingleses, por sua vez, se explica pela dominação econômica que a Inglaterra exercia sobre nós desde o tempo de D. João 6º.

O derrotado Palestra daquela partida é hoje o Palmeiras. Mudou de nome, mas ainda concentra a preferência da colônia italiana. Em cada capital brasileira há ou houve um “time de colônia”. Burguesia, dominação inglesa, colônia, imigração… Vê o leitor que uma pequena notícia de jornal abriu janelas (links, como se diz hoje) para diversos assuntos. A notícia lembrava que, um mês antes, um torcedor corintiano, de regresso do estádio, agredira pelas costas um palestrino no instante em que este último adentrava o portão de sua residência.


Naquele ano de 1922, o futebol já era, então, paixão popular. Como foi possível, em 20 anos, um jogo frio de ingleses ricos se transformar em motivo de punhaladas e covardias no Brasil? Que esportes o nosso povo praticava antes? A porta da curiosidade está aberta, uma pergunta conduz a outra, até o infinito. A Semana de Arte Moderna, a fundação do primeiro partido comunista no Brasil, a rebelião tenentista, a inauguração do rádio também são fatos de 1922. Em qualquer um deles, histórias puxam a História.

 

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