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Nosso petróleo dá em cima da terra E-mail
Escrito por Mylton Severiano   

Impulsionada pelo êxito do etanol, anuncia-se a maior safra de cana da história. A gramínea que fundou esta nação pode refundá-la com uma energia limpa e infindável. Estaremos predestinados a inaugurar um novo marco da civilização?

Todo dia, o sol, caldeira estelar que deve ainda funcionar por bilhões de anos, despeja sobre nossas cabeças energia inimaginável. Ou melhor, imagine: a mesma quantidade de energia que as últimas reservas de petróleo do planeta produzirão nos próximos 30 anos, o astro rei nos manda de graça num só dia.

A questão está em saber aproveitá-la. A planta sabe: capta energia luminosa, mistura com água, acrescenta gás carbônico, mais sais e minerais da terra. Fabrica seu próprio alimento, basicamente açúcares. Ao cabo da reação, libera oxigênio. Em suma, sem fotossíntese, adeus vida sobre qualquer face da Terra.

Os europeus que chegam por aqui em 1500 longe estão de conjecturar sobre tais coisas. Passarão séculos até que se desvende que a planta transforma energia solar em energia química. Os recém-chegados apenas observam que a terra é fértil, lugar que “em se plantando, tudo dá”, como diz Caminha a el rey.

Se dependesse da burguesia mercantil que financiou as navegações, a Terra Brasilis poderia ter tido outro destino, desmembrada entre portugueses, franceses, espanhóis, holandeses, ingleses. Mas el rey pensava alto: garantir o novo território. Pra isso, precisava explorar algo rendoso e fácil de produzir. Ora, Portugal já cultivava em Cabo Verde e Madeira a valiosa cana-de-açúcar, trazida do Sudeste Asiático. Por que não tentar?

E assim, um país foi se delineando ao som das moendas dos engenhos, dos carros de boi, dos cantos de trabalho dos africanos.

No início dos anos 1950, tocava no rádio uma embolada, talvez com o Trio Iraquitã. O refrão: Carro de boi que não geme não é bom / Carro de boi bom é o gemedô.

A letra falava do carro gemendo na serra, carregadim de cana, pra fazê açúca, pra fazê mé / Pro dotô ganhá dinhero / E comprá chevrolé. O carro puxava cana para também fabricar o álcool que nem lhe serviria de combustível. Quanta mudança numa só geração: no regime militar, com a crise do petróleo do início dos 1970, o governo, num rompante de lucidez, cria o Proálcool - graças ao qual, apesar de tentativas de sabotá-lo, passamos a figurar entre os maiores especialistas na fabricação de etanol, o álcool combustível. Alguém já disse que podemos nos tornar uma Arábia Saudita - só que nosso petróleo dá em cima da terra e não acaba.

Você acha que o George, que comandou a mais poderosa nação do planeta, aqui veio em 2007 pelos nossos belos olhos?


Pílulas da vida
Em 1986, o carro a álcool chegou a representar 98% da linha de produção. Carro a gasolina, só por encomenda.

O Proálcool poupou-nos gastos externos de 186 bilhões de dólares, criou 800 mil empregos diretos e baixou drasticamente a poluição nas grandes cidades brasileiras.

A safra recorde 2007/2008 produzirá 415 milhões de toneladas só no Centro-Sul, o que movimentará 40,6 bilhões de reais, 3 bilhões a mais que a safra anterior.


Cana dá mais do que a gente pensa
Pode-se extrair da cana-de-açúcar uma série de bens e produtos, alguns surpreendentes: energia elétrica, nutrientes, componentes da indústria química e agrícola, aglomerado de madeira, caneta, inseticida, licor, papel, embalagens, ração, remédios, sabonete, salgadinhos, sorvete, telefones, vodca, xampu. Alguns destaques:

Xarope ou açúcar Fornecem lisina, aminoácido para balancear rações. A Ajinomoto investiu em dez anos 150 milhões de dólares em Valparaíso e Pederneiras, interior paulista, o que lhe garante a liderança mundial do setor.

Cepas especiais A multinacional Alltech, líder na fabricação de ração, construiu em São Pedro do Ivaí, interior paranaense, a maior fábrica de levedura do mundo. São nutrientes e aditivos que fortalecem a saúde de animais consumidos pelo homem.

Açúcar Dois grupos do nordeste paulista, Irmãos Biagi e Irmãos Balbo, investiram 40 milhões de dólares para fabricar o PHB (poli-hidroxi-butirato), plástico biotecnológico. Bactérias se alimentam de açúcar e o transformam em poliéster, que substitui o polipropileno, o polietileno e o isopor no fabrico de incontáveis itens, com a vantagem de ser biodegradável.


Bartolomeu transformou álcool em ouro
1682. O paulista Bartolomeu Bueno da Silva, descendente de portugueses, espanhóis e índios guaianãs, parte para Goiás à frente de uma bandeira. Lá se estabelece por alguns anos. Nota que as índias usam ornamentos de ouro. Os índios se recusam a indicar as minas. Bartolomeu ateia fogo numa vasilha com álcool, diz que é água e, se quiser, incendeia os rios da região. Os índios, assustados, lhe entregam o ouro e o chamam Anhanguera - Diabo Velho.


SAIBA MAIS
História do Brasil vol. 2 - Nordeste, de Ernani Silva Bruno (Cultrix, 1967).
Poder dos Trópicos, de Gilberto Felisberto Vasconcellos e J. W. Bautista Vidal (Casa Amarela, 1998).
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (José Olympio, 1984).
Sebrae: www.sebrae.com.br
 

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