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Outro olhar sobre Tiradentes E-mail
Escrito por Diego Braga Norte   

Mártir, mas também ideólogo da Inconfidência. Em episódio pouco conhecido, encontrou-se com o embaixador norte-americano na França. Planejaram transformar o Brasil em nação industrializada e sem escravos.


Preâmbulo e cenário da revolta
No século 18, a economia colonial se baseava na monocultura sustentada por mão-de-obra escrava. A maioria dos lucros dessa espécie de feudalismo tardio se destinava à nação exploradora, Portugal.

Em Minas Gerais, descobriram ouro e diamante. Riqueza, luxo e ostentação em Vila Rica, hoje Ouro Preto. Forma-se uma elite intelectual. A prosperidade duraria até a metade do século. Jazidas se esgotavam, impostos aumentavam. A conta do rei era simples: de todo ouro e diamante, um quinto para ele. Havia ainda impostos locais, e sobre todas as atividades.

Em 1750, a cobrança do "quinto dos infernos" foi substituída por uma cota fixa anual: 100 arrobas de ouro, cerca de tonelada e meia. Com a produção em queda, era comum o pagamento incompleto. A Coroa, em 1763, cria a Derrama, arrecadação executada com violência sobre todos os moradores, mineradores ou não. A repressão só cresce. Em 1785, a corte proíbe toda atividade industrial. Os teares podem apenas fabricar roupas para escravos.

Tecidos, calçados e outros bens devem ser comprados de Portugal. Conseqüências trágicas para quem mora longe dos portos.

Trama internacional
Filhos de endinheirados mineiros iam estudar na Europa, em ebulição. Conheciam ideais iluministas, difundidos por pensadores como Locke, Montesquieu, Diderot, Rousseau. Regimes absolutistas caíam e abriam caminho para formas de governo mais igualitárias. Minas acalenta desejos nacionalistas. O inconfidente José Joaquim da Maia segue para Paris.

Designado por colegas brasileiros, entra em contato com o embaixador americano, Thomas Jefferson, em 1785. Encanta-se com as ideias republicanas; os dois trocam correspondências sobre tema delicado: Independência do Brasil. Com medo de ter as cartas interceptadas, Maia assina com pseudônimo: Vendek. Numa carta, de 1786, escreve:

Eu sou brasileiro e vós sabeis que a minha infeliz Pátria geme em assustadora escravidão, que se torna cada dia mais insuportável depois da época de vossa gloriosa independência, pois que os bárbaros portugueses nada poupam para tornar-nos infelizes com medo de que sigamos as vossas pisadas.

Joaquim José na Europa

A pesquisadora Isolde Helena Brans, em Tiradentes Face a Face (Editora da Xerox, 1993), recupera documentos e traz à luz viagens que fez à Europa o alferes Joaquim José da Silva Xavier, apelidado Tiradentes devido ao eventual ofício de dentista.

Tiradentes havia conhecido o inconfidente José Álvares Maciel (filho do capitão-mor de Vila Rica), chegado da Europa, aonde tinha ido também encontrar Jefferson. Trazia planos de liberdade e república. Sua influência foi decisiva. Consta que o alferes pedia a amigos que lhe traduzissem livros europeus; e a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América.

Primeiro parágrafo do texto de 1776: Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário um povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação. Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.

O sagaz Tiradentes foi indicado para a Operação Vendek: discutir com Jefferson o apoio norte-americano. Importante reunião aconteceu em março de 1787, na histórica Nîmes, sul da França. Estavam presentes estudantes, e José Álvares Maciel, José Joaquim da Maia e Domingos Vidal Barbosa. Sob indicações de Jefferson, Tiradentes fez contatos com empresários franceses que haviam apoiado - com armas e homens - a independência dos Estados Unidos.

Documentos atestam. De agosto de 1786 até início de 1788, o alferes pediu afastamento do regimento para ir à Europa tratar de assuntos pessoais. Passou antes pela corte, em Lisboa.


Data e hora marcadas

No fim de dezembro de 1788, os inconfidentes reúnem-se para planejar a revolução. Destacam-se Tiradentes, José Álvares Maciel, Joaquim Silvério dos Reis (o "negociante mais endividado da província"), Padre Rolim (traficante de escravos e diamantes), Alvarenga Peixoto (jurista e minerador endividado), Cláudio Manuel da Costa (poeta e minerador), Padre Toledo e Melo, Tomás Antônio Gonzaga (poeta e jurista), e os coronéis Abreu Vieira e Oliveira Lopes.

Conceberam até a bandeira do futuro país: triângulo vermelho com os dizeres em latim Libertas quae sera tamem - "liberdade ainda que tardia". Marcaram a ação para a época da Derrama, fevereiro de 1789. Mas a Coroa suspendeu a cobrança de impostos. Os inconfidentes haviam sido traídos.

Exemplo para todos
Com um grupo grande e heterogêneo, era natural haver divergências. Uns sonhavam com a república federativa, industrializada, sem escravos; outros só queriam se livrar dos impostos, aliviar as dívidas e manter as estruturas, incluindo o escravagismo.

O traidor, Joaquim Silvério dos Reis, teve as dívidas perdoadas. Dois militares também participaram da denúncia: Inácio Correia Pamplona e Basílio de Brito Malheiros. Presos os inconfidentes, muitos torturados, 84 homens foram indiciados nos Autos da Devassa: 24 condenados, 11 com a pena máxima, a morte. Mas executaram apenas o alferes autodidata, de origem humilde. Preso no Rio quando buscava apoio à causa, em 21 de abril de 1792 foi morto com requintes de crueldade. Queriam transformar a execução em espetáculo exemplar.

A cerimônia começa às 8 horas. Procissão de três horas acompanha Tiradentes até o patíbulo, no Campo de São Domingos; membros da nobreza, altos funcionários, padres franciscanos, cavalaria em uniforme de gala, soldados e uma legião de curiosos. Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado, teve a cabeça cortada e o corpo esquartejado, ali mesmo, na frente de todos.

Usaram o sangue como tinta para a certidão de óbito. Tratados com salmoura para durar mais tempo, os restos mortais foram espalhados. A cabeça ficou exposta na praça em frente da Igreja Nossa Senhora dos Remédios dos Brancos, em Vila Rica.


Você sabia?

* Entre suas propostas, os inconfidentes previam a instalação da capital federal em São João Del Rey, Minas Gerais.

* Outra proposta: criar universidade em Vila Rica. O Brasil era carente em instituições de ensino superior.

* Em 1873, visando combater ideais republicanos, Joaquim Norberto de Souza Silva publicou História da Conjuração Mineira. Tratava Tiradentes como louco irresponsável que entrou no meio dos revoltosos e pôs tudo a perder. Por décadas foi a única fonte de informação sobre os inconfidentes.

* A cabeça de Tiradentes foi roubada na terceira noite. Nunca mais a encontraram.

* Alferes, do árabe al faris (o cavaleiro, o herói), era patente abaixo de tenente. A denominação foi substituída por segundo-tenente.

* Preocupados com o povoamento do País, a natalidade seria incentivada por meio de pensões para mães com muitos filhos.

* O escravo Jerônimo Capitânia, condenado à morte, aceitou prisão perpétua em troca da missão de carrasco oficial. O destino lhe reservou a tarefa de enforcar Tiradentes.

* Tomás Antônio Gonzaga, enquanto preso no Rio, escreveu um dos poemas de amor mais belos da nossa literatura, Marília de Dirceu, declaração a Maria Dorotéia de Seixas.

* Grande parte dos quadros e gravuras representa Tiradentes de barba e cabelo compridos. Mas, militar, mantinha-os aparados. Talvez tenham crescido durante a prisão; mas no dia da morte estava careca e barbeado, como se fazia com os condenados.

* Joaquim Silvério dos Reis, perdoado da dívida de 220 mil-réis e salvo da condenação, foge para Portugal em 1794. Tentaram assassiná-lo no Rio e em Minas. Foi condecorado como "Fidalgo da Casa Real em foro e moradia" pelo príncipe-regente João VI. Fugindo de Napoleão, a Corte vem para o Brasil em 1808. Silvério vem junto e assume um cargo administrativo.


 

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