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A Capital do Sonho E-mail
Escrito por Bruno Hoffmann   

O caminho para a construção de Brasília esbarrou em buracos, políticos, jornalistas e até compositores que torceram o nariz para a mudança da capital brasileira. Conheça histórias de uma cidade que surgiu do nada para se transformar numa das mais instigantes capitais do mundo.


Em 21 de abril de 2010, Brasília completou 50 anos. Uma das mais modernas capitais do mundo só saiu do papel pelo patriotismo, vaidade e teimosia de Juscelino Kubitschek, o presidente que prometeu avançar o Brasil 50 anos em 5. JK era um tipo raro. Sorridente, bem-humorado, pé-de-valsa de primeira. Como definiu um ministro, o mineiro de Diamantina foi “o último presidente feliz”.

De fato, sua imagem era a síntese dos anseios de transformação de cada brasileiro à época. Coincidência ou não, os anos JK (1956-1960) foram prósperos em setores culturais, econômicos e sociais. No futebol surgiram Pelé e Garrincha. E, enfim, a taça do mundo era nossa. Outros esportistas mostraram que o Brasil não devia nada a ninguém: Maria Esther Bueno, no tênis; Adhemar Ferreira da Silva, no atletismo; Éder Jofre, no boxe. O trio Tom, Vinicius e João – a santíssima trindade da bossa nova – apontava novos caminhos para a música popular.

Surgia o Teatro de Arena, o comecinho do Cinema Novo.  As primeiras indústrias automobilísticas fixavam-se no País. O símbolo dessa época de transformações era a cidade que se ergueu do zero em 3 anos e 7 meses no inóspito Planalto Central. O plano em forma de borboleta (esqueça o avião) de Lucio Costa e as linhas sedutoras de Oscar Niemeyer deixaram o mundo boquiaberto. “Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil.

Eles ergueram o espanto deles e deixaram o espanto inexplicado”, observou Clarice Lispector. Para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “a arquitetura de Niemeyer é muito parecida com as montanhas do Rio de Janeiro, desenhadas por Deus no dia em que Deus achou que era Niemeyer”. Símbolo vanguardista, elogiada em todos os cantos, a capital é um marco da arquitetura e do urbanismo modernos.

Desde 1988 é considerada Patrimônio Mundial pela Unesco. Possui suas mazelas sociais, seus escândalos políticos, mas ainda é o símbolo de um país que, aos trancos e barrancos, busca ser mais justo. Tal qual esperava JK em 21 de abril de 1960, quando inaugurou a cidade. Sua mãe, dona Júlia, ao avistá-la pronta, soltou a mais singela e definitiva definição sobre o presidente: “Só mesmo Nonô seria capaz de fazer tudo isso”.

Na Pampulha, o embrião do projeto
Nos anos 1940, como prefeito de Belo Horizonte, JK convidou o jovem arquiteto Oscar Niemeyer para construir o Conjunto Arquitetônico da Pampulha. Uma revolução. Niemeyer declarou mais tarde: “Eu comecei a minha arquitetura com a Pampulha. Brasília foi um seguimento natural”. Uma das obras do conjunto é a igreja de São Francisco de Assis, “a única igreja ainda capaz de converter”, segundo Oswald de Andrade. Mas nem todos gostaram.

O arcebispo de Belo Horizonte proibiu missas no local. Ele teria se irritado com o fato de dois comunistas – Niemeyer e Portinari – terem participado da construção. E se irritou ainda mais ao ver que, num mural, Portinari trocara o lobo de são Francisco por um cachorro brasileiro.

A primeira residência de Brasília foi o Catetinho, construído para abrigar JK. A ideia surgiu num bar carioca, e lá mesmo Niemeyer desenhou o projeto do “palácio de tábuas”. Na inauguração, uma chuva torrencial. Ninguém reclamou. Sem eletricidade, o granizo vindo dos céus teria virado gelo para os copos de uísque.

E o Rio não era  mais capital...
A mudança da capital do Rio para o cerrado dividia os cariocas. Aos poucos, porém, os cidadãos foram deixando pra lá. Em pesquisa realizada em 1960, 73% da população aprovava a mudança. Tire dessa porcentagem o cronista Rubem Braga. Em 21 de abril de 1960, data da inauguração de Brasília, ele saiu de uma boate carioca e, mirando o luar, constatou melancolicamente: “É uma lua estadual”.

Quem mais se irritou com a transferência foram os funcionários públicos, obrigados a trocar as praias pelo distante cerrado. Billy Blanco brincou com a situação em Não Vou pra Brasília:

Não vou, não vou pra Brasília / Nem eu nem minha família / Mesmo que seja pra ficar cheio de grana / A vida não se compara / Mesmo difícil, tão cara / Eu caio duro mas fico em Copacabana. Já o bom malandro Ataulfo Alves encontrou uma solução: Levo comigo Conceição e Dorotília / Violão e tamborim / Vou fazer samba em Brasília.


A cidade ficou pronta, a sinfonia, não
Vinicius de Moraes e Tom Jobim foram convidados a fazer uma sinfonia em homenagem a Brasília. Mas a Sinfonia da Alvorada não ficou pronta a tempo de ser mostrada na inauguração da capital. Depois, problemas com patrocínios adiaram a estreia. A primeira execução só ocorreu em 1966, na TV Excelsior, seis anos depois da inauguração da capital.

Getúlio Vargas: “Só se for um maluco”
1953. Almoço no Palácio do Catete. Um assessor indaga o presidente Getúlio Vargas sobre a possibilidade de transferência da capital. A sugestão: Petrópolis. “A infraestrutura daqui seria aproveitada. O governo faria apenas duas pistas de autoestrada para a cidade”, explica o assessor. A ideia ganha alguma força e, pouco tempo depois, é apresentado um orçamento da rodovia. Algo como 200 milhões de dólares. “Deus me livre! Duzentos milhões de dólares?!”, indigna-se Vargas. “Olhe, presidente, alguém pode vir depois do senhor e fazer isso”. O presidente encerra a conversa: “Só se for um maluco”. Não há números exatos, mas estima-se que a construção de Brasília tenha custado, em valores atuais, 83 bilhões de dólares*.

*Fonte: Especial Veja Brasília 50 anos.

Capital nova, sonho antigo
1761
Marquês de Pombal propõe mudar a capital do império português para o interior do Brasil.
1818 O jornalista Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense, defende a interiorização da sede do governo.
1823 José Bonifácio, entusiasta da ideia, é o primeiro a usar o nome Brasília.
1892 A mando de Floriano Peixoto, o belga Luiz Cruls explora o Planalto Central para demarcar a área.
1922 Epitácio Pessoa assenta a pedra fundamental da “fuTura Capital Federal dos Estados Unidos do Brasil”.
1946 O presidente Eurico Gaspar Dutra cria a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil. Depois de pronto, o estudo se arrasta no Congresso e nada é resolvido.

Candangos eram os homens e mulheres responsáveis pela construção da cidade. Um exército de cerca de 60 mil pessoas, a maioria nordestinos, trabalhou bravamente para erguer do zero, em menos de quatro anos, a capital brasileira.

Os críticos
Uma enxurrada de manifestações contrárias surgiu durante a construção da cidade. Boa parte da udn, partido de oposição. Mas jornalistas e intelectuais engrossaram o caldo.

- A Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, era uma das mais ferozes opositoras. Durante quatro anos desferiu ataques diários à nova capital. “Brasília é um câncer.”

- “Aquela terra é tão árida e inóspita que o lago de Brasília jamais encherá. A água será toda sugada pelo subsolo”, declarou o engenheiro Gustavo Corção.
Quando o Paranoá foi inteiramente preenchido pela água, Corção recebeu um telegrama de JK: “Encheu, viu?”.

- Para Gilberto Freyre, Brasília era “uma cidade não brasileira”. “É uma pura obra de arquitetura e de engenharia. A tradicionalidade e a regionalidade foram sacrificadas.”

- “É uma loucura de Kubitschek e um crime contra o País”, disparou o magnata das comunicações Assis Chateaubriand.

“A derrota dos cretinos” foi o título que Nelson Rodrigues, fervoroso defensor da mudança da capital, deu a uma crônica publicada logo após a inauguração da cidade.

É uma borboleta!
Muita gente compara o Plano Piloto à forma de um avião. Pouca coisa irritava mais Lucio Costa. Numa de suas últimas entrevistas, reclamou: "Não tem nada de avião! É como se fosse uma borboleta. Jamais foi um avião! Coisa ridícula! Seria inteiramente imbecil fazer uma cidade com forma de avião".

Rio 40º, Brasília 18%
A partir da morte de uma economista, um médico começa a se envolver com o universo de poder brasiliense. Esse é o enredo de Brasília 18%, lançado em 2006. O título refere-se à umidade do ar típica da região. O diretor é Nelson Pereira dos Santos, o mesmo que 55 anos atrás filmou Rio 40 Graus.

E se Lucio Costa não fosse o vencedor?
26 escritórios de arquitetura apresentaram projetos para a criação de Brasília. Só três foram cogitados de fato. Num deles, propunha-se a criação de sete unidades urbanas, como pequenos bairros, em formato hexagonal, que conteria tudo o que se precisasse. Os moradores só andariam à pé – a distância para o trabalho, lojas e lazer não passaria de um quilômetro. O percurso dentro das células seria feito por esteiras rolantes. Para evitar que os núcleos crescessem desordenadamente, haveria cinturões verdes ao redor de cada um. Outra proposta pretendia construir 18 superblocos com edifícios de 80 andares. A cidade seria cheia de arranha-céus, a antítese do projeto vencedor.

Israel Pinheiro foi o administrador das obras de Brasília. Humanista, criou as cidades-satélites para abrigar os operários, não incluídas por Lucio Costa no projeto inicial.

“Só mesmo Nonô seria capaz de fazer tudo isso”
A cidade foi inaugurada na data prometida: 21 de abril de 1960, aniversário de morte de Tiradentes. Diversas comitivas internacionais estavam presentes, além de 200 mil pessoas vindas do Brasil todo. Não havia hotéis e pousadas para acomodar tanta gente. Num ato de improviso, o governo distribuiu 20 mil colchões de mola para os moradores receberem os visitantes. Nenhum foi devolvido. Filha de JK, Maria Estela declarou: “Só vi meu pai chorar em duas ocasiões: na morte de familiares e na inauguração de Brasília”. E dona Júlia, a mãe coruja do presidente, lançou a pérola: “Só mesmo Nonô seria capaz de fazer tudo isso”.

A primeira passagem de faixa presidencial em Brasília quase terminou num escândalo sem precedentes. Jânio Quadros, o novo presidente, pretendia insultar JK no discurso de posse. O mineiro soube da notícia e prometeu: "Se isso acontecer, partirei pra agressão física". A informação chegou a Jânio, que, em cima da hora, desistiu do plano. A troca de faixas foi só sorriso.

O que os gringos acharam de Brasília
- Na fase final da construção, o líder cubano Fidel Castro visitou Brasília. Numa viagem panorâmica sobre a cidade, exclamou a JK: “É uma felicidade ser jovem neste país, presidente”.

- Ao pisar na capital brasileira, o cosmonauta Yuri Gagarin sentenciou, deslumbrado: “A impressão que tenho é a de estar chegando a um planeta diferente”.

- No dia da inauguração, o escritor norte-americano John De Passos lembrou-se da cidade do Império Romano que foi destruída por um vulcão e redescoberta das cinzas séculos mais tarde: “É como se isto fosse Pompeia ao contrário”.

- O presidente norte-americano Eisenhower se emocionou ao ver dezenas de tratores durante a construção: “Esta é a grande e verdadeira batalha. A grande batalha, porque é a batalha da paz”.

- “Aqui há invenção”, resumiu o arquiteto franco-suíço Le Corbusier.

SAIBA MAIS


Brasília Kubitschek de Oliveira, de Ronaldo Costa Couto (Record, 2002).

Assista ao vídeo nesta página e conheça mais histórias sobre Brasília.

 

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