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Confetes para Dona Leonor e outras donas E-mail
Escrito por Lourenço Diaféria   

27 de abril - dia da empregada doméstica

Natural, e justo, estabelecer-se um dia no mês para homenagear uma heroína trabalhadora da civilização brasileira. Escrevo hoje sobre Dona Leonor. Foi nossa empregada doméstica durante anos, vários anos. Não pretendo simplesmente jogar confetes, nem é o caso. Também tinha defeitos. Devia ter. Mas ocorre que, enquanto muita gente competente, e bota competência nisso, custava meses e até anos procurando emprego, com Dona Leonor ocorria o contrário: o emprego não desgrudava dela.

Dona Leonor fixava-se numa residência, passava a fazer parte integrante dos usos, costumes, hábitos e, se me permitem, até dos cacoetes da família. Como está na cara, sou de uma época da civilização quase remota, em que o básico do aprendizado para conseguir um emprego com segurança consistia em dominar, no mínimo, as operações de adição, subtração, multiplicação e divisão; um pouco de tabuada; alguma tabela de logaritmos; e outras fumaças para o gasto. Acredito que houvesse também na época menos leis.

Os telefones urbanos eram raros; e os interurbanos, raríssimos. Todavia, as listas telefônicas pareciam feitas para não enlouquecer ninguém. Enfim, tudo era simples. Para enviar um sofá, era comum acreditar na existência da Lusitana. E, acreditem se quiserem, jogador de futebol usava redinha nos cabelos. Naqueles tempos (in illo tempore, como sabem os latinistas), não havia computadores.

Todo mundo genial escrevia a máquina. Repito: a máquina, sem crase. E uma das pessoas mais geniais era o Fiori, que trabalhava em cartório. Era um zás. Rápido como o capeta. Não cometia erros, jamais. Se houvesse um concurso de competência e precisão, sem olhar no teclado, o vencedor somente poderia ser o Fiori.

Mas não quero mudar de assunto. Quando iniciei estas minhas considerações impertinentes, pretendia escrever sobre o papel da empregada doméstica na vida cotidiana de todos nós. É o que prometo fazer. A maior empregada doméstica que tive na minha longa vida foi Dona Leonor, preta, porém, não retinta. Era gorda, volumosa, inteligente, pacífica, asseadíssima e bem-humorada. Só tinha um raríssimo defeito. Excepcionalmente, deixava cair um fio de cabelo branco no arroz soltinho. Dona Leonor não se apercebia. E nós, todos nós, em homenagem a seus olhos antigos, continuávamos a viver em paz.

Durante muitos, longos anos, morou na nossa casa. Jamais engrossou por causa de nossos defeitos, a começar pelos defeitos de nossos filhos quando a desrespeitavam. Acreditava em Deus. Era evangélica, de uma das denominações mais tradicionais. E nós, além de acreditar em Deus, acreditávamos totalmente em Dona Leonor.

Um dia, não lembro qual, faleceu. Foi sepultada num caixão grande. Depois tivemos outras empregadas. Além de Dona Leonor, coincidiu de vir aqui morar nessa época um filhote de galo, que cresceu, foi indo, indo, mas não se tornou um galão parrudo. A morte o levou do muro de nosso jardinzinho. Quem descobriu que o galinho era cego dos dois olhos foi Dona Leonor, uma senhora empregada doméstica que prestava atenção em tudo.

 

 

 

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