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Nascida para durar E-mail
Escrito por Janaina Abreu e Mylton Severiano   

Melodia simples. Ritmo binário bem marcado. Letras irônicas, sensuais, engraçadas, com duplo sentido, de crítica social, maliciosas. Com esta fórmula, nossos artistas populares elaboraram a marchinha de Carnaval, imorredoura criação que animaram e animam milhões de foliões Brasil afora.


Desde o final dos anos 1920, a marchinha se consagrou como principal ritmo nacional do Carnaval de rua e de salão. Com a popularização do disco e do rádio, o gênero viveu sua época de ouro entre 1930 e 1960. Por todo o Brasil, os foliões se acostumaram a ficar esperando o fim do ano, quando as rádios do Rio de Janeiro começavam a lançar os prováveis sucessos do próximo Carnaval.

Grandes intérpretes, como Almirante, Mário Reis, Dalva de Oliveira, Sílvio Caldas e Carmen Miranda, lançaram marchinhas dos principais compositores da época: Noel Rosa (1910-1937); Ary Barroso (1903-1964); Lamartine Babo (1904-1964); João de Barro, o Braguinha (1907- ). Algumas marchinhas compostas há mais de 50 anos ainda fazem sucesso. E tudo indica que vão continuar animando foliões de todo o Brasil tempo afora.

Alas abertas para elas
É bem conhecida a história da primeira música composta especialmente para o Carnaval, Ô Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga (1847-1935): ela a escreveu para o cordão Rosa de Ouro, em 1889. Desde então, inúmeros compositores esforçaram-se, ano após ano, para ter a glória de ver sua música na boca do povo.

Setenta anos atrás, o mineiro Ary Barroso presenciou um incidente de rua. Uma multidão furiosa ameaçava bater numa mulher, aos gritos:

- Dá nela! Dá nela!

Foi o que inspirou Ary para compor Dá Nela. Inscreveu-a no concurso de 1930. Conquistou o primeiro lugar. Gravada por Francisco Alves, caiu logo no gosto popular:

Esta mulher
Há muito tempo me provoca
Dá nela! Dá nela!
É perigosa
Fala mais que pata choca
Dá nela! Dá nela!

Em 1938, lançou Eu Dei. Os versos, cantados por Carmen Miranda e pelo Bando da Lua, formam um diálogo apimentado:

- Eu dei.
- O que foi que você deu meu bem?
- Eu dei.
- Guarde um pouco para mim também.
- Não sei se você fala por falar, sem meditar.
- Eu dei.
- Diga logo, diga logo, é demais!
- Não digo.
- Adivinhe, se é capaz.

Braguinha, capítulo à parte
Em 1934, Braguinha propõe a Noel fazer uma música com o ritmo das pastorinhas que desfilam em Vila Isabel na noite dos Santos Reis. Nasce Linda Pequena que, lançada em disco, não faz sucesso.

Noel morre em maio de 1937. No fim do ano, Braguinha relança a marchinha. Sem mexer na melodia, substituiu duas palavras. Sílvio Caldas grava com o título de Pastorinhas. Ganha o prêmio de melhor marcha de 1938. Concorrentes disseram que foi a alma de Noel que venceu o concurso, com esta música de andamento mais lento.

A estrela d'alva
No céu desponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor
E as pastorinhas
Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor

A marcha que conta a história de Pierrô, Colombina e Arlequim tornou-se um clássico. Vencedora de 1936, Pierrô Apaixonado une dois gênios na criação: Heitor dos Prazeres (1898-1966) fez o estribilho e Noel, as segundas partes. Gravada por Joel e Gaúcho, com acompanhamento dos Diabos do Céu em arranjo de Pixinguinha, fez parte do filme Alô, Alô Carnaval. Noel Rosa morreria no ano seguinte.

Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina,
Acabou chorando, acabou chorando

A guerra civil espanhola era notícia em toda a imprensa. Braguinha pegou o tema e criou Touradas em Madri:

Eu fui às touradas em Madri
Para tim bum, bum, bum
Para tim bum, bum, bum
E quase não volto mais aqui
Para ver Peri beijar Ceci
Para tim bum, bum, bum
Para tim bum, bum, bum

Volta e meia, nossos artistas relançam velhos sucessos com roupa nova. Braguinha, que viveu até o 99 anos, deixou uma penca de obras-primas. Em 1979, Gal Costa recriou sucesso dele composto 43 anos antes em parceria com Alberto Ribeiro, Balancê (1936).

Ô balancê, balancê
Quero dançar com você
Entra na roda,
Morena pra ver
Ô balancê, balancê

Sua majestade na justiça
Lamartine Babo é outra majestade das marchinhas de carnaval, responsável por O Teu Cabelo Não Nega, reconhecível assim que a orquestra ataca a introdução.

Trata-se, no entanto, de composição dos irmãos Valença, pernambucanos. Eles a enviaram para a RCA Victor, com o nome de Mulata. Lamartine adaptou, fez a introdução, mudou o ritmo. O selo do disco (1932) dizia "motivo do norte, adaptado por L. Babo". Os Valença ganharam a questão na Justiça e, desde então, aparecem ao lado de Lamartine.

O teu cabelo não nega, mulata,
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata eu quero o teu amor

Lamartine Babo se transforma em motivo de expectativa: "O que será que ele vai apresentar este ano?"

Alegre, sentimental, bem ao estilo dele, Linda Morena estourou em 1933.

Linda morena, morena
Morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha
Não brilha tanto quanto o teu olhar

Uma virou hino, outra criou polêmica
O mineiro Joubert de Carvalho oferecia músicas para cantores de destaque, como Francisco Alves e Gastão Formenti. Mas foi a então novata Carmen Miranda a responsável pelo sucesso estrondoso de Taí, lançada em 1930 como Pra Você Gostar de Mim, que vendeu 36 mil discos, número grande para a época.

Taí
Eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh, meu bem, não faz assim
comigo, não
Você tem, você tem
Que me dar seu coração

Em 1934, Carmen grava a música mais famosa do compositor carioca André Filho, Cidade Maravilhosa, vice-campeã no concurso de Carnaval da Prefeitura do Rio em 1935. A marcha passou a ser tocada no encerramento dos bailes todos os anos. Em 1960, foi oficialmente decretada como hino da cidade.

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa,
Coração do meu Brasil!

A parceria entre o alagoano Jararaca, da dupla Jararaca e Ratinho, e o maestro paulistano Vicente Paiva rendeu a música carnavalesca talvez mais conhecida e mais tocada de todos os tempos: Mamãe Eu Quero.

Gravada por Jararaca na Odeon, foi o sucesso de 1937.

Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar!

No Carnaval de 1939, A Jardineira, gravada por Orlando Silva, gerou polêmica.

Contestava-se a autoria de Benedito Lacerda e Humberto Porto. É um tema popular originário da Bahia, que os dois adaptaram como marchinha. O baiano Humberto Porto assumiu que, de fato, recolheu o refrão em Mar Grande, em dezembro de 1937.

Oh, jardineira
Por que estás tão triste
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a camélia
Que caiu do galho
Deu dois suspiros
E depois morreu

Uma das composições mais cantadas no carnaval de 1941 foi Alá-lá-ô, de Haroldo Lobo e Nássara. Gravada por Carlos Galhardo, recebeu célebre orquestração de Pixinguinha.

Alá-lá-ô, ô ô ô, ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô, ô ô ô
Atravessamos o deserto do Sahara
O sol estava quente, queimou a nossa cara

Ator, poeta e radialista, Mário Lago estreou como compositor em 1940 e logo no ano seguinte lançou, em parceria com Roberto Roberti, a marchinha que não há brasileiro que não conheça: Aurora, gravada por Joel e Gaúcho. A música ganhou repercussão internacional graças à interpretação de Carmen Miranda, que a incorporou ao seu repertório.

Se você fosse sincera
Ô ô ô ô, Aurora
Veja só que bom que era
Ô ô ô ô, Aurora

Quem não tem seu sassarico?
O carioca Romeu Gentil formou com Paquito outra dupla que se tornou famosa pelas composições carnavalescas. Em 1949, Jacarepaguá; em 1950, Daqui Não Saio; em 1951, a dupla venceu pela segunda vez o concurso de músicas de Carnaval da Prefeitura do Rio com marchinha gravada por Emilinha Borba e pelos Vocalistas Tropicais Tomara Que Chova, ironicamente uma crítica justamente ao poder público municipal.

Tomara que chova
Três dias sem parar
A minha grande mágoa
É lá em casa não ter água
E eu preciso me lavar

No Carnaval de 1952, Sassaricando consolidou o prestígio de Luiz Antônio, Zé Mário e Oldemar Magalhães. O dicionário não registra, mas fica claro na letra que "sassaricar" é o nosso moderno "paquerar", "azarar". Gravada pela vedete Virgínia Lane, tornou-se um clássico.

Virou até, 25 anos depois, nome de novela de Silvio de Abreu. O tema da abertura era ela, Sassaricando, regravada por Rita Lee e Roberto de Carvalho.

Sa-sassaricando
Todo mundo leva a vida no arame
Sa-sassaricando
A viúva, o brotinho e a madame
O velho na porta da Colombo
É um assombro
Sassaricando

O compositor José Gonçalves e a cantora Zilda "sassaricaram" durante um programa de rádio. Formaram a Dupla da Harmonia. Casaram em 1938 e mudaram o nome para Zé da Zilda e Zilda do Zé. Do Carnaval de 1954 é o grande sucesso do casal, em parceria com Valdir Machado, Saca-rolha.

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo a mão no saca-saca-saca rolha
E bebo até me afogar

Curioso: a melodia de Saca-rolha é em tom menor, e não maior como a maioria das marchinhas. Em geral, o tom menor se presta mais a melodias melancólicas. Mas nossos artistas conseguem transmitir alegria até em tom menor. Foi o que fez também o sergipano Carvalhinho em 1956. Em parceria com Joel de Almeida, aproveitou um jingle de rádio e tv e criou o maior sucesso daquele carnaval: Quem Sabe, Sabe.

Quem sabe, sabe
Conhece bem
Como é gostoso
Gostar de alguém

O compositor e pianista carioca João Roberto Kelly, durante anos, produziu e apresentou programas de tv. Em 1964 fez sucesso com Cabeleira do Zezé, em parceria com Roberto Faissal, gravada por Jorge Goulart. Mais uma brincadeira irreverente bem brasileira.

Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é? Será que ele é?
Será que ele é bossa nova?
Será que ele é Maomé?
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é

SAIBA MAIS
Enciclopédia da Música Brasileira: Popular, Erudita e Folclórica (ART Editora-Publifolha, 1998).

 

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