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Prefeito acaba com cortiço e inaugura as favelas E-mail
Escrito por Danilo Ribeiro Gallucci   

A primeira favela do Rio de Janeiro surgiu no século 19.

Só vemos um conselho a dar a respeito dos cortiços: a demolição de todos. Essa podia ser apenas mais uma frase de efeito na tese de concurso de um candidato à vaga de professor na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Isso caso o doutor em questão não fosse o futuro primeiro prefeito da Capital Federal.

Na monografia de 1877, o baiano Cândido Barata Ribeiro discorria sobre as medidas sanitárias para impedir a propagação da febre amarela. Quinze anos depois, já no comando da prefeitura, não esqueceu daquelas palavras. O maior cortiço do Rio de Janeiro estava com os dias contados. Noite de 26 de janeiro de 1893. A entrada principal do cortiço apelidado de Cabeça de Porco é invadida por autoridades policiais e sanitárias. A despeito do destino que teriam os moradores (quase quatro mil), uma verdadeira operação de guerra é montada para o bota-abaixo.

Às sete e meia, a entrada da estalagem é bloqueada. O prefeito assume pessoalmente o andamento da operação, acompanhado do exército, de policiais e de cerca de 140 operários. Com o início da "cirurgia", o primeiro lado a ruir é o esquerdo, supostamente desabitado. Mas basta despencarem as primeiras telhas para que crianças e mulheres corram desesperadas. Quando partiram para o lado direito, sabidamente ocupado, deu-se novo impasse: ninguém queria sair. Assim mesmo, tudo foi derrubado.

Ao raiar do dia, Barata havia vencido o Cabeça de Porco. E, como prova de compaixão, teria mandado "facultar à gente pobre que habitava aquele recinto a tirada das madeiras que podiam ser aproveitadas". Não se sabe se o desfecho era esperado: móveis e entulhos reutilizáveis subiram o morro junto com os desalojados, formando o Morro da Favela, a primeira das favelas cariocas. Segundo o historiador Sidney Chalhoub, com a destruição do Cabeça de Porco, nem bem se anunciava o fim da era dos cortiços, e a cidade do Rio já entrava no século das favelas.


SAIBA MAIS

Cidade Febril: Cortiços e epidemias na Corte imperial, de Sidney Chalhoub (Companhia das Letras, 1996).

 

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