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Em se cultivando, cogumelo dá E-mail
Escrito por Mylton Severiano e Kátia Reinisch   

Um nissei de Mogi das Cruzes, Grande São Paulo, é pioneiro do cultivo no Brasil. A procura cresce vertiginosamente. Não só pela excelência do sabor; também pelas propriedades medicinais. Sobre o reino dos cogumelos há muito ainda pra contar. Por ora, isto.

Até meados do século 20, cogumelo no Brasil era para poucos. Só conhecíamos o champignon: cogumelo-de-paris, Agaricus bisporus. Importávamos para o preparo de acepipes como o estrogonofe – guisado de carne à base de massa de tomate e creme de leite, cujo charme é o champignon –, prato criado no século 19 pelo aristocrata russo Pavel Stroganov.

Então, em 1958, entra na história o nissei Kenzo Neguishi, de Mogi das Cruzes, município da região leste da Grande São Paulo. Num recanto de dois alqueires onde os pais plantavam frutas, verduras, legumes, e criavam frangos, o jovem experimentou cultivar champignon.

Kenzo agora tem 70 anos e está na nossa frente, no escritório da Aica – Agro Indústria de Conservas Alimentícias, que emprega 70 funcionários e abastece mil pontos de venda país afora. “Hoje tá bom. Mais procura que oferta”, diz Kenzo. Ele guarda a entonação nipônica. Há 90 anos os japoneses viram semelhança climática entre as terras do Japão onde cultivavam frutíferas e esta região, e aqui formaram uma colônia. Notamos a presença histórica deles nas placas: Estrada Soischi Ueda, Escola Sentaro Takaoka, Rodovia Ichiro Konno.

Kenzo levou 30 anos para transformar no principal negócio da família a atividade que começou como passatempo. E Mogi das Cruzes virou nosso maior polo de cogumelos; responde por 80% do champignon nacional. Ele recorda contente que recebe repórteres de televisão desde a extinta TV Tupi. Já deu entrevista para Ana Maria Braga e José Hamilton Ribeiro, do Globo Rural. E, como todo japonês, não esquece um benfeitor. Cita com gratidão o professor Júlio de Franco Amaral, do Instituto Biológico: “Ele me acompanhou, veio aqui. Foi o meu mestre”.

Com irradiante simpatia, nosso compatriota de olhos puxados confirma o que constatamos: o consumo vem crescendo em progressão geométrica. Os três filhos homens seguem seus passos. Dois cursaram Administração e outro, Engenharia de Alimentos. O pai os mandou para estágios de até um ano no Japão.

“Por sorte conheci o maior produtor japonês, que aprendeu técnicas holandesas, inclusive de conservas.” Graças a isso, os filhos vieram com novidades. Foi um deles que introduziu no Brasil na década de 1990 conservas em sachê transparente, mais barato. Com orgulho, os Neguishi apregoam nas propagandas: Produto 100% brasileiro.


Era uma vez uma casa de barro
Mogi cresce e a Aica não pode se expandir, senão entra em zona urbana. Os filhos de Kenzo se preparam para instalar-se em município da Grande Curitiba, cuja prefeitura oferece incentivo: a Aica, além de produzir um alimento como o champignon, vai criar empregos. Como em Mogi, a empresa fará tudo “em casa”, do cultivo ao envase. Kenzo sente-se realizado. Ele, que nasceu em casa de barro, agora mora numa vivenda com ampla fachada, coberta de pedra mineira, e vê os filhos seguirem avante com seu legado.


É saudável, é saboroso, é champignon
Como todo cogumelo, o mais consumido dispensa agrotóxico no cultivo. Pouca gordura, rico em proteínas, aminoácidos (substâncias essenciais que o organismo não fabrica), ferro (antianêmico), cobre (ossos e tendões), zinco (músculos e tecidos), vitamina C (resistência a infecções). Fortalece o sistema imunológico, aumentando nossa resistência contra câncer e outras doenças degenerativas. Baixa o colesterol. De textura e gosto delicados, até com a pizza a criatividade brasileira o casou. Que casamento!


Este é nosso mesmo: cogumelo-do-sol
A paulista Carla Maísa Camelini, farmacêutica e técnica em alimentos, pesquisa na Universidade Federal de Santa Catarina. Seu xodó é o cogumelo-do-sol, Agaricus blazei ou brasiliensis. Quando estudante, viu no microscópio que ele aumenta os vasos sanguíneos em embrião de galinha. Foi objeto de seu mestrado o poder cicatrizante, graças ao aumento de vascularização que ele promove. E é rico em betaglucana, carboidrato eficaz como regulador da imunidade. “O sistema imunológico pode ficar paranoico, reagir por qualquer coisinha e deixar a gente com rinite, por exemplo. A betaglucana baixa a bola dele.”

É do-sol porque só dá nos trópicos. Exportamos 90% da produção a cerca de 500 reais o quilo. “Com ele os japoneses fazem um creme caríssimo para remoçar a pele.” O que Carla aprecia mesmo é o brasiliensis fresco: “Se você der um susto nele na frigideira com uns temperinhos, é delicioso. Tem sabor de amêndoa”. É difícil achar fresco. Mas ela é privilegiada: um amigo lhe manda de Brasília.


SAIBA MAIS
Ervas, Temperos e Condimentos de A a Z, de Tom Stobart (Zahar, 2010).
Dieta Mediterrânea com Sabor Brasileiro, de Fernando Lucchese (L±, 2005).
Veja nossos outros textos sobre cogumelos: Que reino é esse?, Símbolo do eterno renascer parte 1 e Símbolo do eterno renascer parte 2.

Consultoria: nutricionista Aishá Zanella
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