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Monte Verde E-mail
Escrito por Heitor e Silvia Reali   

Um mergulho nas coisas simples

Terra mineira da boa, sublinhada pela solenidade dos grandes espaços, das enormes pedras e das edificações alpinas, Monte Verde oferece o melhor do inverno caipira: chaminés fumaçando, comida de primeira e uma paisagem que encanta gente do mundo todo.

O frescor do ar geladinho e o aroma revigorante e mentolado dos ciprestes anunciam: a estância de Monte Verde está próxima. Se o viajante chegar com o dia amanhecendo verá um inesperado bônus em dose dupla: a fumacinha das chaminés indicando que a noite fria foi aquecida pelas lareiras, e a bruma espessa que custa a se desmanchar, mesmo com a quentura do sol.

Localizada na Serra da Mantiqueira – do tupi-guarani, “a serra que chora” –, a 1.600 metros de altitude, a vila se aconchega em um vale abrigado dos ventos, perfumado por eucalipto citriodora e pipocado de casas que remetem às moradias dos camponeses alemães, húngaros e suíços.

Uai, e “pra mode quê” esse jeitão europeu em pleno solo caipira? “Causa quê” o primeiro a descobrir tanta formosura escondida, serpenteada por um rio de águas cristalinas, o Jaquari, foi o senhor Verner Grinberg, nascido na Letônia. Chegou a cavalo, vindo de Camanducaia, e com o dinheiro que tinha no bolso comprou as terras de famílias mineiras. Batizou o lugar com a tradução de seu sobrenome (Grin, verde; e Berg, montanha) e começou a dar forma ao sonho de criar uma cidade em meio às montanhas e cachoeiras.

Verner abriu picadas, construiu rede elétrica, captação de água, olaria, ergueu a igreja batista e a escola, trouxe uma professora e, em 1954, vendeu o primeiro lote urbano da vila. E quem não gostaria de construir ali uma casa de campo avarandada para serenar a mente nos fins de semana? Ou mesmo uma pousadinha com caramanchão florido para receber os viajantes, e um restaurante com a boa comida feita em fogão a lenha? Assim, simples assim, Monte Verde foi crescendo no município de Camanducaia.


Ziguezagueando pelas montanhas
Hoje, o gostoso é flanar pelas ruas, tomando um chocolate quente para aconchegar o estômago, ou curtir horas saboreando um fondue, tradicional iguaria suíça a base de carne ou queijo. Depois da comilança, vale caminhar pelas ruas centrais e se abastecer das queijadinhas, sequilhos, goiabadas e pés de moça feitos de leite, chocolate e amendoim, para ir espichando as lembranças boas da vila quando chegar em casa. E, ainda, curiosar, nas lojas, malhas, cachecóis e boinas feitos com lã grossa e macia, e nas lojinhas de artesanato que expõem peças salpicadas de flores ao estilo folclórico bauernmalerei. Essa técnica, que significa “pintura de camponês” em alemão, se originou nos longos meses em que os campos ficavam cobertos de neve. Homens e mulheres tinham tempo de sobra para decorar os móveis, janelas, portas e até o teto com objetos de cores vivas, antecipando a primavera.

Em uma gélida manhã de Monte Verde, alguém deve ter notado que baixas temperaturas, esfriar e tiritar rimam com brincar. Inventaram longas caminhadas, saltos de asa-delta e cavalgada. Folias que afugentam a preguiça, esquentam o corpo. E desfazem a distância que separa o adulto da infância. Desde então, é um tal de ziguezaguear, subindo e descendo pelas trilhas da Mantiqueira. As mais tranquilas, com duração de pouco mais de uma hora, são as da Pedra Redonda, a do Chapéu do Bispo e a do Platô. Já para a Pedra Partida são necessárias quase três horas entre ir e voltar. Mas o esforço é compensado em dias claros: de seu cocuruto pode se avistar até a Pedra do Baú.

As trilhas do Selado, da Fazenda Santa Cruz e a do Pico da Onça requerem bom preparo físico em percursos que podem demorar cerca de cinco horas. Os que sabem das coisas aconselham sempre levar um agasalho e uma lanterna, pois a névoa chega num zás-trás, tão ligeira quanto o corre-corre dos esquilos.

Monte Verde convida ao devaneio, a ficar imaginando as formas das nuvens e ouvindo o rataplã nos ocos das árvores – são os pica-paus- amarelos procurando bichinhos. E, mais do que tudo, a ficar pensando nos trens bons que essa terra mineira tem. Alguém pode querer melhor final feliz para um dia que começou com a neblina em dose dupla?


Preste atenção

Repare nas centenárias araucárias – curi ou curiy, no idioma tupi–, que pipocam pela mata que abraça Monte Verde. Cada pinha produzida pela árvore pode pesar cerca de cinco quilos e conter uns 700 pinhões. Altamente nutritivo e energético, o pinhão, colhido de abril a agosto, é dieta de inverno do porco-espinho, do esquilo, da cutia e da paca, e, entre as aves, do tucano, da gralha-azul e de algumas espécies de papagaio, que também ajudam a dispersar as sementes.


Monte Verde Tem Mais

Galeria de Arte Paula Ungler
A ceramista, que escolheu viver em meio ao verde das montanhas, expõe arrojados objetos utilitários, como xícaras, canecas e bules de chá, além de peças para ornamentar os jardins, como luminárias, fontes e comedores para pássaros.


Pra virar criança
O ar puro e o friozinho das montanhas, além de estimularem as atividades, despertam o lado infantil dos visitantes: deslizar pelos cabos da tirolesa, vencer os obstáculos do arvorismo, andar de quadriciclo, descer as corredeiras do rio Jaguari em uma boia e rodopiar na pista de patinação no gelo.


Parada do Ito
No quilômetro 6 da estrada que une Camanducaia a Monte Verde fica gostoso paradeiro para se abastecer dos trens bons da roça mineira: queijo curado ou fresco, mel silvestre, geleia de jabuticaba, de amora ou de pimenta, suco de uva branca, além de doces de nata, de leite com ameixa e de abóbora com coco.


Não deixe de saborear
Na Galeria das Flores, procure pelo bolo mais tradicional do lugar. A lojinha tem quase o tamanho de um armário, onde mal cabe a caprichosa senhora herdeira da receita do Bolo de Especiarias da Vovó.
 

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