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Escrito por Heitor e Silvia Reali   

Youkoso!

O Japão, quem diria, cabe em um bairro de São Paulo. Mas a sua rica cultura se estende para outros pontos da cidade, oferecendo a visitante uma imersão no universo oriental que vai muito além do visível. Liberdade ni Youkoso (benvindo à Liberdade)!

O japonês que deixar sua ilha natal e desembarcar no bairro da Liberdade, em São Paulo, pensará atônito que voltou para casa. Encontrará nos mercadinhos que pontilham pelas ruas dali sua marca de arroz predileta; uma pasta à base de ameixa de gosto salgado e azedo, a neri ume; uma alga escura, a mozuku; e a fruta pitaia.

Caminhando pelo bairro identificado com portais vermelhos – torii –, poderá dar uma chegadinha ao barbeiro, especialista em aplacar a rebeldia daquele forte tipo de cabelo asiático. Talvez queira comprar um quimono, sandálias zoori ou uma cortina feita em origami com pequenos cisnes – tsurus – que, segundo a lenda, realizam qualquer desejo. Jornais e revistas japonesas pipocam nas bancas, mantendo sempre bem informados os issei, imigrantes japoneses, assim como os nissei, sansei e yonsei, respectivamente seus filhos, netos e bisnetos.

Nosso amigo talvez queira meditar em silêncio. No templo Busshinji, da comunidade budista Soto Zenshu, será confortado pela presença das imagens de sua devoção. Até mesmo os móveis, os objetos e o perfume dos incensos lhe serão familiares. Bateu no nosso visitante uma inesperada fome? Em qualquer um dos vários restaurantes dali irá saborear seu lamen preferido, um sashimi de atum, um crocante yakisoba ou o achi ti biti, joelho de porco com cogumelos e gengibre.

Se o nosso japonês gostar de consultar oráculos, encontrará especialistas em numerologia e leitura de mãos que ficam instalados em simples banquinhas na rua. No fim da tarde, ainda terá tempo de participar de uma cerimônia do chá, o ritual Chanoyu, em ambiente claro e tranquilo, decorado apenas com arranjo floral e forrado de tatames revestidos com esteira de junco.

O mais curioso é que se o nosso visitante não falar uma palavrinha sequer de português, talvez nem precise aprender. Poderá viver ali tranquilo, durante anos, sem que precise falar outro idioma que não seja o seu. Sentiria-se em casa nesse surpreendente Burajiru, como eles denominam nosso país. O leitor acha que exageramos? Qual o que: nem mencionamos o médico, o acupunturista, os esportes tradicionais, as seções de filmes japoneses, a prática de música folclórica shakuhachi e até mesmo passeios nos arredores de São Paulo que fazem eco a essa vibrante cultura.


O belo traz paz interior
Fique certo: o Japão é aqui. Longe de casa, mas perto do coração. Vale conferir e conhecer um pouco mais sobre esse povo, um dos mais resilientes do planeta, capaz de superar as mais sérias dificuldades. Mas, acima de tudo, quem mergulhar na cultura japonesa poderá refletir sobre uma filosofia e sabedoria únicas, baseadas nos ensinamentos de Buda. Durante 80 anos ele pregou a igualdade entre os seres, afirmando que cada pessoa traz consigo uma importância preciosa e insubstituível.

Um pouquinho mais distante do bairro da Liberdade, no parque Ibirapuera, fica o Pavilhão Japonês. Projetado pelo arquiteto Sutemi Horiguchi, foi construído no estilo tradicional, com materiais vindos do Japão. No Instituto Florestal, sob as sakura, cerejeiras floridas que vieram do Himalaia, comemora-se o ritual Hanami.

Disposto a ir mais longe? Em Itapecerica da Serra, cidade da Grande São Paulo, fica o templo Kinkaku-Ji, que se reflete em um lago e tem camélias nipônicas. Observar o belo, particularmente uma flor, induz ao bem interior, de acordo com Mokiti Okada. Se forem milhares de flores, teremos um mundo mais feliz. Para vivenciar tal conceito, às margens da represa de Guarapiranga foi criado o Solo Sagrado, verdadeiro porto de paz que ajuda os visitantes a reencontrar o equilíbrio interior.

Que tal agora, atiçado por tanta beleza, aprender o idioma japonês? Se é fácil, não sabemos. Mas logo ali, em Suzano, fica a Escola Kongoji Gakuen. Então, Youkoso! Benvindo a essa cultura milenar.


Não deixe de conhecer essa bela história

Quando, em 1908, o navio Kasato Maru se aproximava do porto de Santos, uma cintilante onda verde esmeralda se agitava acima das cabeças dos imigrantes. Eram milhares de bandeirinhas do Brasil, presas a pequenas hastes de bambu e confeccionadas ainda no Japão, em delicada seda, para amavelmente saudar os brasileiros quando os imigrantes avistassem a nova pátria.


Preste atenção
Na profusão dos multicoloridos produtos japoneses que forram as prateleiras das lojas e arrebatam os visitantes, estão os Maneki-Nekô. Conta antiga lenda que uma estalagem recebia poucos hóspedes, até o gato Maneki sentar-se na soleira da porta e ficar acenando para as pessoas. O hotel passou a ficar sempre lotado e o gato tornou-se símbolo de fartura. Se balançar a pata esquerda, Maneki chamará fortuna. Se mover a direita, atrairá saúde e felicidade.


A Liberdade tem mais
Doces Kanazawa

Entre as lojas da rua Galvão Bueno, essa se destaca por seus coloridos doces. Contam os risonhos doceiros que, quando o Imperador Akihito foi presenteado com uma bandejinha deles, pediu bis. Uma vez lá, prove o manju ou os tradicionais doces de arroz e de feijão.

Arte Brasil-Japão
O acervo da Pinacoteca de São Paulo, na praça da Luz, possui mais de 70 obras em diferentes estilos e técnicas de pintores e escultores japoneses ou nipo-brasileiros, como  Takashi Fukushima, Manabu Mabe e Hisao Ohara.

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil

Inaugurado em 1978, o espaço conta a história dos imigrantes por meio de 28 mil documentos, cinco mil objetos, 10 mil fotos e até maquete do pioneiro navio Kasato Maru, além de uma típica casa de colono nas fazendas cafeeiras.
 

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