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Escrito por Heitor e Silvia Reali   

Pequena cidade, grande história

Você certamente vai se surpreender ao rodar 200 quilômetros a partir de São Paulo ou Curitiba, se embrenhar pelo Vale do Ribeira e encontrar numa cidade de apenas 30 mil habitantes um verdadeiro testemunho sobre a história do Brasil.


Pode ser que a história do País, pelo menos a ensinada nas escolas, seja chata, fincada na decoreba. Mas se o aluno tiver a sorte de visitar Iguape e conhecer seu passado, tudo pode mudar. Cada página da história dessa cidadezinha paulista de pouco mais de 30 mil habitantes é uma surpresa.

Tombada pelo Iphan como Patrimônio Nacional, Iguape não pode ser vista apenas por sua arquitetura e localização privilegiada, envolvida pelo bioma de maior diversidade do planeta, a Mata Atlântica. Mas, sobretudo, pelos acontecimentos que marcaram sua história.

Lá longe, há sete mil anos, surgiram os primeiros indícios da ocupação humana nessa região, os sambaquieiros, como têm sido denominados os povos dos sambaquis. E sambaqui, na língua tupi, significa “monte de conchas”. Uma das relíquias da arqueologia brasileira – uma pequena estatueta esculpida em pedra, conhecida como Ídolo de Iguape – foi ali encontrada por volta de 1906 pelo naturalista alemão Ricardo Krone.

Na outra ponta da história, já no continente europeu, e mais precisamente em 1494, Portugal e Espanha firmaram o Tratado de Tordesilhas, separando as terras conquistadas ou a conquistar no Novo Mundo. E por onde passava a linha que repartia os dois quinhões? Iguape. A região era o divisor de águas do segmento mais ao sul do tratado.

Dois anos depois do “achamento” do Brasil, a armada que tinha Américo Vespúcio como navegador deu passe livre a um dos tripulantes, conhecido como Bacharel, homem de grande erudição, e o desembarcou ali, naquele fundão do mundo. Sozinho. Por quê? Ninguém sabe. O fato é que ele e alguns índios fundaram a vila de Icapara, futura cidade de Iguape. Com o Bacharel também teria origem uma série de mistérios que fazem da cidade uma fonte ficcional: seus contos e lendas mesclam-se até hoje na cultura popular.


Vigor econômico

Pode-se afirmar que Iguape definiu o Brasil no século 17 e foi uma de suas mais importantes cidades nas eras seguintes. Ficaram à mostra, para quem quiser viajar no passado, belos casarões, atestando a riqueza ostentada durante toda a colonização e o Império. Estão ali a primeira Casa Real de Fundição de Ouro do Brasil, de 1630, hoje Museu Histórico e Arqueológico de Iguape. Além dos palacetes dos barões do arroz, construídos a partir do fim do século 18 – retratos de seu mais importante ciclo econômico. O arroz ali produzido era considerado o melhor do mundo. A economia girava com tanto vigor que o porto da cidade se igualava em importância ao do Rio de Janeiro.

Em meados do século 19, a cidade tornou-se uma das mais desenvolvidas do Brasil. Seis jornais circulando ao mesmo tempo dão conta de como fervia a vida política e social do lugar. Por isso não causou espanto que lá se realizasse a maior obra de engenharia do Brasil naqueles tempos: Valo Grande, um canal de dois quilômetros de extensão, por quatro metros de largura e dois de profundidade. A construção, que teve início em 1817, ligava o rio Ribeira ao Mar Pequeno. Navegando por ele, embarcações vindas do interior, carregadas de produtos agrícolas e minérios, economizavam dois dias de viagem.

A obra, porém, quase faria Iguape desaparecer do mapa no século seguinte. Pouco a pouco, o pequeno canal engoliu as margens e atingiu até 300 metros de largura. Em 1970, já havia assoreado o porto e transformado a cidade em ilha. O que seria um empreendimento de sucesso se transformou em pesadelo. E soterrou a economia da região.

Sambaquieiros, indígenas, colonizadores europeus, escravos… O que mais faltaria para compor o retrato do povo brasileiro? Imigrantes no século 20? Pois não. Uma lei federal de 2008 deu a Iguape o título de “Cidade Berço da Colonização Japonesa no Brasil”. Atraídos pela fama do arroz – ou não? –, os japoneses ali aportaram em 1913. E ainda deram impulso a uma nova economia – a do chá.


Preste atenção

A cidade tem muitos causos, e muitos deles com indícios de que não vão além da pura ficção. O mais comentado é o da pedra que cresce. Conta-se que em 1647 alguns índios encontraram a imagem de Bom Jesus em uma praia e decidiram levá-la para a vila de Itanhaém. Em vão. Ao tentar transportá-la, a estátua se tornava tão pesada que, mesmo fazendo das tripas coração, acabavam por desistir. Só não entendiam porque, ao mudar a direção para Iguape, isso não acontecia. Foi assim que a imagem chegou à igreja de Nossa Senhora das Neves. Antes, porém, teria sido banhada sobre uma pedra que, a partir de então, começou a crescer continuamente. Dizem que suas lascas até hoje operam milagres.


Não deixe de ler
Convidado por Oswald de Andrade para visitar Iguape em 1949, durante os festejos da romaria de Bom Jesus, o escritor francês Albert Camus se impressionou de tal forma que registrou a passagem pela cidade no seu Diário de Viagem. E inseriu o conto A Pedra que Cresce em O Exílio e o Reino. Conta-se, aliás, que devido à precariedade dos hotéis de Iguape, Camus e sua comitiva foram acomodados em macas no antigo hospital da cidade.


Iguape tem mais
Complexo Estuarino Lagunar de Iguape, Cananeia e Paranaguá
É difícil acreditar que perto da maior cidade da América do Sul, a apenas 210 quilômetros, ainda exista uma região quase primeva, formada por um conjunto de ecossistemas de rara beleza. É a Serra da Jureia e seus entornos. Protegido pela Cordilheira dos Itatins, esse resquício da Mata Atlântica abriga uma faixa de quase 50 quilômetros ao longo do mar, em que a fauna e a flora remontam ao tempo dos primeiros colonizadores. Repleto de ilhas e mangues, está entre os mais importantes ecossistemas costeiros do planeta, listado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Romaria de Bom Jesus de Iguape e Nossa Senhora das Neves
A segunda festa religiosa mais importante de São Paulo, conhecida como Festa de Agosto, atrai romeiros do Brasil inteiro para participar de missas, palestras, shows, procissões e da feira que reúne barracas de várias cidades brasileiras, com suas culinárias e artesanatos.

Caiçaras

O termo se origina do tupi-guarani (caa, mato, e içara, armadilha). Donos de profundo conhecimento de proteção e sobrevivência, e intimamente ligados às águas, os caiçaras deixaram suas tradições como rica herança. Seja na construção de canoas, nas roças de mandioca, na culinária, na cerâmica utilitária e decorativa, na cestaria, nos entalhes de madeira, ou ainda na música e nos folguedos. Basta um encontro nos povoados de Despraiado, nas comunidades de Jureia, Icapara e Itimirim para se viver essa experiência enriquecedora.

 

 

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