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Entrevista com Dona Inah E-mail
Escrito por Jaqueline Ogliari   

O Almanaque bate um papo com a sambista, que conta as dificuldades de sua trajetória e celebra o auge de sua carreira.

Aos 75 anos, Dona Inah vive o auge de sua carreira como sambista. Depois de mais de 50 anos, ela foi redescoberta num show em homenagem a Clementina de Jesus. Gravou dois álbuns, o primeiro em 2005, e hoje prepara o terceiro, com boleros cubanos. Hoje realiza a maratona de shows semanais disputados, e já cantou ao lado de outros grandes do samba, como Délcio Carvalho, Quinteto em Branco e Preto, Dona Ivone Lara, Jair Rodrigues, Maria Rita, Eduardo Gudin e Monarco. Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, o Almanaque entrevistou Dona Inah, mulher que, depois de muita luta, se tornou um ícone do samba paulistano.


Como você descobriu a música?
Meu pai era músico em Araras, de um conjunto chamado Boêmios da Cidade, só com parente. Eu tinha 8, 9 anos eu gostava de música. Os meus tios por parte de mãe eram sertanejos, gostavam de música da roça e eu ia sempre às festas deles, aprendi a dançar catira, músicas gostosas de sapateado, mas já optei pelo samba, pelo popular. Ia muito com meu pai nos bailes das fazendas, na cidade mesmo. E aí decidi que queria cantar no serviço de alto-falante da cidade, uma espécie de rádio que transmite por ali. Fui lá, falei que queria cantar, e quando tinha marcado, cantei uma valsa, aos 9 anos, Eu sonhei que tu estavas tão linda. Ganhei o primeiro lugar, e de lá continuei, toda semana me convidavam.

Depois apareceu um grupo, e outro, e assim cantava toda semana, até que apareceu um programa na Rádio Educadora de Limeira. Ia todo domingo cantar. Nessas alturas, já trabalhava como babá, ou ajudando a família na roça. Com 14 anos, a orquestra da cidade perguntou se eu queria cantar com eles, do senhor Hugo Montanholi. E fui trabalhar com ele no Araras Clube.

Por que decidiu se mudar para São Paulo?
Eu cantava imitando a Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, e um dia o Orlando Silva me aconselhou: “Não imita ninguém, você sabe cantar, é criança ainda.” Então, vim pra São Paulo com 17 anos, fui morar em Santo André e lá foi uma luta. Meu pai estava desempregado, e fui trabalhar como doméstica na casa de uma professora. Ela ajudava com comida, fazia marmitinhas pros meus irmãos, e nessas alturas apareceu um concurso na Rádio Cultura. Me inscrevi, fazia 8 meses que estava em São Paulo, e todo mundo foi me embonecando pra ir ao programa de calouro. Fui a vencedora, uma boba caipira que ganhou o prêmio, e assim começou minha carreira em São Paulo.

Você começou nas rádios paulistas, mas também tinha que conciliar a música com a vida de trabalho de doméstica, de funcionária pública. Como você dava conta?
Comecei na Rádio Clube de Santo André, e fui a primeira cantora deles. Cantei com grandes orquestras, Narcizo [Scaterzzini], Clube da Rhodia, André Beers, que me incentivou muito. Trabalhei na Rádio Record, mas fazia apresentação uma ou duas vezes por semana, e ganhava por cachê. Depois me casei, tive dois filhos, parei de cantar uns tempos, cantei na igreja, em penitenciária. Mas um dia falei: “Não é isso que eu quero”.

A primeira casa que trabalhei em São Paulo foi a Avenida Dança. Quando cheguei na porta, perguntei se precisavam de cantora, e aí fiz um teste. Tobias Troise, um grande violinista, foi e me perguntou: “Se eu levar você lá dentro, você faz um repertório e canta?” Nunca tinha entrado numa casa noturna, eu estava tremendo. Não estava bem vestida, mas falaram pra ir assim mesmo. Comecei a cantar e ele falou “vai ficar cantando comigo aqui”.

Durante esses shows, nas apresentações nas rádios, quais dos grandes nomes do samba você conheceu?
Na Record conheci a Aracy de Almeida, Isaura Garcia, Neide Fraga, Elizeth Cardoso, todo o pessoal que vinha do Rio pra São Paulo cantar na Record, que era na Quintino Bocaiúva esquina com a Rua Direita. E quem me deu muita força foi a Sônia Ribeiro, esposa do Blota Jr. Depois veio a televisão, mas eu já estava muito cansada, com filhos, tinha acabado de separar do marido, aquele negócio todo. Pastei muito, comi o pão que o diabo amassou, lutei muito. Às vezes não tinha o que pôr no fogo pras crianças comerem. Essa foi a parte mais difícil. Morava em Taboão da Serra nessa época, pegava comida do mato pros meus filhos comerem. Mas não me arrependo de nada do que fiz. Tudo o que fiz foi pra mim.

Você veio pra São Paulo pra cantar em orquestra. Como fica se hoje não têm muitas como antigamente?
Infelizmente não tem muita orquestra... Estudei muita música quando era garota, meu pai me ensinou a tocar bandolim, e eu tenho essa noção. A orquestra tem muito instrumento, e todo mundo pergunta “como que canta?”. Mas é a melhor coisa, todos se ajudam, tudo está escrito, arrumado, não é como um conjunto que ensaia e um esquece. Mas hoje a maior parte dos músicos leem partitura, são estudados. Antigamente isso era muito difícil, então fazia muito ensaio. Em orquestra a gente já sabe o repertório, quatro sambas, quatro boleros... Eu não tenho medo de orquestra.

Isso não te dá vontade pra fazer um álbum com uma orquestra?
Eu tenho. É um projeto que tenho vontade, mas hoje fica um pouquinho caro, tem que pagar estúdio, músico... Antigamente, não sei por que, a gente gravava na sala, era um microfone grande no meio da sala, músicos em volta do cantor, um, dois, três e já estava cantando. Se não ficasse bom, tinha que desfazer tudo porque era ao vivo. Hoje é muito mais fácil, mas eu gostava mais de antigamente.

E suas composições? Não quer fazer um disco um dia com elas?

Fiz alguma coisa aí, mas não é muita música não. Porque a gente fazendo... Sei lá, tenho medo de soltar alguma coisa, depois não dá certo, fico assim, retraída, chateada, entendeu? Prefiro escolher as coisas bonitas dos outros. De repente um dia eu faço um disco meu, tá cedo, ainda tô com 75 anos!

Mas dizem por aí que seus sambas são muito bonitos...
Tem um samba que minha filha não gostava dele. Ela dizia “ai, mãe, parece música de velório, que você tá desejando a morte!” [risos] De repente dou um dia pra alguém gravar, não eu, outra pessoa. Mas tenho muita amizade com compositores, do Rio tem o Délcio Carvalho, Nei Marcos, aqui em São Paulo todo mundo me conhece, o Quinteto em Branco e Preto, o Eduardo Gudin, grandes compositores que na hora que eu quiser uma música deles tenho certeza que vão me dar. Foi uma luta, gravei meu CD solo com 69 anos de idade, e consegui chegar onde queria.

E hoje é o momento mais nobre da sua carreira...
Com certeza. Quando teve o Fórum da Cultura Mundial em São Paulo, no Anhembi, eu tinha vontade de cantar num lugar desses. E, por coincidência, um produtor grande incentivador meu me pôs no Municipal. Fiquei boba, porque era meu sonho. Foi melhor ainda, porque cantei com a orquestra de violinos dos meninos do céu, um monte de garotada... Foi uma emoção muito grande, e nesse show tinha um produtor dos festivais da Europa, e ele falou “vou te levar pra França”. Eu não acreditei, tão acostumada com promessas e nada... Então, um tempo depois, chegou um rapaz francês na minha casa e falou que eu ia pra lá no ano seguinte. Em 2005 eu estava na França. De lá fui pra Espanha, e lá descobri que ia pro Marrocos no mês seguinte. E foi um show lindo, numa praça enorme, e eu era a única brasileira que se apresentou. Primeiro entrava um grupo para anunciar um cantor e quem me anunciou foram os tambores de Berlim. Um show pra 15 mil pessoas...

Não ficou nervosa na hora?
Não, sou muito calma. Quando subo no palco não vejo ninguém na minha frente. Parece que estou cantando na minha casa. Escuto os aplausos, mas me transporto. E o segundo show de Marrocos foi num palácio muito bonito, os convidados todos sentados, e vi duas bandeiras do Brasil lá longe enquanto cantava. Foi muito gostoso, muita emoção.

Você está preparando um terceiro disco atualmente? Como vai ser esse novo disco?
O terceiro disco está praticamente pronto. Fui pra Cuba no ano passado e lá fiz muita amizade, sou de pouco falar, mas sou muito comunicativa. Quando cheguei, no começo de 2010, já estava cantando bolero com um grupo cubano. E onde eu ia eles queriam que eu cantasse, cantei muito na rua, e lá cada ponto tem alguém cantando. Adorei Cuba, de todos os lugares foi o que mais me tocou. E lá pediram pra eu gravar com eles. Voltei para o Brasil e decidi que iria, entrei em contato e eles me chamaram para ir lá. Em novembro fomos de novo, mandei um repertório de músicas que eu gosto, boleros, e já estava tudo arrumado, os arranjos, o estúdio pronto, enfim. Foi só chegar pra gravar. Em 10 dias gravei 14 músicas, de manha à noite. E eles são muito bons. Falta uma coisa ou outra, colocar a voz definitiva, mas lança ainda nesse ano. Quero ver se consigo, por intermédio da Secretaria de Cultura, trazer pelo menos 3 ou 4 músicos de lá pra cá, pra fazer o lançamento das músicas deles. Queria muito que viessem aqui, porque eles merecem.

Você foi redescoberta no espetáculo Rainha Quelé, quando foi convidada pelo produtor Heron Coelho pra homenagear a Clementina de Jesus. Você acha que sua trajetória é semelhante à de Quelé?
Foi no SESC Ipiranga, eu, Maria Mendalha e Fabiana Cozza. Não, não acho, apesar que eu fui saber da trajetória dela muito depois. Mas ela também foi uma sofredora, viu. Ela foi descoberta pelo Hermínio, que me deu muita força. “Dona Inah” mesmo foi ele quem deu. Eu cantava como Ignez Francisco. Antes dele, começaram a inventar um nome pra mim, daí falaram pra colocar Inah da Silva. E foi indo, fiquei muito tempo com esse nome, até que Hermínio falou: “Tira Silvia, tira tudo. Dona Inah”. Ele me batizou e isso me deu muita sorte.

Que mulheres sambistas você admira? Tanto as de antigamente como as mais recentes, do cenário contemporâneo?

Sambista hoje aqui em São Paulo tem. A Fabiana Cozza é uma delas. Eu a admiro muito. Adriana Moreira, que eu conheço... E nem falo de mim porque os outros que tem que falar, não eu! Fabiana Cozza é muito lutadora, tem várias por aí, mas ela é que mais se destaca. Nós fizemos show junto. Então tem essas três paulistas, eu, Fabiana Cozza e Adriana Moreira. Do Rio é a Ivone Lara, que é uma grande amiga. Tenho músicas dela pra gravar, ela diz “escolhe o que você quiser que eu assino embaixo”. É uma pessoa maravilhosa. Beth Carvalho também, uma grande amiga, muito bacana. Ela me apresentou no bloco Cacique de Ramos. A Teresa Cristina também é uma sambista muito boa, adoro ela também.

Das antigas, Aracy de Almeida, que canto até hoje, Isaura Garcia, Hebe Camargo, adorava vê-la cantar. Neide Fraga, Lucélia Rocha, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Linda Batista... A Jovelina Pérola Negra também, mas não pude conhecê-la pessoalmente, fiquei triste por não ter tido esse contato com ela, mas devia ter sido uma mulher maravilhosa. A Jovelina lembrava muito a minha avó, que era escrava, a gente tinha essa lembrança daquelas pretas velhas que gostavam de conversar...

Por que você escolheu gravar, como seu segundo álbum, canções do Eduardo Gudin?
As músicas dele são muito lindas. Um dia falei pra ele que ia gravar um disco só com samba dele. “Pra quê, Dona Inah”, ele dizia, e eu falava “ué, porque eu quero gravar”. Então ele falou pra ir ao computador escolher o que quiser, arrumou disco pra ouvir as músicas, eram 280 músicas que tinham no computador dele. Quando acabou tudo, eu queria gravar o Verde, e ele foi no estúdio ouvir as outras. “O que você fez com as minhas músicas”, disse, porque o estilo dele de cantar é mais pra trás, e eu já fiz mais samba. O Gudin é uma pessoa maravilhosa, de pouca palavra, de pouca conversa, mas é um grande amigo.

Tem algum samba que mais te toca?

O samba que mais me toca... Tem tantos... Mas tem uma música do primeiro disco, Como É que Eu Posso, do Cartola, que eu gravei, um samba-choro inédito: Como é que eu posso / Cozinhar sem banha / Sem cebola e alho / Sem vinagre e cheiro / Como é que eu posso / Ter bom paladar / Sem você deixar / A grana pros temperos... É inédita e eu gravei ela.

Qual foi o momento mais emocionante da sua vida?
A primeira coisa que me tocou foi entrar no Teatro Municipal pra cantar. Um mês antes passei lá na frente e falei pro meu amigo, que estava comigo: “Vou cantar aqui ainda”. Ele falava que não, que era só pra ópera, mas não demorou 15 dias e eu recebi o convite pra cantar no Municipal. Quando entrei lá, estava no céu, e pensei: “Graças a Deus eu venci”.


SAIBA MAIS
Veja ao lado um vídeo de Dona Inah cantando Lá Se Vão Meus Anéis no programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin.
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